sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

Um leve exagero


Quando eu estava passando perto da Parmê, vi um cartaz com uma foto de fetuccine, e tive uma forte impressão de que eu estava com vontade de comer — mas muito forte mesmo, como se fosse fome. Entrei e pedi um fetuccine com filé de frango, pensando em comer só metade. Mas foi só eu lembrar como tem gente passando fome, que não tive coragem de deixar sobra no prato. Matei tudo, e já ia pedir a conta quando notei que eles agora estão servindo musse de manga. Eu nunca tinha comido, e resolvi experimentar. Ia pedir com um café expresso, mas o garçom falou que a máquina de café estava estragada, então acabei pedindo com um milkshake pequeno de chocolate. Não sei por quê, chocolate me lembra café. Consigo substituir um pelo outro, na maior facilidade. O que nunca consegui é passar mais de um dia sem um dos dois.  

Depois eu estava voltando para casa, e resolvi passar no Empório Árabe, para levar um pouco de homus e beringela defumada. Adivinha quem eu encontrei lá? Isso o mesmo, o Beto, o Marcos Flávio, a Irene, o pessoal estava todo lá. Tive que sentar para tomar uma cervejinha com eles. E a cerveja me abriu o apetite, e resolvi experimentar os tais quibes de coalhada que todo mundo está comentando desde que o Empório foi inaugurado. Meus amigos adoraram, e até aproveitaram para me apresentar ao patê de azeitona preta, que também é muito comentado, só que eu já não achei grande coisa. Mas claro que comi, para não fazer desfeita; por isso cheguei em casa sem fome nenhuma, e fui logo falando para minha mulher que eu não ia jantar. Ela me olhou com uma cara tão esquisita, que parecia que eu estava cometendo um crime. 

— Você está louco, amor? Claro que não vamos jantar. Hoje é o primeiro dia do Festival Gastronômico da Zona Sul. Vamos agora para o Folle Plat, eles já devem estar começando a servir alguma coisa.

Enquanto eu tomava um banho rápido, percebi nitidamente que já não cabia mais nada no meu estômago. Ah, mas meu estômago não ia fazer aquilo comigo! Era um festival anual, eu não podia perder um evento daqueles por causa do capricho de um dos meus órgãos. Saí do banheiro e fui direto em cima de dois antiácidos. Quando minha mulher perguntou o que eu estava fazendo, claro que não falei nada sobre meu encontro com o pessoal no Empório. Eu conheço minha mulher, ela ia falar que eu esqueci do festival, que eu não ligava para os programas dela, que eu passava mais tempo com meus amigos que com ela... enfim, essas picuinhas de mulher.

No Folle Plat estavam servindo umas torradinhas com foie gras, e eu fiquei indignado, porque aquilo não era coisa de festival! Foie gras eu já como quase todo dia. Comentei com a Jussara, mas ela ponderou: — Você não notou, amor? Esse é com raiz forte, é completamente diferente. Realmente eu não tinha notado. Depois veio um ravióli de pato que, esse sim, eu nunca tinha provado, e estava delicioso! Minha mulher ficou reclamando que devíamos ter pedido um merlot, porque o pato não combinava com o cabernet chileno que o sommelier tinha indicado. Claro que eu concordei na hora. Não tenho paladar para vinhos, e não queria que ela percebesse que eu estava louco por uma coca-cola. Depois do chessecake de amora (que também me decepcionou; isso eu como todo dia) minha mulher encontrou umas conhecidas, e vi que era uma boa hora para aplicar o golpe do cigarro. Falei que eu ia fumar um pouquinho lá fora, e pedi a um garçom para me levar uma coca zero. Na calçada fiquei pensando que eu devia voltar a fumar de verdade; depois que eu como me dá uma vontade tremenda de sentir aquele gostinho do cigarro. Mas lembrei da Jussara buzinando no meu ouvido que cigarro faz mal para os meninos, que é um péssimo exemplo, e não sei mais o quê, e decidi ficar só na coca mesmo. Minha mãe bem que me avisou que eu não devia casar com uma mulher vinte anos mais jovem. Essa nova geração pensa completamente diferente. Ah, mas minha mãe nunca viu a Jussara nua, nunca viu como os mamilos dela ficam quando ela está excitada. Tem coisas que mamãe nunca vai entender...

Quando eu estava voltando para o mezanino, senti uma dor no peito, que foi um troço incrível. Cheguei a pensar que eu ia ter um infarto, e fiquei alguns segundos despistando na escada,  fingindo que eu estava tossindo. Foi nesse momento que uma força misteriosa agiu sobre mim. Sinceramente, eu tenho pena de quem não acredita em Deus. Quem não acredita, não entende esses momentos mágicos. Eu fui sentindo um calor no peito, uma palpitação, depois uma pressão, quase uma cãibra, e então... vagarosamente... deliciosamente, saiu aquele arroto fenomenal. Não pensem que eu fiz barulho, pelo amor de Deus! Eu estudei no Santo Inácio! Foi um arroto suave, silencioso, embora constante, convicto, eficiente, quase espiritual. Me senti tão leve que subi o resto da escada saltitando. Quando sentei à mesa, minha mulher já tinha pedido a conta, e fiquei pensando em como eu dormiria soberbamente depois daquele dia incrível. Quibes de coalhada, raviole de pato, chessecake... Acho que o vinho tinha me dado sono, e minha mulher certamente estava notando, porque perguntou: — Você não está com sono, está? Temos que ir agora para o Piacere Reale! As meninas me falaram que eles estão servindo uns caldos incríveis!

Eu não ligo para caldos, mas lembrei do meu pequeno milagre na escada, e pensei: “Quer saber? Depois de um arroto daqueles, eu topo qualquer coisa.” 

E topei mesmo. O caldo de moranga estava uma delícia, o de lentilhas também. Mas nada superou o de feijão branco com calabresa!  Claro que eu me controlei: não toquei nas torradas. Comi só uns pãezinhos de alho, e depois um queijinho provolone para acompanhar o licor. Minha mulher adora o Poire Williams, eu estou acostumado com o Cointreau, e preferi manter a tradição. Depois já íamos pedir a conta, e a Jussara exclamou: — Amor, e a sua grapinha? Não é aqui que servem aquela grappa que você diz que é maravilhosa? — Deus do céu, eu tinha esquecido completamente. No Piacere servem aquela grappa divina que vem direto de uma aldeia da Sicília. Mas eu já estava sentindo uma coisa estranha, uma certa indisposição. Falei com minha mulher que eu ia arrematar com a grappa, mas depois de um cigarrinho, e saí pensando na minha coca-cola. Foi aí que cometi um erro terrível, uma coisa idiota mesmo! Em vez de conversar numa boa com o garçom, eu pensei em comprar a coca num quiosque da praia. Estávamos a uma quadra do calçadão, e achei que seria até bom tomar a coca lá, depois voltar caminhando lentamente, dando um tempo para um novo milagre. Tudo ia muito bem, quando eu senti novamente aquela estranha pressão no peito, aquele cansaço inconveniente. Fiquei me perguntando se Deus tinha invertido o milagre, e o arroto viria antes da coca. Para Ele nada é impossível. Mas aí me veio uma fraqueza nas pernas, eu vacilei, meio tonto. Os passantes devem ter rido muito do sujeito de sapatos e calça social que, de repente, ficou de quatro em pleno calçadão. Precisei me deitar por um instante, e quando vi aqueles rostos assustados, falando em ambulância, tentei gritar que eu só queria uma coca, e tudo ia ficar bem em questão de minutos. Mas acho que eles não me ouviam, porque eu também não ouvia nada, e depois de um silêncio ritmado, que parecia barulho de mar, veio também um escuro completo, avassaldor. Quando eu acordei já estava no hospital.

Os médicos me explicaram que não foi infarto, apenas faltou um pouco de sangue num músculo do coração. É coisa à toa, que um stent resolve sem dificuldade. Minha mulher mais uma vez brigou comigo, porque eu não falei que estava passando mal, e não sei mais o quê. Ora, por que eu não falei? É óbvio por que eu não falei. Eu ia deixar uma tontura de nada estragar o primeiro dia de festival gastronômico?!


E por falar nisso, o Festival é até domingo. Já conversei com o doutor Danilo, ele disse que me libera no máximo amanhã. Vocês já ouviram falar do canelone de amêndoas do Sapore Romano? Me disseram que estão servindo com um molho difenciado, por causa do Festival. E no Gustosità tem aquele tiramisu maravilhoso! Tenho certeza que Deus vai me ajudar. Não posso perder essa de jeito nenhum!


quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

Meu sonho incrível

Foi assim: eu estava no meu quarto, na paz da minha cama, sem nenhuma peça de roupa, me masturbando gloriosamente. Minha mão deslizava para cima e para baixo, minha ereção estava tão firme que eu sentia até uma pequena cãibra nas coxas. O prazer era delirante, não deixava espaço para pensamentos. Mas ainda assim me ocorreu um estranho momento de lucidez: de repente eu percebi que estava sonhando! Não sei explicar, eu olhei para aquele pau duro, aqueles pêlos todos nas minhas pernas, aquela glande vermelha, brilhando de úmida, e simplesmente saquei que aquilo era um sonho. Então me ocorreu uma pergunta bastante óbvia que acho que qualquer um faria naquela situação. Se aquilo tudo era um sonho, por que eu estava me masturbando em vez de comer uma atriz de cinema ou a gostosona da turma? O que havia de errado com minha imaginação? Se eu estava vivendo uma ilusão, podia ao menos ser uma ilusão inesquecível, fora do normal. Foi aí que tudo ficou mais complicado. Eu ouvi uma voz dizendo: “Pára de reclamar, e aproveita, porra!” Nem perguntei quem era, porque na hora eu saquei que aquilo era o meu eu-consciente de alguma forma falando para o eu-do-sonho. Não sei como essas sacadas aconteciam, mas imediatamente percebi que meu eu-consciente tinha razão. Aquela ereção estava maravilhosa, por que desperdiçá-la com reflexões inúteis? Continuei o movimento, mantive a pressão, fui aumentando o ritmo lentamente. De vez em quando eu passava a mão na cabeça, espalhando a lubrificação. Às vezes dava uma apertadinha no saco que fazia meu corpo inteiro arrepiar. Até que eu senti que não podia mais parar, e mantive um ritmo firme e veloz, quase violento. A cãibra desceu para meus tornozelos, virei os pés para dentro. Senti uma contração percorrendo meu corpo, e logo se afunilando, e fluindo pelo meu pau com uma convicção brutal. Um, dois, três, quatro jatos decididos, nítidos, quase dolorosos. Depois senti o lento relaxamento, a respiração profunda, a sensação de que algo se dissolvia na minha nuca e atrás dos meus olhos. Foi tudo tão perfeito que comecei a entender que só podia mesmo ser um sonho. De alguma forma me conformei com aquela ilusão, e fui aos poucos me sentindo preparada para acordar. Logo em seguida abri os olhos. Vi primeiro o teto branco, indiferente, depois as paredes imóveis, irredutíveis, depois o corpo do meu eu-consciente. Levei a mão entre as pernas, só para confirmar o que eu já sabia. Lá estava ela, minha boceta úmida, mole e vazia. Meu pau não passava de um sonho. O melhor sonho que já tive, mas apenas um sonho. Para o resto da vida, voltei a ser mulher.