quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

Sala Privê




Conheci Luciana numa reunião do Clube da Leitura, que é um clube onde as pessoas lêem trechos de livros e comentam sobre o que gostaram ou não gostaram. Na verdade acontece mais coisa, mas eu nunca entendi direito, então é melhor nem tentar explicar. Faz tempo que parei de frequentar, primeiro porque não gosto de ler, e segundo, e mais definitivo, porque lá só dava coroa. Luciana era uma exceção, com seu vestido preto, seu decote autoafirmativo e sua maquiagem vulgar, avacalhada pelo verão do Rio. No dia que nos conhecemos ela tinha ganhado o premiozinho da noite e não me deu muita atenção. Algumas semanas depois, justamente quando eu estava percebendo que aquilo não era lugar para mim, ela veio falar comigo.
Gostei do trecho que você leu.
Eu tinha lido o trecho de um livro que peguei lá em casa, acho que era da minha mãe.
Legal, né. Olha, eu estou só dando um tempo aqui, depois eu vou para a Homens de Terno. Você está a fim de ir? Meu carro está ali na Hilário de Gouveia.
Homens de Terno, o que é isso?
É essa boate nova que abriu aqui em Copa. Tá bombando, tá todo mundo indo para lá.
Homens de Terno? Não, acho que eu não conheço, não... Mas olha, eu tenho estágio amanhã, então fica para outro dia, tá. Você vem sempre aqui, a gente vai acabar se encontrando.
Preferi não dizer que eu não voltaria mais ao clube. Peguei o carro e fui para a Homens de Terno. Lá tem um lance legal, você escolhe algumas músicas numa tela, e o sistema vai tocando automaticamente as mais pedidas. As que eu escolhi nunca foram tocadas, mas claro que eu não ligo. Eu gosto mesmo é de tecnologia. Sou webdesigner e estou pensando em fazer um curso de programação.
Fiquei por ali, dançando e bebericando minha caipvódica. De repente quem eu vejo na pista? Era a Luciana, achei que ela parecia mais alta, mas era ela mesmo.
Ué, você falou que não vinha.
Olha que louco. Uma amiga me ligou, perguntei onde ela estava, e ela falou que estava aqui. Achei uma súper coincidência.
E cadê sua amiga?
Ela já foi.
Ah, tá.
Fiquei dançando um pouco, depois fui comprar um Red Bull. Quando voltei para a pista, eu já estava um pouco alto e fui me aproximando da Luciana e dançando com os braços meio abertos. Ela deve ter achado que eu queria abraçá-la, e me abraçou, e a gente ficou dançando agarradinho, até nossas bocas se encontrarem meio sem querer ou por querer ou por nada. Ela não era assim aquela gata, mas tinha um corpo legal e beijava gostoso. Passamos um tempo nos beijando e dividindo o Red Bull, depois ela falou que queria uma água e a gente foi para uma mesinha. Eu notei que ela estava sem sutiã, e uma mulher sem sutiã me dá uma aflição que eu não sei explicar. Esperei ela acabar a água, e falei:
Olha só, tem umas salas privês aqui, só que a consumação é mais cara.
Eu não ligo para sala privê. Você liga para sala privê?
Pois é, eu prefiro a sala privê, a gente fica mais à vontade, tem ar condicionado... Olha só, se eu pagar a consumação, você acha que dá para rolar um sexo legal?
O quê?! Você tá doidão, cara? O quê que você tomou?
Tomei só o Red Bull mesmo. Estou perguntando para evitar mal entendido. Não quero pagar a sala privê para a gente ficar só beijando.
Quê é isso, cara?! Você é louco? Isso não é jeito de falar com mulher, não. Se você está acostumado a falar assim, você deve estar andando com gente muito vulgar.
Desculpe, eu queria falar antes, para não ter mal entendido. Ia ser muito chato se a gente entrasse lá na privê e você não quisesse transar.
Pô, cara, não é que eu não queira ir para a privê, mas desse jeito que você falou, sinceramente, isso brocha qualquer uma.
Tudo bem, tudo bem. Não precisa ficar nervosa. Eu só queria perguntar antes para evitar mal entendido...
Sei... Você é muito sinistro, viu.
É... Eu sou meio sinistro...
Ficou aquele clima estranho. Eu não sabia o que dizer, e estava louco para ir para a sala privê. Deixei passar um tempo, e falei:
Olha, a gente pode se ver outro dia. Deixa seu telefone comigo.
É, acho que vai ter que ser outro dia mesmo. Hoje foi estranho, né.
É, pois é...
Vem cá, me fala só uma coisa. Você já falou assim com outra mulher?
Já, já falei, sim.
E deu certo?
Não é uma questão de dar certo. Ela também queria ir para a sala privê.
Meu Deus, mas você não entende, né! Não é que eu não quisesse ir, mas desse jeito que você falou, simplesmente não dá, cara. Não é assim que se fala com uma mulher.
Eu sei, você já falou isso... Mas eu sou assim mesmo, gosto de deixar as coisas bem claras. É o meu jeito, sei lá. Mas olha, agora eu vou lá para a privê, tá. Outro dia a gente conversa. Me fala seu telefone aí, qualquer dia eu te ligo.
Ela falou o telefone e eu salvei por puro reflexo. Não estava pensando em vê-la de novo. Quando entrei na privê, senti aquela sensação gostosa, aquele conforto, aquela tranquilidade. Tinha ar condicionado, tinha um sofazão, o vidro fumê dava para a pista. Fiquei um tempo curtindo aquele clima gostoso, depois liguei para o Minuto (o nome do cara é esse mesmo, Minuto).
Fala aí, Minuto! Beleza?... A Bárbara está por aí?
A Bárbara não está aqui em baixo, não. Deve estar atendendo alguém.
Tem alguma peituda, aí?
Tem uma charmosona aqui, que chegou há pouco tempo do Espírito Santo.
Quando o Minuto fala “charmosona” é porque a mulher é meio coroa. Não curto coroa, falei com ele para me ligar se chegasse alguma garota mais nova.
Passou um tempo, o Minuto me ligou.
Chegou uma menina aqui.
É branca? Cabelo liso?
Sim, é branquinha, cabelo liso. Duzentos reais.
Fala com ela para subir.
A garota valia até mais que duzentos. Era novinha, tinha um corpaço. O foda é que tinha aquele sotaque carregado do interior de Minas. Odeio esse sotaque. Faz a mulher parecer uma empregadinha. Mas a vida é assim mesmo, não se pode querer tudo na mesma noite, na mesma mulher.
Apesar de novinha, a garota era experiente e conduziu muito bem a situação. Me relaxou de várias formas. Depois me bateu uma fome danada e eu pedi um chisbúrguer com batata. Quando vi que ela ficou de bobeira, fazendo hora ali na sala, disse que estava esperando um amigo e pedi que ela se retirasse. Se eu não fizesse isso, ela ia avançar na minha batata. Eu conheço bem essas meninas, sei o que estou fazendo. Comi meu chisbúrguer numa boa, depois fiquei de bobeira, simplesmente ouvindo música e me sentindo feliz. Não sei se é assim com todo mundo, mas depois do sexo eu sinto uma coisa tão boa que só pode ser felicidade. Depois fui para casa dormir com a minha felicidade.
Algumas semanas depois, eu estava sozinho, e resolvi voltar no Clube da Leitura. Não gosto muito daquele lugar, mas, como não consigo ficar em casa, acabo indo para qualquer lugar onde tem alguma coisa acontecendo. Peguei um livro da minha mãe, e fui.
Assim que cheguei, vi a Luciana. Achei que ela nem ia me cumprimentar. Mas ela veio falar comigo.
E aí, tudo bem? Como é que foi aquele dia lá na boate? Você encontrou alguém que queria ir para a privê?
Encontrei, sim. Chamei uma garota de programa.
Ah, chamou uma garota de programa?! Então você é um homem moderno, século XXI?
É, acho que eu sou, sim.
Alguém chamou a atenção da gente. Estávamos atrapalhando o evento. Ficamos quietos, aguardando nossa vez. Depois abri o livro em qualquer página e li um trecho lá. No fim do evento todo mundo votou no meu trecho, e fiquei em dúvida se devia ficar contente ou envergonhado. Mas resolvi ficar contente.
Quando tudo acabou, a Luciana veio falar comigo.
Legal esse livro. É da Anaïs Nin, né.
É...
Vem cá, você vai para a Homens de Terno hoje?
Posso ir.
Você me leva?
Levo, sim. Tudo bem.
Quando entrou no carro, ela ficou folheando o livro, depois falou: ― Parece que é muito maneiro esse livro. Você me empresta?
O livro é da minha mãe, não posso emprestar, não.
Ah, tá... Tudo bem... Eu vou anotar o nome, depois eu tento baixar na internet...
Chegamos na Homens de Terno e ficamos dançando assim de bobeira, sem muita vontade. Acho que ela estava chateada comigo, porque no outro dia eu a tinha deixado sozinha. Mas o que eu podia fazer? Eu estava muito a fim de transar. Se a gente fosse para a privê, e ela não transasse, eu ia ficar muito puto. E de repente, quem eu vejo na pista? Leandra, aquela loira catarinense inacreditável! Ela estava com uma blusa rendada, transparente, chamando bastante atenção. Se eu não agisse rápido, ia perder a oportunidade. Cheguei nela já falando: ― E aí, Leandra, você está linda!
E aí, gatinho. Tudo bem?
Vamos subir para a privê?
A gente pode ir, mas hoje eu estou cobrando trezentos, tá.
Pô, trezentos, Leandra? Por que é que aumentou assim, de repente?
A cidade está com pouco movimento, sei lá. Não está dando para pagar as contas.
Tudo bem, eu entendo. Eu tenho aqui, não tem problema.
Ela abriu um sorrisão para mim, depois me deu um selinho. Meu Deus, não tem nada melhor que uma mulher como a Leandra! O homem que inventou a garota de programa fez um bem tremendo para a humanidade. É um dos meus heróis, sem dúvida.
Mas a Luciana estava ali do meu lado, e ela ficou me olhando com uma cara súper amarrada. Fiquei meio sem graça, e resolvi apresentar as duas.
Olha só, Luciana. Essa aqui é a minha amiga, Leandra.
A Leandra estava de salto e chortinho de látex. Ela tinha cabelos pintados, quase amarelos, e seios do tamanho de bolas de vôlei. Estava meio na cara que ela era garota de programa. A Luciana ficou meio confusa, não sabia o que dizer.
Prazer... Eu conheço o Rodrigo lá do Clube da Leitura.
Eu conheço ele daqui mesmo... ― Ela riu, com uma cara maliciosa. ― Ele não sai daqui.
Exagero dela, Luciana. Eu venho no máximo duas vezes por mês. Também não sou nenhum Eike Batista, né.
Rimos um pouco, falamos algumas trivialidades, depois subi com a Leandra para a sala privê. Ela estava maravilhosa. Já temos alguma intimidade. Ela é como uma velha amiga para mim, mas não perdemos muito tempo conversando.
Mais uma vez, encontrei aquela felicidade serena e ao mesmo tempo vibrante. Depois me deu um pouco de fome e fui para o bar, comer alguma coisa. Assim que pedi uma batata, quem apareceu? A Luciana.
Ué, pensei que você já tinha ido.
Resolvi ficar um pouco.
Me dei mal. Quando a batata chegou, ela meteu a mão. É por isso que eu não gosto de comer perto de mulher. Elas se sentem no direito de comer o que é seu.
Passou um tempo, falei: ― Tô indo. Ela me segurou pelo braço: ― Deixa eu te perguntar só uma coisa. ― Fala, o que é: ― É que... essa Leandra... Quer dizer, foi com ela que você subiu para a privê, não foi? ― Foi ela mesmo. ― E ela... quer dizer, quanto ela cobra para ficar lá com você? ― Duzentos. ― Nossa, duzentos reais?! Duzentos reais para ficar uma hora na privê? ― Não sei se foi uma hora, você marcou? ― É... Marquei... só de curiosidade. ― Pois é, então é isso. Duzentos reais, uma hora. Agora eu preciso ir, estou morrendo de sono. ― Você vai voltar no Clube da Leitura? ― Não sei. ― Vai, sim, pô. Aparece lá. ― Tá, eu vou. Tchau.
Passaram algumas semanas, lá estava eu no Clube da Leitura, de novo me perguntando que diabo eu ia fazer naquele lugar. A Luciana viu que eu estava com o mesmo livro, e perguntou: ― Anaïs Nin, de novo? Eu nem sabia que o autor daquele livro se chamava Anaïs Nin. Os outros livros que tinha lá em casa eram sobre dietas ou sobre os não sei quantos passos das pessoas de sucesso. Aquele era simplesmente o único que eu podia levar.
Chegou minha hora, li qualquer trecho lá. Eles gostaram, até bateram palmas. A Luciana me perguntou: ― Quando é que você vai me emprestar?
Você não conseguiu baixar pela internet?
Por que você não baixa para mim? Você tem cara de ser meio hacker.
Ah, meu Deus, mulher é um saco. Dei um tempo e saí de fininho e nem falei para a Luciana que eu estava indo para a Homens de Terno. Fiquei com medo de ela pedir carona e ficar insistindo para eu emprestar o livro.
Cheguei na boate. Não deu cinco minutos e ela estava lá. Ficou falando besteira, nhém, nhém, nhém, Anaïs Nin, não sei mais o quê. Eu não aguentava mais, daí falei: ― Você me paga um Red Bull? Ela falou: ― Tá sem grana? tudo bem, posso pagar. Então resolvi ficar mais um tempo, porque pelo menos ela estava pagando o Red Bull. Daí de repente me deu a impressão de que ela estava falando “se eu fosse cobrar não seria menos de trezentos”, e acho que meu olho brilhou. Eu pensei: a minha cabeça está latejando ou o quê?
O que foi que você falou?!
Eu falei: Anais Nin, nhém, nhém, nhém, não sei mais o quê.
Não! Sobre os trezentos reais?
Ué, se eu fosse cobrar, não seria menos de trezentos. Não sou nenhuma vagabunda, né. Eu tenho classe.
Olhei para os peitos dela. Ela estava de sutiã, mas deu para ver que era um sutiã honesto, sem enchimento. Daí mandei:
Vamos subir, eu tenho os trezentos aqui!
Ah, você é louco, né. Você era bem capaz de me dar esses trezentos mesmo.
Chega de conversar, vamos para a privê, agora! Falei isso com raiva e tesão, depois a agarrei e a beijei com força. Quando fomos para a sala privê, meu coração estava a mil, eu sentia que estava me acontecendo uma coisa estranha e bonita, uma coisa que não pode acontecer todo dia. Abaixei o vestido dela, tirei o sutiã e nadei naqueles seios lindos, porque eu era uma criança feliz, encontrando uma piscina ou um brinquedo fantástico ou um milagre. Tudo foi quase perfeito, mas teve hora que ela ficou me olhando com uma cara interrogativa, como se estivesse perguntando: “eu estou fazendo direito? É assim que as putas fazem?”, mas também podia ser: “você vai baixar o livro para mim? Você vai contar para alguém do Clube da Leitura?”
Só que, mesmo não sendo perfeito, a felicidade do sexo me dominou; fiquei mais uma vez com a impressão de que a vida valia a pena. O dinheiro, o sexo, as prostitutas, tudo isso é muito bom, não entendo por que tem tanta gente que fala mal. Assim que ela se vestiu, eu passei para ela os trezentos reais. Ela enfiou na bolsa e falou: ― Você sabe que eu só estou aceitando isso porque é uma fantasia sua, né. Você sabe que isso não tem nada a ver comigo, é tudo uma loucura que você criou.
Eu sei, isso não está acontecendo.
Ela riu.
Você vai ficar mortão aí, não vai descer?
Vou ficar mais um tempo aqui, só curtindo o ar condicionado.
Tá, você tem meu telefone. Qualquer coisa me liga.
Fiquei um tempo lá, deitado, só ouvindo a batida que vinha da pista, pensando em como eu gostava daquele lugar, como eu gostava do meu dinheiro, das mulheres brancas, dos peitos grandes... ou talvez eu não estivesse pensando em nada, o que era ainda melhor.
Passou um tempo e me deu aquela vontade de ir para o Clube da Leitura. Mas eu queria ser forte, queria não ir. Peguei o telefone e liguei para a Luciana.
Eu estou aqui na Homens de Terno ― ela falou.
Você não vai no Clube da Leitura?
Hoje eu acho que vou ficar por aqui.
Peguei o carro e fui para a Homens de Terno, feliz por conseguir evitar o Clube. Cheguei lá, não vi a Luciana, mas não liguei. Pedi uma caipivódica e fiquei de bobeira. Daí a pouco aparece o Minuto.
Sabe quem tá aí?
A Suzana?
Não, a Bárbara.
A Bárbara, que maneiro! Cadê ela?... Ah, tá, já vi, já vi.
Fui dançando para perto da Bárbara, cumprimentei, perguntei se ela estava esperando alguém, que é o jeito de perguntar se uma garota está livre. Graças a Deus, ela não estava esperando ninguém, e subimos para a privê. Eu não preciso descrever a Bárbara, pense nas garotas mais bonitas que você já viu. Ela é tipo um resumo disso, com a diferença de que nela você tem como chegar.
Relaxamos gostoso, depois ficamos deitados de conchinha, num silêncio quase íntimo. Ela perguntou: ― Você não sente frio com esse ar condicionado? Eu falei que não, mas na verdade eu estava com um pouco de frio, sim. E também estava com fome, e pensei uma coisa bem óbvia: se eu pedisse comida pelo interfone, a Bárbara ia comer comigo e não ia pagar. Então me vesti e falei que eu tinha que voltar para o bar. Quando eu estava saindo da sala, vi uma coisa que eu não podia acreditar, e um segundo depois eu acreditei e achei espantosamente natural. A Luciana estava saindo de outra sala privê e se despedindo de outro cara. Ela me lançou um olhar sério e profundo, e aquele olhar dizia: não me cumprimente, finja que não me conhece. Obedeci candidamente, como quem obedece a uma regra que aprendeu na infância e não lembra que aprendeu. Mas não a perdi de vista e mais tarde consegui me aproximar.
Você foi no Clube da Leitura? ― ela perguntou.
Não fui, não.
Olha só, eu queria te pedir uma coisa.
Pode deixar, eu vou tentar baixar o livro para você.
Não, não é isso, não... É que... Não comenta com ninguém, não, tá. Porque isso é uma coisa temporária, não vou fazer isso por muito tempo.
Que é isso, não vou comentar nada com ninguém. Isso não está acontecendo, é só uma loucura da minha cabeça.
Ela riu uma risada gostosa, e ri com ela e acabamos nos abraçando, deliciosamente. Me deu vontade de falar “eu te levo em casa”, mas senti que isso estragaria o equilíbrio delicado daquela noite. Eu precisava voltar sozinho, para pensar devagar e entender o que eu já sabia. No carro lembrei que, quando nos conhecemos, ela estava com uma maquiagem exagerada, fazia gestos vulgares, parecia uma garota de programa. Naquela noite pensei que a diferença entre minhas amigas e as garotas de programa era apenas o dinheiro dos pais. Agora eu percebia que essa equação não era tão simples. Talvez houvesse, em algumas mulheres, uma alma de prostituta, esperando o momento certo para vir à tona. Eu fui esse momento para Luciana. O destino me usou para permitir que ela se revelasse a si mesma, e fizesse uma transição suave, sem traumas. Essa ideia me animou e confortou ao mesmo tempo, talvez porque no fundo eu ame as garotas de programa. Sem elas eu seria provavelmente mais um maridinho submisso, pai de dois filhos, trabalhando incessantemente para sustentá-los. As prostitutas me libertaram desse destino previsível e banal.
Cheguei em casa feliz. Minha mãe, mais uma vez, tinha dormido diante da televisão. Desliguei o aparelho, fui para o quarto, encontrei, na minha mesa, o livro da Anaïs Nin, que eu nunca tinha lido. Antes pegar no sono, consegui ler algumas páginas.


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