domingo, 20 de dezembro de 2009

Onde estão minhas fadas?




A vida é amarga, mas não é amarga como um bom café. Ela é chata, pequena, mesquinha. Depois dos dezesseis anos todo sonho já vem com o carimbo de Sonho Impossível. Mas eu sou teimosa: eu sonhei assim mesmo. Eu quis enxergar um charme especial naquele cabelo grisalho,  não apenas o sinal de que ele mentia a idade. Acreditei que a ex-mulher de Petrópolis era uma megera que só se preocupava com academia e botox. Depois ainda vislumbrei um amor paternal na forma como ele falava da cocker spaniel. Sonhei que aquele carinho e aquela dedicação um dia seriam para mim. No hotel em Cabo Frio, eu chupei como uma profissional, eu abri as pernas em cima da mesa, depois ainda fiquei me perguntando se eu tinha sido perfeita. Ah, como eu queria acreditar que eu tinha sido perfeita! Quando as flores começaram a chegar, eu pensei: “Até que não foi tão difícil. A proposta e o anel vêm depois”. Ainda havia nos meus olhos cansados, um resquício de comédia romântica que me fazia pensar em anel, em dança de salão, em palavras de filmes antigos. Naquela manhã constrangedora, ele disse que seu único vício era o café, e eu quis acreditar também nessa bobagem. Os filmes não me ensinaram dos outros vícios, da capacidade para mentir, do desprezo inabalável que um homem pode sentir, mesmo depois de dois anos na mesma cama. Isso eu tive de aprender aos tropeços, entre um riso fingido e uma manhã de ressaca, um orgasmo fingido e um telefone mudo. Mas eu sou teimosa: eu vou sonhar assim mesmo! Vou acreditar que ele temia me perder para alguém mais jovem, que ele gaguejava quando falava minha idade para os amigos — talvez escondesse os famosos comprimidos azuis no bolso interno do paletó. Semana que vem já vou olhar aquelas fotos com outros olhos. Vou me deixar convencer pelo meu próprio riso falso, e jurar para qualquer amiga que eu fui feliz. E esse choro irritante de hoje, esse silêncio, que não me deixa perguntar onde errei, vai ser só mais uma lembrança indigesta, como o sêmen que engoli em Cabo Frio. Quando outro homem falar em cocker spaniel, quando eu vir outra gravata de seda e outro anular sem aliança, os meus olhos vão estar prontos para mais poesia, e a minha boca, para mais de sêmen. Porque eu sou teimosa, eu vou sonhar com tanta força que a realidade vai acabar se parecendo com minha fantasia, nem que seja por piedade.

sábado, 31 de outubro de 2009

A notícia do século

Meu último artigo havia suscitado uma péssima repercussão. Acho que os leitores não estavam preparados para o impacto do avanço biotecnológico sobre a vida moral. Muitos enviaram críticas ferozes à revista, dizendo que eu tinha deturbado o conceito de "direito natural" e, principalmente, o caráter sagrado da maternidade. Mas nada daquilo me surpreendia. As pessoas são assim mesmo: aponte a mínima possibilidade de mudança nos seus hábitos, e elas o acusam de ser uma espécie de demônio. Não toleram mudanças, não suportam o fato de que a vida como é agora é só uma das muitas vidas possíveis. Se tomarmos outros caminhos, o mundo que surge diante de nós pode ser tão belo e desejável quanto o anterior, o sofrimento está apenas na nossa resistência.


Mas eu havia estudado o assunto por mais de 10 anos, e minha opinião não era mero palpite. O custo das técnicas Cold Milltered já havia baixado bastante, facilitando a abertura de clínicas no terceiro mundo. Além disso, nos países pobres, era mais fácil encontrar mulheres dispostas a alugarem seus ventres para a geração de filhos alheios. Quando a prática se tornasse mais comum, haveria um efeito reverso, e ela se popularizaria também nos países ricos. O ato que atende as expectativas dos interessados sempre se alastra com rapidez e facilidade. Logo a prática da barriga de aluguel seria comum no mundo todo. As jovens alugariam seus ventres para pagarem a faculdade. As mulheres mais ricas gerariam seus filhos pelos ventres das mais pobres, e não apenas por motivos de saúde, mas também por razões estéticas. Quando o processo se tornasse mais fácil e mais comum, muitas mães optariam pela barriga de aluguel apenas para poupar as transformações do corpo e a dor do parto. Quem realmente estudasse o assunto veria que era apenas uma questão de tempo. Só retrógrados e ignorantes se opunham às minhas opiniões. Eu não estava dando a mínima para a enxurrada de críticas, pois sabia que ela não vinha de gente balizada.

Quando o doutor Chertrol me telefonou, encarei a situação com naturalidade. Eu era o jornalista que mais entendia desse assunto. Era normal que ele me chamasse para registrar e divulgar as mais novas técnicas da área. Não fiquei envaidecido, não me senti privilegiado. Eu havia dedicado grande parte da vida a compreender e divulgar as técnicas de fertilização artificial. Ele provavelmente queria anunciar uma técnica nova, algo que possibilitasse uma geração de aluguel mais barata e eficiente, e me escolhia para portador da notícia. Era um corolário dos meus anos de esforço. Compareci a sua clínica tranqüilo e preparado para o trabalho. Não tinha idéia de que sairia de lá tão chocado, tão estupefato, e ao mesmo tempo feliz.

Doutor Chertrol vinha se destacando na área de reprodução humana. Mulheres do mundo todo vinham contratá-lo para administrar suas complexas gestações transuterinas. É claro que elas vinham também pela facilidade de se encontrar uma barriga de aluguel no Brasil, mas tenho certeza que a competência e o renome do médico também pesavam na sua decisão. Ele tinha fama de ser um homem frio, um pouco rude, com um jeitão meio caipira. Diziam que havia estudado primeiro veterinária, porque não gostava muito de tratar gente — ouvir lamentações, lidar com neuroses — mas, quando vira o que poderia fazer na área de reprodução humana, regressara à faculdade e conseguira um diploma de medicina. E, de fato, o setor só melhorou com sua decisão. Desde que ele assumira a clínica Nova Gênesis, as notícias de aperfeiçoamento e barateamento operacional eram constantes. Eu estava ansioso por conversar um pouco com ele, conhecer sua personalidade, tentar entender suas motivações. Enquanto estava no táxi, cheguei a pensar numa possível biografia. Cairia muito bem na minha carreira de jornalista científico. Mas era uma idéia ainda muito fresca, e tocar nesse assunto talvez seria precipitar-me. De qualquer forma, eu ficaria atento às oportunidades. Estava tão entretido com esses pensamentos que não me aborreci por esperar quase duas horas antes que ele me recebesse com seu entusiasmo e bom humor.

— Não há desculpa para meu atraso. Não vou nem pedir, sei que não há...
— Ora, não se preocupe, doutor. Sei como é seu trabalho. Não há como prever quanto tempo certas coisas vão durar...
— Sem dúvida! Você não faz idéia de como tem razão. Podemos prever muitas coisas, mas não quanto tempo vão durar, às vezes não sabemos nem quando poderão começar.

Senti que ele não estava falando apenas sobre horários e atrasos.
— Prever nem sempre é fácil...
— Sim, sim! Prever não é fácil. E por falar em previsão, li seu artigo. Quer dizer, nós lemos! Todos aqui na clínica o leram, e comentamos muito.

Eu estava lisonjeado. A essência do meu trabalho é popularizar a ciência, mas confesso que nada me agrada mais que merecer o reconhecimento dos especialistas.

— Fico muito contente com isso, doutor. O que o senhor achou das previsões? Será que tenho chance de acertar? — Eu não esperava entrar nesse assunto tão cedo, mas o bom humor e o elogio do doutor Chertrol me deixaram confiante.

— Falaremos sobre isso, meu caro. Falaremos ainda sobre essas coisas. Por hora digo apenas que você é brilhante. Vejo como você acompanha com atenção o assunto da reprodução humana. Sua intuição lhe faz um enorme bem, pois de fato acho que esse tema vai render as mais importantes inovações científicas do século XXI.

Óbvio que fiquei bastante lisonjeado. Queria muito ter gravado o que ele havia dito, e me arrependi de não ter ligado um gravador escondido. Meus escrúpulos muitas vezes me fazem perder um pouco da glória que mereço.

— De fato, sempre achei que esse assunto tem potencial para uma verdadeira revolução na forma como concebemos a sociedade e a família. — Preferi não dizer que eu me interessara pelo assunto simplesmente porque tenho uma irmã de proveta.

— Sim, você está certo. Não gosto dessa palavra, “revolução”, mas você tem razão. As novas técnicas de reprodução poderão mudar a forma como pensamos o homem e a família. Falaremos mais sobre isso, oh, sim, falaremos...

Ele estava um tanto enigmático. Confesso que eu já estava me cansando daquela história de "falaremos mais..." mas minha ansiedade estava prestes a terminar. Ele me encaminhou para um enorme salão cheio de aparelhos e pessoas trabalhando. Trajavam aqueles jalequinhos brancos, provavelmente eram veterinários ou enfermeiros. No centro havia uma espécie de jardim interno, cercado por barras de ferro, iluminado por uma grande cúpula de vidro. Quando me aproximei, tive a primeira surpresa de nossa entrevista. Vi uma cabra, deitada num gramado artificial, ligada a uma série de aparelhos por fiozinhos de capa transparente. Tive um momento de grande decepção, pois percebi que o motivo da visita não era a reprodução humana, como eu havia imaginado. Doutor Chertrol provavelmente voltara à veterinária e queria divulgar alguma nova descoberta, talvez ligada a clones. O assunto não me interessava muito, mas resolvi não reclamar. Se a coisa fosse realmente nova, pelo menos eu teria um furo, e isso faria bem à minha imagem recém abalada na revista.

Alguns enfermeiros ou veterinários, passavam um emplastro transparente na barriga da cabra. Ela estava estranhamente desanimada, provavelmente dopada. Pelo tamanho de suas tetas e barriga, supus que estava prenha.

O doutor Chertrol não se deu ao trabalho de me explicar inteiramente a situação.

— Vamos fazer uma ultrassonografia. Logo teremos uma imagem.

— Alguma técnica de clonagem? — Perguntei, um pouco ansioso.

— Logo teremos a imagem! — Ele respondeu, sem tirar os olhos do vídeo.

Senti que a imagem era algo definitivo, mais importante que uma explicação. Pus meus olhos no pequeno monitor preto e fiquei atento aos vultos que se formavam. Não consegui enxergar nada demais. Minha mente esperava encontrar alguns cabritinhos nebulosos, algo como as formas que vemos nas nuvens quando somos crianças. Mas eu não via nada parecido com isso, as manchas brilhantes do ultrassom não estavam fazendo muito sentido para mim.

— Você vê o coração? Está vendo o coraçãozinho do bebê? — Doutor Chertrol me apontou entusiasmado uma pequena bolinha pulsante. De fato reconheci algo parecido com um coração, pelo menos dava para ver que batia.

— Aqui está a cabeça... Sim, a pequena cabecinha do bebê, não é lindo?!?

— Não consegui ver a cabeça, talvez por que não fazia idéia de como devia ser a cabeça de um feto de cabra; se tinha chifres, se já era alongada, com um princípio de focinho, etc. Mas fiquei impressionado com a forma carinhosa com que ele se referia ao pequeno animal. Não dizia cabrito ou feto, mas bebê. Pensei em anotar isso para a reportagem, o Doutor Chertrol era de fato um homem emocionalmente envolvido com seu trabalho.

— Desculpe a pergunta, doutor, mas os fetos de cabra já têm chifres? Não estou reconhecendo a cabeça.

Uma risada alta e contagiante encheu o salão. Todos começaram a rir com ele.

— Chifres?! Você está procurando chifres, ha, ha, ha!

Fiquei imaginando o quanto minha pergunta era ridícula. Assim como nascemos sem dentes, as cabras deviam nascer sem chifres. Era óbvio, como pude ser tão idiota!

— Perdoe minha ignorância, doutor Chertrol. Minha especialidade é reprodução humana, não tenho acompanhado nada sobre veterinária.

— O que é isso, amigo! Não se desculpe. Eu é que devo me desculpar. Acho que confiei demais naquela história de que uma imagem vale mais que mil palavras.

— De fato, doutor, olhar para esse ultrassom é como olhar para uma nuvem. Você não enxerga nada, se não souber o que está procurando.

— Oh, meu rapaz, quanta sabedoria! Você não sabe o que está dizendo, suas palavras são mais precisas que imagina... Além disso, tem toda razão, não adianta ficar aqui olhando para esse ultrassom. Vamos voltar para a minha sala. Pessoal, mantenham a diploptamina. Vou voltar logo.

Fiquei envergonhado. Certamente ele esperava que eu tivesse entendido algo só de olhar para o ultrassom. Talvez algo filosófico, sublime, que não tivesse nada a ver com uma simples cabra prenha. Fiquei me questionando enquanto o acompanhava cabisbaixo, evitando os olhares de decepção dos veterinários, que certamente também esperavam algo de mim.

Assim que entramos ele me serviu uma pequena dose de cachaça. Fiquei encantado com sua autenticidade. Um médico medíocre certamente teria uísque importado em sua sala. Agradeci e bebi com prazer o primeiro gole.

— Sabe, Lucas, eu sempre achei um pouco difícil lidar com gente. As pessoas são emotivas demais, não conseguem agir racionalmente...

Eu não tinha idéia de onde ele queria chegar.

— Veja esse caso das mães de aluguel, por exemplo. As mulheres aceitam as condições, assinam um contrato, depois voltam atrás começam a nos encher de processos.

— Muitas não fazem isso por uma emoção verdadeira. São mal intencionadas, querem explorar o casal que as contrata.

— Exato, meu rapaz! Você é a pessoa certa para conversar, você entende minhas dificuldades. Não é fácil trabalhar neste ramo, ainda mais com o atraso da legislação, que insiste em não legalizar a coisa. Os contratos ficam à mercê da confiança mútua, e, você sabe, confiança é algo raro hoje em dia...

— Sei, sei, claro que sei. — Eu conhecia bem o assunto, sabia que algumas mães de aluguel tentavam extorquir o casal contratante ou a clínica, ameaçando processos e ações judiciais diversas para ficar com o bebê.

— Pois é isto, meu caro. Não é fácil lidar com gente. — Enquanto falava, ele ia bebericando sua cachaça. — Então fiquei pensando se não seria possível criar uma espécie de gestação artificial. Um feto crescendo e se desenvolvendo fora da mãe, mas que não fosse numa outra mulher, que não dependesse de outro ser humano, entende? Uma gestação que dependesse exclusivamente de nós, profissionais. Pessoas que não iriam interferir no processo, pessoas que não iam mudar de idéia no meio do caminho...

— Um dia aconteceu uma coincidência, um evento que me ajudou a ter essa idéia. Fui passar as férias na fazenda de um amigo, em Mato Grosso do Sul. Ele tinha uma criação de caprinos, e uma cabra resolveu entrar em trabalho de parto no meio da noite. O veterinário mais próximo estava a uns duzentos quilômetros de distância, e meu amigo me pediu para supervisionar o parto. Ah, foi uma experiência ótima! Não só relembrei minha juventude, minha perambulação de fazenda em fazenda, o cheiro de mato, de esterco, os rugidos dos bichos... mas revivi mais uma vez a magia da vida. Não precisamos fazer muito para que a vida se reproduza, basta lhe dar boas condições e ela faz o resto. Isso não é maravilhoso, rapaz? A vida faz mais vida, precisamos apenas dar uma mãozinha!... — Eu ainda não sabia onde ele queria chegar, mas seu entusiasmo era algo bonito de se ver.

— Ah, meu amigo, essa é a beleza da minha profissão: ver a vida se reproduzir... — o álcool fazia seu efeito. Ele estava sorridente: — Mas, voltando às cabras, voltando àquela noite imprevista, na fazenda do meu amigo, eu fiquei encantado ao ver aqueles bichinhos escapando do ventre da mãe, escapando para o mundo, para a vida! Depois, enquanto ajudava a limpar a pobre fêmea, que estava exausta, reparei numa coisa interessante. O feto humano é relativamente pequeno. Ele caberia com facilidade em outro animal. Numa vaca, Numa porca, talvez até numa cabra... Então, meu amigo... então... acho que você está me acompanhando... Uma cabra não pode processar uma clínica, pode? Você percebe, percebe a grandeza da idéia que estava me ocorrendo naquele momento? O resto, meu amigo, são detalhes técnicos... Proteínas, hormônios, anti-soros... enfim, essas coisinhas sobre as quais debrucei minha juventude.

Eu estava atônito. Sabia exatamente o que ele queria dizer, mas não acreditava. É difícil explicar tudo que passou pela minha cabeça naquele momento. Fiquei zonzo, cheguei a pensar que eu estava passando mal. Doutor Chertrol não pôde deixar de notar:

— Você está bem, meu rapaz?

Mas logo me recuperei: — Estou bem, doutor. Vamos voltar ao salão. Acho que estou preparado para a imagem que vale mais que mil palavras.

Enquanto eu caminhava, ainda estava dominado pela dúvida. De alguma forma eu sabia que aquilo estava acontecendo, um profissional como o doutor Chertrol não iria me falar tudo aquilo em vão. Mas ao mesmo tempo eu parecia estar vivendo um sonho. Algo naquela história era fantástico demais para eu aceitar como realidade. Mesmo assim parei diante do vídeo e esperei. Agora eu sabia o que deveria enxergar, e a imagem logo faria sentido em minha cabeça. De fato, os pontinhos brilhantes foram formando um contorno nítido. Vi os bracinhos retorcidos para dentro, o dorso, a cabeça. Julguei ver até uma pequena orelha. A cabra estava deitada no gramado artificial, indiferente a toda emoção que me perpassava. Ainda em certo estado de choque, olhei para o doutor Chertrol. Ele sorria, parecia ter previsto todo o espanto que me ocorreria com aquela visão. Eu também sorri, na verdade comecei a gargalhar, quase sem controle. De repente percebi que tudo que eu havia previsto estava errado. A barriga de aluguel não se popularizaria, não se tornaria uma prática comum, não geraria renda para estudantes e mulheres mais pobres. Eu era um péssimo profeta. E no entanto estava completamente feliz, pois eu era o portador da notícia científica mais importante do século. Não sabia como agradecer ao doutor Chertrol, e de fato não havia como agradecê-lo. Há homens que simplesmente nasceram para alargar o horizonte do possível. É graças a eles que chegamos até aqui. É graças a eles que cada geração pode fazer muito mais que a anterior. Eu era apenas um jornalista. Tudo que eu podia fazer era contar. Minha tarefa era simplesmente colocar em palavras aquela imagem valiosa que eu havia testemunhado, e que valia infinitamente mais do que elas. Ali mesmo, ainda atordoado pela surpresa, pensei num título para a reportagem: “Barriga de aluguel está com os dias contados”. O resto são apenas detalhes da profissão.


domingo, 4 de outubro de 2009

A mesma tatuagem


Danilo evitava pegá-la de quatro, porque a maldita tatuagem de cruz lhe arrefecia o desejo. Quem tatuaria um crucifixo daquele tamanho no meio das costas? Que ele soubesse, Amanda não tinha religião, não ia à missa, não devia saber sequer um dia de santo, mas tinha estampado a própria pele com aquele enorme crucifixo gótico. Se ela não fosse bonita, se não tivesse seios grandes e firmes, Danilo talvez tivesse terminado ao descobrir a tatuagem. Mas na época ele também descobria que não podia se dar ao luxo de muitas escolhas. Tinha uns trinta anos quando conhecera Amanda. Magro, pálido, ligeiramente calvo no cocuruto, suas opções com as mulheres começavam a escassear. Amanda, apesar de bonita, era uma mulher um tanto banal, sem originalidade, sem muita cultura, educada pela televisão e pelas canções populares. Os homens agüentavam seus papos chatos — reclamações da mãe e do emprego — até conseguirem o segundo orgasmo; em geral, depois sumiam. Os dois tinham fracassado em conseguir parceiros melhores, e esse fracasso foi a força que os uniu e que eles chamaram de amor.
Uma aliança mais definitiva surgiu quando descobriram o preço de um apartamento. Nenhum deles podia pagá-lo sozinho, dividir era uma necessidade. Mas como rachar as prestações sem algum documento que garantisse a posse mútua do imóvel? Foi assim que compreenderam o que era uma certidão de casamento, chamaram testemunhas e assinaram os papéis. Depois puderam dormir tranqüilos. Tinham encontrado alguém para dividir as contas, e aliviar o desejo que os oprimia nas noites de lua cheia. Continuavam meio solitários, mas escreviam excelentes cartões de amor.
Na cama Danilo preferia o papai-e-mamãe, para não ter que encarar o frustrante crucifixo gótico. Mas tinha a delicadeza de nunca conversar a respeito. Sabia que uma tatuagem é algo permanente em uma pessoa, e criticar uma parte integrante é criticar o todo. Os sentimentos dos dois provavelmente não sairiam ilesos se ele abordasse o assunto com sinceridade. Quando Amanda queria ficar de quatro, ele resolvia o problema apagando a luz.
Só não era tão fácil resolver o tédio dos domingos, quando ela ia para a casa da mãe, ou das madrugadas de insônia, quando ele já não podia ligar a televisão, porque a mulher estava dormindo. Para não pensar em bobagens, para não recordar Cláudia e Heloísa, que eram mais bonitas e inteligentes que Amanda — por isso tinham encontrado homens mais bonitos e ricos que ele — Danilo se permitia algumas horas de internet. Os videozinhos pornôs eram apenas parte do repertório que o entretinha nesses momentos, junto com as piadas sobre bichas, as notícias sobre esportes e atores famosos. De madrugada ele evitava os vídeos de cacetadas, para não acordar Amanda com as risadas agudas e inevitáveis. No auge do tédio, no seio da vidinha pacata de recém casado, onde só faltava um cachorro de raça, Danilo não podia imaginar que o destino lhe atiraria na cara um fato inédito; muito menos que o fato fosse sobre o passado da mulher sossegada e bem comportada que ele agora chamava de esposa.
Mas aconteceu que uma madrugada ele se divertia com um videozinho proibido para menores — os fones de ouvido resguardavam o sono da mulher — quando a câmera se afastou do ato maquinal, e focou nas costas da atriz. Danilo contraiu as sobrancelhas ao ver um crucifixo gótico na tela. Depois sentiu uma estranha pressão no peito, e constatou um tremor incômodo nas mãos. Sua respiração mudou de ritmo enquanto ele se perguntava quem tatuaria uma cruz daquele tamanho no meio das costas, uma pergunta menos urgente que a necessidade de salvar aquele vídeo, de o rever trezentas vezes, pelo menos naquela noite.
Já amanhecia quando ele passou a ter certeza que a atriz era absolutamente igual a uma Amanda cinco anos mais nova, exceto por uma ridícula peruca cor de rosa e pelo rosto que só aparecia de viés, quase de costas, não dando margem para um reconhecimento seguro. A perplexidade contudo não impediu que ele despistasse muito bem ao notar a presença da mulher, que, por sua vez, perguntaria sobre a noite ao computador, já suspeitando de uma amante virtual. Danilo explicou pacientemente sobre a necessidade de digitar certos contratos em casa e os levar prontos pela manhã, para reuniões com clientes de São Paulo que ainda iam pegar o avião. Amanda não se deu ao trabalho de duvidar e, enquanto passava o café e carregava a torradeira, nem reparou que o marido também tinha ido à cozinha. Mas ele reparava atentamente nas suas curvas generosas e na tatuagem por trás da camisola que a transparência do tecido fazia parecer uma grande marca d'água. Estranhou que uma ereção convicta lhe brotasse àquela hora da manhã, tanto mais porque tinha passado a noite em claro, e Amanda estranhou o beijo de língua e as carícias ousadas que recebia enquanto ouvia a torradeira apitar. Nenhum dos dois compreendeu aquela urgente necessidade de fazer amor, mas Danilo talvez entendesse por que mirava com fascínio a tatuagem gótica, enquanto possuía sua mulher por trás, reclinada sobre a mesa, quase na mesma posição do vídeo. Depois do agito, uma satisfação pacífica impediu que ela fizesse qualquer pergunta, e um misto de orgulho e cansaço ocupou Danilo o bastante para que ele não se preocupasse em criar uma desculpa. Despediram-se falando em amor, mas dessa vez o que sentiam estava mesmo bem perto disso. Porém, durante o dia, Amanda não conseguiu abandonar a idéia de que o súbito apetite do marido tivesse algo a ver com o computador, e a suspeita de uma amante virtual voltou a fustigar seus pensamentos.
Nos dias seguintes as suspeitas aumentariam, porque Danilo não apenas passou a procurá-la mais vezes, mas também inovou nas posições, nos lugares da casa, e no repertório de frases que usava nos momentos íntimos. Lisonjeada com esse entusiasmo, ela logrou controlar a curiosidade, e não contaminou os momentos de prazer com perguntas desconfiadas e talvez fatais. O sexo floresceu entre os dois, ainda mais vívido e saboroso que nos primeiros dias, e o amor pareceu acompanhá-lo, nas carícias matinais, nas frases quase românticas e sobretudo numa nova cumplicidade que germinava lentamente entre eles, mais profunda e permanente que o mero acordo de dividir contas e problemas domésticos.
Mas Amanda era mulher e a curiosidade dos gatos borbulhava em sua cabeça como gordura ao fogo. As pequenas investigações não tardaram a começar, primeiro no computador, em busca de fotos, depois na pasta executiva, no celular, no lixo, e em tudo que estivesse a seu alcance enquanto o marido dormia ou tomava banho ou estava longe o bastante para não ver a batida. Cada fracasso era um pequeno alívio, mas também um motivo para recomeço. Depois de alguns dias de buscas frustradas, a jovem esposa se assustou ao perceber que seu maior medo não era descobrir uma amante, mas ter que admitir que ela fizera bem ao casamento. Essa conclusão fez que as buscas parassem por alguns dias, mas depois voltaram com redobrada força, com tentativas de descobrir a senha do email, com planos para surpreender o marido na hora do almoço, com um gravador ligado em baixo da cama para averiguar que nomes o homem resmungava durante o sono. A mulher gastou tanta energia na investigação, que estranhamente passou a desejar que a outra realmente existisse para justificar ao menos uma aparência de vitória. Se uma amante pode ser motivo de vergonha para a esposa, sua descoberta por meios tão astutos e engenhosos pode dar ensejo a um orgulho triunfante, patente, memorável. Toda essa agitação fazia também aumentar seu desejo sexual, seu prazer em realizar os pedidos do marido, seu carinho ao se despedir e ao recebê-lo à noite, com frases que pela primeira vez pareciam não vir de cartões de papelaria, mas de alguma parte viva e eficiente do seu cérebro que ela mesma não suspeitara existir. Cada um vivia — por razões que o parceiro nem sequer imaginava — um novo casamento, mais romântico, candente, quase sublime.
Amanda já estava desistindo de encontrar a suposta rival quando resolveu expor o assunto a uma amiga. Queria ao mesmo tempo se gabar das recentes aventuras e encontrar um possível motivo que as explicasse. A amiga, que sempre fora, na opinião de Amanda, meio irreverente, excêntrica, original (às vezes até vulgar), veio com uma sugestão ousada que nunca teria ocorrido a uma mulher recatada e prudente.
Por que você não pergunta para ele?
Considerando-se superior em assuntos diplomáticos, Amanda sentia até preguiça em se explicar.
Se ele tiver uma amante, claro que não vai admitir. E o que será pior: sabendo de minha desconfiança, terá mais motivos para se precaver. 
Surpreendida por tamanha astúcia, a amiga apenas concordou: — Então continue as buscas. Uma hora alguma coisa vai aparecer.
Mas a idéia tinha ganhado vida, e Amanda já não podia se livrar dela com facilidade. Quando se via a sós com o marido, a pergunta coçava sua garganta, e ela, que não era boa em conter impulsos, embora não os tivesse muito fortes, acabou por usar uma tarde íntima de domingo para introduzir o assunto. De forma discreta e dissimulada, tentou fazer o marido falar sem formular uma pergunta específica. Abordou o recente aumento na libido dele. A causa seria alguma mudança na alimentação? Alguma vitamina recomendada por amigos?
Você não era assim quando a gente namorava...
Como assim, amor? — Danilo se divertia em desconver-sar. Mas no fundo reconhecia que, de alguma maneira, havia aguardado ansiosamente aquela pergunta. Não haveria sentido em ser um homem moderno, em aceitar piedosamente o passado da esposa, se ela não soubesse do feito, não o admirasse, não o louvasse caudalosamente, e o considerasse motivo das melhores recompensas. Com certa hesitação, buscando, como podia, demonstrar cumplicidade e condescendência, Danilo revelou:
Tudo bem, amor. Eu vi o vídeo. Sei de tudo.
Amanda ficou estupefata. — Que vídeo, amor! Do que você está falando?! 
— Quero que você saiba que não fiquei magoado. Foi uma aventura de juventude, eu compreendo perfeitamente.
Compreende o quê?! 
— Sei que você vai achar estranho, mas acho até que gostei. Não me interprete mal, amor, mas sempre achei você muito quietinha... não sei, muito convencional, sabe? Agora sei que eu estava enganado. Vi o vídeo! Ah, você aprontou na juventude, hem, amor!
Continuo sem entender.
— Não precisa agir assim, querida. Já disse que acho até legal. Foi coisa de juventude, já passou, não é? Se já passou, não me importo. Acho normal que você tenha aprontado das suas. Você acha que não aprontei também? Você acha que sempre fui esse homem certinho, que cumpre todos os horários e nunca bebe mais que uma caipivodca? Não me olhe assim, eu descobri o vídeo, mas não estou aborrecido, juro. Não precisava esconder, você podia ter me contado.
Amanda estava muito assustada, mas não tardou a pensar numa saída.
Onde está esse vídeo? Me mostra, amor, por favor! Preciso ver esse troço para entender o que você está falando.
Danilo não se opôs, e a levou ao computador. Amanda franzia as sobrancelhas, alternava os olhos entre a tela e o olhar de Danilo, até que a enorme tatuagem apareceu, e ela — Ah! — deduziu tudo que se passava na cabeça dele.
É por causa dessa tatuagem?!
Danilo ficou um pouco confuso.
Já disse, amor. Pode me contar tudo. Eu compreendo e não estou bravo. Foi uma aventura de juventude, não foi? O que é que tem demais? Você era levadinha, estou até contente em saber disso.
Eu não era levadinha! Como você pode pensar isso de mim, amor!
Linda, não vá fazer esse papel comigo. O formato da panturrilha, das ancas, essa estriazinha aqui em cima da cintura, ó! Está tudo aí. Pode admitir que é você, já falei que gostei da descoberta.
Ah! O quê? Não acredito! Não posso acreditar que isso esteja acontecendo! Você está achando que sou essa mulher!? Está achando que sou essa vagabunda por causa de uma tatuagem e uma estria na cintura? Meu Deus, quantas mulheres no mundo devem ter a mesma tatuagem e a mesma estria! Por que isso está acontecendo logo comigo, meu próprio marido me confundindo com uma piranha!
Danilo olhou novamente para a tela. Ficou em silêncio. O vídeo acabou, e ele o recomeçou, sem saber o que dizer. Estava acima de tudo decepcionado. Se sua esposa não era aquela atriz, ela voltava a ser a mulher certinha e banal que ele antes imaginava. Sabia que devia pedir desculpas, mas isso, que tantas vezes já fora difícil, agora não era sua maior preocupação. O que o incomodava era voltar a ver na mulher apenas uma fiel cumpridora de regras, uma pessoa convencional, sem nada fora do comum.
Amor, acho que te devo um pedido de desculpa.
Claro que deve!
Me perdoa, amor. Realmente achei que fosse você.
— É claro que não sou eu! — Amanda mantinha os braços cruzados, o nariz ligeiramente erguido.
— Desculpa, amor. Desculpa mesmo. É por causa da tatuagem... Você entende... — Desanimado e confuso, o homem sentou no sofá e ligou a televisão. Estava terrivelmente decepcionado, mas não queria pensar no assunto. No dia seguinte teria o trabalho, os ho-rários a cumprir. Calculou que no máximo em duas semanas teria esquecido tudo. Sentia-se um imbecil por ter fantasiado o passado da mulher, mas intimamente se absolvia, pois sabia que a culpa era dela. Amanda tinha uma vida tão comum, tão sem graça, que ele se divertira em fantasiar-lhe um passado minimamente interessante. Mas agora era melhor esquecer. Aumentou o volume da televisão, tentou prestar atenção ao jogo de tênis. Nunca tinha se interessado por tênis, mas qualquer coisa era melhor que aquela vidinha estúpida. Amanda foi arrumar a cozinha. Também pensava que em breve teriam esquecido tudo, e que seria melhor assim.
Mas a libido do marido não voltou a ser a mesma, e depois de duas semanas de abstinência, Amanda estava um pouco arrependida. Por um lado estava satisfeitíssima, pois acreditava ter representado brilhantemente seu papel. O homem nem sequer a questionara; um argumento e uma cara de indignação bastaram para que ele acreditasse inteiramente nela. Gabava-se de ser uma ótima atriz, de ter o delicioso poder de fazer o marido acreditar mais nela que nos fatos. Mas também sentia que tinha perdido alguma coisa fundamental. Danilo voltara a falar com ela daquele jeito seco e maquinal — oi, amor, tchau, amor, vou sim, amor, tudo bem, amor, pode deixar, amor — e agora que tinha experimentado algo diferente, Amanda não conseguia mais se satisfazer com um rol de frases feitas. Tentou algumas reaproximações, mas elas resultaram no sexo ordinário de sempre: a luz apagada, Danilo por cima, de olhos fechados, apenas esperando o momento do alívio.
Nenhum deles se preocupara em apagar o vídeo, e Amanda começou a assisti-lo, quando chegava em casa antes do marido. Não sabia exatamente o que pensar: ficava desconsertada, tensa, arrependida, estranhamente humilhada. Revia o vídeo pensando em domar esses sentimentos, mas eles retornavam, às vezes com lembranças desagradáveis e confusas. A idéia de contar a verdade a Danilo passou a persegui-la, não como obrigação que devesse a ele, mas como forma de se livrar daquelas lembranças desconfortáveis que eram agora recorrentes e torturantes como nunca foram antes do casamento. No dia que orava, pedindo forças para enfrentar a situação, surpreendeu-se pensando que tudo seria mais fácil se ele apenas tivesse uma amante. O casamento talvez estivesse mais seguro que agora, e ela não teria de passar pela tortura da confissão.
Escolheu um domingo para a revelação. Mas no sábado, quando o marido assistia ao campeonato de sinuca, ela foi ficando nervosa, excitada, estranhamente revoltada com a paz que ele encontrava na televisão. Acabou não se contendo.
Amor, preciso falar uma coisa com você.
Agora? — Danilo não esperava mais nenhuma surpresa da esposa. Estranhou que ela desligasse a televisão, e intuindo a importância do momento, achou que ela ia noticiar uma gravidez. Já começava a sentir um pequeno entusiasmo quando a mulher falou:
Olha, aquele vídeo...
O quê? — Ele quase não lembrava do assunto.
Você estava completamente errado.
O vídeo da mulher com a tatuagem?
Eu não podia admitir, você estava fazendo uma idéia totalmente errada de mim, entende?
Claro que entendo, amor. Você já me explicou, já falou que não era você.
Pois é, não era eu. Quer dizer, não fui eu que escolhi, não foi uma decisão minha, então era como se fosse outra pessoa.
Como assim?!
Você não sabe o que aconteceu quando meu pai morreu...
Amor... — Danilo não esperava esse assunto. Achou que havia alguma coisa errada, mas se aproximou da mulher, abraçou-a carinhosamente. — Pode me falar. Você nunca me contou nada dessa época.
— De repente eu tive que sair da faculdade e agüentar um empreguinho de balconista. Não era fácil para mim. Sempre fui sustentada, meu pai bancava tudo, pagava a conta do meu celular. De repente eu tinha que suportar um emprego daqueles, ficar sem a faculdade, pegar ônibus lotado... Você não imagina o baque que foi para mim... — Ela não conseguia conter as lágrimas. O homem estava emocionado, ainda não tinha visto a esposa naquele estado.
Então minha amiga me falou desse gringo que fazia uns vídeos com brasileiras.
O estupor gelou o corpo de Danilo. Seus olhos também estacaram.
Gringo? Que gringo, amor?!
Você acha que eu ia topar se fosse com brasileiro?! Se minha mãe visse uma coisa dessas!
Então era você!
Ele me garantiu que o filme nunca ia sair no Brasil, aquele cretino, ele garantiu! — O choro convulso e sincero deixava Danilo pasmo. Ele não sabia o que era mais assustador: se a revelação que acabava de ouvir ou a farsa exagerada que Amanda tinha encenado, não apenas o convencendo, mas humilhando-o, envergonhando-o por suas especulações. Ficou algum tempo em silêncio, olhando para o nada. Amanda continuava chorando, mas agora suavemente, tentando adivinhar o que o marido estava pensando. Porém, se adivinhasse, não ficaria contente. Pior do que maçante e convencional, agora ela se revelava uma mera vítima das circunstâncias, sem convicções, sem nenhuma fidelidade a seu íntimo. Fizera o filme por dinheiro, não por audácia. Depois escondera a verdade por necessidade de manter as aparências. E agora a revelava por falta de força para sustentar a mentira. Era uma fraca, não seguia nenhum princípio interior, era movida apenas pela oscilação dos acontecimentos. Com uma pachorra e uma hipocrisia que ainda não conhecia em si, Danilo abraçou-a, consolou-a, garantiu que tudo ia ficar bem. Amanda se acalmou, e quase riu da pergunta imprevista que o marido lhe fez.
— Amor, me diga apenas uma coisa. Por que você fez essa tatuagem de cruz?
A mulher se viu aliviada por não ter de explicar nada sobre o filme. Tudo indicava que Danilo não tinha visto a outra cena, com os dois atores negros.
Bem, amor. Minhas amigas todas já tinham tatuagem, e eu não queria ser a única a não ter. Mas minha mãe era católica, aí você já sabe: ela ia falar no meu ouvido até caírem os dentes. Então pensei em fazer algo que pudesse lhe agradar. Pensei que uma cruz talvez tivesse mais a ver com o mundo dela... Não sei se acertei. Ela reclamou do mesmo jeito, mas talvez não tanto quanto se fosse um dragão ou uma cobra.
Você é bem espertinha, hem, amor!
Os olhos e um sorriso maroto demonstraram certo orgulho. De fato Amanda se julgava esperta por seu hábito de tentar agradar a todos que a cercavam. 
Ele pediu um café. Ela ficou contente por ter como ocupar aquele momento constrangedor. Quando retornou à sala, sentiu como se as coisas começassem a voltar ao normal. Danilo elogiou o café, manteve a atenção compenetrada na televisão, enquanto se perguntava silenciosamente como seus amigos tinham conseguido amantes. Nos próximos dias, tentaria descobrir. Não poderia prescindir de alguém para dividir as prestações do apartamento, mas sua libido precisaria de uma nova ilusão. Amanda, sentando-se a seu lado, começou a pensar em parar com os anticoncepcionais. Sentia que havia decepcionado terrivelmente o marido, e, não havendo uma nova necessidade externa, o casamento poderia estar acabado. Juntos no mesmo sofá, traçavam planos completamente diferentes, mas permaneceriam unidos, até que as circunstâncias determinassem o contrário.

segunda-feira, 7 de setembro de 2009

É hoje!

Todos os seus amigos já tinham ido a casas de massagem. Pablo tinha falado sobre um lugar no centro onde a hora era apenas cem reais. Ruslan havia lhe indicado um saite com garotas um pouco mais caras, mas muito bonitas. Saulo hesitava porque sua namorada era até gostosa; tinha seios pequenos, mas graciosos, tinha um corpinho proporcional, pernas bem torneadas. O problema é que era muito apagada na cama. Apenas se deitava e esperava que ele fizesse o trabalho; não tinha iniciativa, parecia até mesmo não gostar de sexo. Saulo estava percebendo que a estratégia dela era inventar mil programas para o fim de semana, passar na casa de vários amigos, ir a festas intermináveis, estúpidas exposições de arte, e assim cansar o namorado e não ter que transar. Em contrapartida, ele descobria que gostava realmente de sexo, não era mero capricho de adolescente. Queria penetrar uma mulher, abraçá-la com força, morder seus ombros e pescoço; depois gostava de dormir aquele sono pacífico e redentor que só existe após o orgasmo. O trabalho, as reclamações dos clientes, os horários e prazos seriam esquecidos por algumas horas; o próprio mundo desapareceria por algumas horas. Depois ele acordaria disposto, como se estivesse começando algo novo, como se estivesse prestes a fazer uma descoberta. Mas Flávia Cristina estava lhe negando esse imenso prazer. Inventava cada vez mais desculpas para não ir para cama. Quando não era a menstruação, eram festas e insuportáveis reuniões de família. Saulo sentiu que precisava dar um basta. Olhou mais uma vez o saite — estava numa lanhouse — tomou coragem, e escreveu o email que tinha planejado.

“Se você não fizer amor comigo hoje, vou chamar uma garota de programa.”

Enviou a mensagem com uma sensação obscura, misto de orgulho e receio. Orgulho pela iniciativa, e medo da reação de Flávia, que ele não conseguia prever. E se ela não gostasse da provocação? E se quisesse terminar? “Que se dane!” pensou, irritado. “De que me adianta uma namorada, se não posso ir para cama? Não sou nenhum padre, quero sexo, e Flávia vai ter que lidar com isso! Afinal, para quê estou trabalhando?!” Ele mesmo se surpreendeu com essa pergunta, pois não tinha imaginado que trabalhava para ter direito a sexo. Mas era isso mesmo! Trabalhava para ter direito a algum prazer, e que prazer seria melhor que a nudez quente e úmida de uma mulher bonita? Estava confuso, mas excitado, confiante, quase feliz. Sim, era um homem! Tinha testosterona correndo em suas veias, e era delicioso admitir aquilo. De volta ao trabalho, ainda curtia certa empolgação quando recebeu uma mensagem no celular:

“Amor, precisamos conversar. Passo na sua casa às oito.”

Seu humor oscilou com uma rapidez incrível. “Está acabado”, pensou, derrotado. “Ela vai terminar. Eu sabia: fui longe demais.” Passou alguns minutos confuso e envergonhado. Não conseguiu trabalhar, passava as mãos na cabeça, queria acender um cigarro, embora nunca tivesse fumado. “Meu Deus, exagerei! Devia ter tocado no assunto de outra maneira.”

Depois do trabalho, voltou à lanhouse e ficou olhando os saites de garotas de programa. Muitas não mostravam o rosto, apenas exibiam os corpos em poses de revista masculina. Aquelas fotos muitas vezes tinham disparado suas fantasias e lhe despertado ereções bastante convictas. Mas agora elas pareciam exageradas, extravagantes, irreais. Reparou que o cabelo de uma garota parecia peruca. O silicone de outra estava visivelmente mal colocado, deixando veias ressaltadas e mamilos esticados. Uma terceira chegava mesmo a ter uma cicatriz de cesariana, o que deixou Saulo estranhamente chocado. Pela primeira vez pensou que aquelas jovens talvez já tivessem filhos, talvez trabalhassem apenas para sustentá-los, e não porque fossem mulheres ousadas e fissuradas em sexo. Essas conclusões eram ainda mais incômodas quando ele imaginava Flávia Cristina terminando o namoro. Ela diria: “então é isso, amor. Pensei que você fosse outro tipo de homem. Eu me enganei sobre você, e você se enganou sobre mim”, depois se despediria com indiferença, batendo a porta do seu quarto-e-sala e sumindo para sempre. A previsão se agravava quando sua mãe aparecia na história, perguntando por Flávia Cristina, frisando que ela era modesta, simpática, educada, que ele não encontraria facilmente outra garota como aquela. Mas tudo estava acabado. Era melhor se acostumar logo à idéia. Fechou os olhos, repetiu cinco vezes que estava acabado, depois voltou a olhar o saite, com um rancor profundo que confundia com determinação. Encontrou uma garota — Larissa — que mostrava o rosto nas fotos. Era branca, tinha cabelos lisos que não pareciam artificiais. Seios perfeitos, pele sem manchas de sol: provavelmente não era carioca. Verificou que o preço era acessível. Não seria nenhum desfalque no seu orçamento mensal. Calculou que às nove Flávia Cristina já teria feito um discurso e dado seu adeus. Às nove e dez ele ligaria para a garota, nove e meia estaria no hotel. Receberia Larissa às quinze para as dez, os dois conversariam sobre coisas banais, ela perguntaria sua profissão, ele perguntaria há quanto tempo ela fazia programa. Às dez e quarenta metade das suas fantasias estariam realizadas e às onze ele estaria relaxado, feliz, esperando a garota sair do banheiro para tomar uma ducha. Era uma ótima previsão para a noite. Acreditou que umas quatro aventuras como essa lhe bastariam para esquecer a namorada e sua sexualidade insípida e banal.

Às oito estava preparado para a prova. Estranhou que Flávia chegasse de salto e tão bem arrumada, brilho nos lábios, sombra, delineador, um vestido de noite que ele sabia não ser usado em qualquer ocasião. De repente se sentiu oprimido por um ciúme obscuro e indeciso. Especulou que ela também encontraria alguém depois de terminar, talvez havia muito já estivesse interessada em outro, e ansiasse pela oportunidade de poder culpá-lo pelo fim do namoro. Sentiu-se manipulado, traído de uma forma tão complexa que não conseguiria bolar uma vingança à altura. E sentia sua derrota aumentar quando reparava que Flávia estava bonita, confiante, estranhamente distante. Saulo se convenceu de que era na verdade a mera vítima de uma mulher calculista e dissimulada.

Ela começou a falar com frieza, não parecia nervosa.

— Sabe, Saulo. Quando eu te conheci, achei que estava conhecendo outro tipo de homem...

Ele ouvia sem muita atenção. Estava convencido de que ela ia terminar.

— Você era sensível, gostava de arte, parecia entender a alma feminina, parecia valorizar o amor, o romantismo... — enquanto falava, ela movia a cabeça e fazia balançar um pouco os cabelos. Seu olhar estava distante, parecia uma atriz, estava mais linda que nunca. Saulo reparou que ela usava um sutiã preto, provavelmente novo. Aquilo o excitava levemente, mas também o torturava, porque ele não parava de pensar que ela ia encontrar alguém quando saísse do apartamento. Não era normal que se arrumasse daquele jeito simplesmente para terminar com ele, lógico que ia ver outro.

Flávia continuava a falar, lembrando que o sexo não pode estar acima da confiança, do amor, dos planos compartilhados. Mas Saulo só reparava no suave movimento dos seus lábios, nos olhos cuidadosamente delineados, e nos seios contornados e pressionados pelo rigor do sutiã preto. Começou a pensar que sua namorada não era assim tão inocente: quando queria, sabia provocar. O problema era que não queria com muita freqüência. Mas era inaceitável que aqueles seios macios terminassem a noite nas mãos de outro. Subitamente uma idéia confusa pareceu dar alívio àquela pletora de sensações contraditórias. Faria amor com Flávia uma última vez. Ou pelo menos tentaria. Tomaria suas mãos, pediria um perdão caudaloso, convincente, e a levaria para o quarto antes que ela o contrariasse. Afinal, ele ainda era oficialmente seu namorado. Depois disso estaria mais calmo para terminar, deixaria que ela saísse porta afora, deitado em sua cama, enrolado na maciez compreensiva do seu edredom. Dormiria um sono pesado, sem sonhos, e só voltaria a pensar em garotas de programa daí uma semana, quiçá um mês. A idéia lhe agradava e antes mesmo de formular a primeira frase, já tinha tocado Flávia nos cabelos, já estava confessando que ela era linda, na verdade a mulher mais linda que ele já tinha namorado. Dizia isso com os olhos baixos, como se admitisse uma fraqueza dele, não uma qualidade dela. E logo recordou os seios, e quis dizer alguma coisa também sobre eles, mas, não sabendo como se expressar, apenas os tocou, com espanto, com estranheza, com certo desespero até. Suas mãos já lhe tiravam o vestido quando ela exigiu alguma promessa, que ele fez, sem entender muito bem, apenas assentindo com a cabeça — sim amor, claro que sim, eu prometo, eu juro! — e redescobrindo a magia candente daqueles seios que pareciam bem mais imponentes por trás do negrume do sutiã. Flávia Cristina deteve-o algumas vezes, por vaidade e prazer, enquanto internamente se deliciava com a realização de seus planos. Lá estava ele novamente, seu namorado, implorando por sua nudez, prometendo e concordando com o que ela quisesse, só para ter alguns minutos dentro do seu corpo quente e úmido de fêmea. Considerava-se superior em estratégia, e se congratulava por não ter respondido o email dele com as primeiras palavras que lhe vieram à cabeça. Depois consentiu em ir para o quarto, se despiu de uma maneira programada, teatral, prendendo a barriga e exibindo uma lingerie ansiosa, que esperara anos no fundo de uma gaveta. Saulo estava extasiado, certas coisas com que ele sempre tinha sonhado começavam a acontecer, e isso dava à realidade uma atmosfera cinematográfica, meio fantástica e ao mesmo tempo mais emocionante, mais colorida, mais real. Quando Flávia cavalgou sobre ele e o sufocou de leve entre os seios, ele quis desesperadamente dizer alguma coisa que não sabia o que era, só sabia que era verdadeiro, intenso e definitivo. Assustou-se ao ouvir a própria voz gritando “eu te amo, Flávia Cristina!” e o susto logo se converteu no imenso prazer que fluiu pelo seu corpo e o sossegou e o refrescou como uma chuva torrencial de dezembro. Flávia o ouviu, satisfeita, depois sentiu certa comichão na altura da cintura e ficou se perguntando se aquilo era o tal do orgasmo. Mas a sensação se dissipou e ela apenas se deitou relaxada sobre o namorado, seu corpo oscilando entre o cansaço e a satisfação.

Quando recuperou o ânimo, foi correndo ao banheiro, porque detestava ficar com sêmen entre as pernas. Estacou diante do espelho, levemente chocada, lembrando que estava gorda e notando que o suor tinha espraiado a tinta do delineador. Mas, apesar dos inconvenientes, teve a sensação de estar ligeiramente mais bonita, e lamentou que não fosse passar numa festa ou danceteria onde todos pudessem testemunhar essa mudança. Voltou ao quarto e tentou não rir ao ver Saulo com cara de bobo, olhando para o teto. Não adivinhou que ele se perguntava se da próxima vez ela o deixaria filmar. Deitou ao lado dele, acariciou de leve seu peito, seu rosto, e disse baixinho o que tinha pensando antes de sair de casa.

— Então, amor? Você vai me dar os duzentos reais?

— O quê?! — Saulo não acreditou. Achou que outra mulher tinha tomado o corpo dela.

— Não foi o que combinamos? Você não ouviu o que eu disse na sala?

Ele ficou ainda mais confuso e assustado. De fato não tinha ouvido bem o que ela dissera antes de irem para cama. Tinha achado que era algo banal, mais um sermão sobre a importância do amor ou coisa do tipo.

— Amor, então foi isso que você falou!? Não estou nem acreditando, você falou que ia me cobrar!?

Flávia abriu uma risada gostosa, triunfante. Saulo também começou a rir, primeiro apreensivo, indeciso, depois relaxado e cúmplice. Abraçou a namorada, mais feliz do que nunca. Sentia estar diante de outra mulher, mais ousada, mais inteligente e divertida.

— Você não tinha ouvido nada, hem, amor.

— Você me pegou, linda. Aquela hora eu nem estava ouvindo... — Os dois se abraçavam e riam agora por dentro, riam por sentir que mereciam aquele momento, mereciam um ao outro, por motivo nenhum e por todos os motivos do mundo, como a terra merece as flores e as flores merecem a luz e o calor do sol. Flávia ria com um prazer especial, porque sentia que aquela conquista era sua. Ela planejara e executara aquela noite com a precisão de um gênio do crime. De repente sentiu um calor suave e pulsante que aquecia seu peito e subia até as faces, talvez a fazendo corar. Surpresa e encantada, ficou se perguntando se aquilo era afinal o tal do orgasmo. Mas logo concluiu que não. Não era orgasmo. Era simplesmente felicidade.


quarta-feira, 12 de agosto de 2009

Duas dúvidas e uma certeza


I. A Bruxa


Um pentagrama tatuado nas costas, uma lua e três estrelas na mão. Ela tentava me convencer que bruxaria era coisa boa, “o contato com a natureza, a sensibilidade para as energias cósmicas, o cristianismo é que estragou tudo, com aquela moral repressora...” Eu tolerava incenso e maconha em troca de alguns orgasmos — o que um adolescente não faz movido por hormônios? Mas deuses pagãos não são eternos. Um dia foi minha paciência e veio a inquisição. Confessei meu ceticismo. Ela não tinha poderes sobrenaturais, era apenas humana, ou pior: mulher. Ultrajada, tentou se defender atacando — Nunca gozei com você! — mas isso apenas provava sua completa falta de poderes mágicos. A não ser, é claro, para a hipocrisia: nos despedimos com beijinhos formais. Quando ela bateu a porta, o ar puro voltou a fluir no meu apartamento.

II. La Mamma

Ela ficou decepcionada quando esqueci nosso aniversário. Não mandei cartão, não telefonei, mas continuei sendo o destinatário de suas palavras carinhosas: “meu amor”, “minha vida”, “razão da minha existência”. Ela não podia evitar, já que fora educada por estórias infantis e canções românticas. Quando não era a princesa, esperando que eu matasse um dragão, tornava-se uma mãe solícita e pegajosa: “Leve agasalho”, “Não tome leite vencido”; frases até desejáveis quando uma mulher não sabe fazer outra coisa. Confesso que quase a amei, sobretudo quando dentro do seu corpo quente e molhado. Mas seus olhos mendigos pediam algo que eu não podia dar: uma promessa. Acabei por lhes dar algumas lágrimas. Felizmente, seriam poucas. Funcionários públicos vivem à espera de mamães como essa. Eles sim, têm as promessas que elas pedem. Eu ainda tinha alguns dragões para matar.

III. É Ela

Quando ela disse “eu te amo”, tive certa vertigem. Eu queria mesmo tocá-la de novo, sentir o frescor inesperado da sua pele, a maciez sombria dos cabelos negros, estranha nuvem noturna — mas achei que o destino me negaria o privilégio. Veio o privilégio, veio o deleite escandaloso da sua nudez, o tremor ilícito das nossas bocas: a dela de prazer, a minha de medo — medo de ser a única vez. E, de fato, ela não voltou a falar em amor. Fez bem melhor que isso: me deu ordens. Explicou que filhos precisam de um pai, com gravata e carteira assinada. Eu obedeço calado. Não quero que ela descubra minha enorme satisfação. De dia uso o trabalho para esquecê-la. De noite seu corpo absorve essa revolta muda e absurda que tem sido meu único pecado desde que me entendo por gente. Entre uma novidade e outra, passei a acreditar em Deus; afinal, preciso ter a quem pedir. Enquanto ela dorme, peço baixinho que eu seja sempre o destinatário das suas ordens, peço que eu saiba o que fazer com esses moleques ruidosos que brotarão do seu ventre, e peço, sobretudo, que seu riso me dê sempre essa sensação de que já vivo na eternidade. Não tenho mais dúvidas, não preciso de mais nada.

segunda-feira, 10 de agosto de 2009

Moldura

De dento da moldura, ele me olhava. Seriedade, autoridade, prepotência eram palavras que eu desconhecia. Eu via apenas os olhos claros e imóveis do retrato, aos quais minha mãe ia atribuindo temor ou ternura, conforme seu interesse. Se eu arriscasse um mergulho no rio, “o que seu pai pensaria de uma loucura como essa?!” Se eu fechasse uma prova de matemática, “como seu pai ficaria feliz!” Aos poucos fui aprendendo a medir minhas ações pelos olhos de uma fotografia. Tive amigos que odiavam o próprio pai, e buscavam ansiosamente um emprego que lhes permitisse sair de casa. Eu não podia odiá-lo nem amá-lo — do alto da parede, ele era distante, plano, inacessível a meus sentimentos.

Mas não digo que nos estranhássemos. Acabei descobrindo que mamãe não era a única a adivinhar emoções por trás do seu rosto inerte. Quando tomei certa liberdade com nossa empregada, me pareceu que ele aprovava silenciosamente. Acreditei captar-lhe uma euforia contida, quando um amigo mais velho começou a me ensinar a dirigir. Um dia mamãe me mandou usar calças compridas e camisa de gola para jantar. Apareceu um senhor meio curvado, apresentado com adjetivos favoráveis, junto à estranha previsão de que nos daríamos bem. Naquela noite derramei comida na mesa, falei alto, relembrei constantemente a figura altiva de meu pai. Citei sua seriedade, sua austeridade moral, como se eu não as conhecesse apenas pelas palavras de minha mãe. Eu mesmo não compreendia a razão da minha insólita fúria, mas quando o sujeito se despediu, um tanto encabulado, ainda mais curvado que na entrada, senti pela primeira vez que o retrato me transmitia um olhar  triunfal. Era o início de uma cumplicidade secreta, já não acessível a mamãe e suas frases tortuosas.

Nos anos seguintes, papai passou a aprovar minha juventude tranqüila, meus passeios de carro, minha lenta aprendizagem com a bebida, o bilhar e as garotas. Achei que nossa relação manteria a sintonia, até o dia ingrato em que olhei para o retrato e não compreendi o olhar que ele me devolvia: seria aprovação desdenhosa, reprovação sumária ou simplesmente indiferença? Chegava a época do vestibular, e eu tinha escolhido Artes Plásticas. Mamãe protestava incessantemente, pois acreditava que uma facilidade para desenho seria mais bem explorada em arquitetura — ou mesmo em moda, desde que observadas certas reservas. Mas a carreira incerta das artes era algo que meu pai decididamente não aprovaria. Pela primeira vez, ao perscrutar o retrato, eu não sabia dizer se ela tinha razão.

Depois veio a questão com Lucélia. Mamãe não aprovava nosso casamento, dizia que o temperamento instável da garota me traria problemas no futuro. Reclamava do cigarro, acusava-a de não saber cozinhar — no que tinha plena razão — e nesse debate também não consegui intuir de que lado papai estaria.

Um dia estaquei na sala e fiquei a encará-lo, mudo, como se esperasse uma resposta definitiva. Não uma palavra, mas um sinal nítido, o princípio de um código que me permitiria deduzir suas intenções para o resto da vida. O silêncio me surpreendeu com uma clareza inacreditável. Na sua indiferença pálida, o retrato tentava me transmitir que não era mais hora de consultá-lo. Me pareceu que a foto queria abdicar da função de oráculo, e se contentar com o cargo modesto de lembrança. Mas a súbita transformação me perturbava. Não consegui conter a revolta; um silêncio morto queria se instalar onde antes havia um diálogo fértil e profundo. Senti-me traído, abandonado, praticamente insultado. Tomei o retrato nas mãos, vociferei impropérios, acusei a imagem de ser apenas o espelho da minha loucura, uma ilusão que eu herdara de minha mãe, e minha mãe herdara de uma ausência. Revoltado contra sua passividade orgulhosa, espanquei o retrato, bati-o contra as costas de uma cadeira, depois o rasguei, cortei minhas mãos no vidro estilhaçado, talvez acreditando, por desespero, que se pode destruir um passado anulando um de seus símbolos. Quando mamãe entrou na sala, consegui conter o choro, não as lágrimas. Ela apenas se abaixou e começou a catar os cacos. Surpreso, percebi que não estava contrariada. Também estava farta de ver o presente governado pelo fantasma que ela mesma havia projetado atrás daquela imagem vazia. Recolhemos juntos os estilhaços, varremos o chão, colocamos o vidro para fora. A grande moldura, que me disseram ser de jacarandá, eu venderia numa feira de antigüidades. Mas algo me deteve no momento de fechar o negócio. Não foi o preço baixo — o dinheiro não me interessava, eu queria apenas me livrar do que restava de uma revolta estéril e obscura — foi antes o insólito pressentimento de que um dia eu também seria retrato. A emoção que pulsava no meu peito, a força misteriosa que enchia e esvaziava meus pulmões também se tornaria rigidez, frieza, ausência. Segurei a moldura diante de mim, tentei imaginar meu rosto imobilizado dentro dos seus limites. Especulei que um dia talvez um filho precisasse do meu rosto ali dentro, dos meus olhos vazios de sentimento para que ele pudesse projetar e compreender os seus. Livrar-me da moldura não me livraria dessas conclusões. Minha decisão súbita decepcionou o comprador. Apoiei a moldura no ombro, voltei para casa com passos lentos e firmes. O peso do limite eu aprenderia a suportar paulatinamente, até que eu fosse também um limite, uma imagem contida num retângulo de madeira. Hoje a moldura me aguarda num quartinho dos fundos, e eu aguardo o dia em que me tornarei o homem que quero emoldurar.

domingo, 19 de julho de 2009

Sonho falado

Podia ter acontecido a qualquer um, mas o fato se deu com André Soares Mendonça, quando desceu do ônibus no centro do Rio de Janeiro. Ao ver a jovem morena que debatia com um camelô o preço da pulseira de Swarovski, acreditou que enxergava a mulher da sua vida. Como mais tarde confessou aos amigos, a visão lhe prejudicou bastante o trabalho. Não conseguia aceitar que estivesse pensando em girassóis, pois sempre achara que quando se apaixonasse pensaria exclusivamente em rosas. Mais tarde, já em casa, chegou a se irritar por não saber fazer canções nem poesia. Não queria que o dia terminasse sem que se registrassem de algum modo os belos sentimentos que tivera pela manhã. Decidiu que voltaria ao centro no mesmo horário, diariamente, e foi nesse momento que se inquietou com o medo de esquecer o rosto altivo da morena, antes de voltar a vê-la. Não conseguiu dormir sem que a solução surgisse do seu pensamento confuso e obcecado.

No dia seguinte procurou uma delegacia de polícia para dar queixa de um assalto. Exigiu um retrato falado, alegando poder recordar em detalhes o rosto da meliante. O desenhista foi chamado, e André, aliviado, descreveu os pequenos olhos de índia, os cabelos lisos, a boca carnuda e discretíssima, que nem por um segundo ele vira aberta. Obteve uma cópia do desenho e agora passa diariamente na barraca de bijuterias para proceder sua inspeção silenciosa. Quer acreditar que reencontrar a morena é mera questão de tempo. Pede ao destino que não se apresse, porque ele ainda não sabe bem o que dizer; mas que tampouco se demore, a ponto de que o papel desenhado se torne apenas a lembrança risível de uma bobagem de juventude.

sábado, 6 de junho de 2009

Liberdade?

Ele tem flertado com a mediocridade. Passeios no shopping, sexozinho nos fins de semana, e sono, muito sono. Logo estará vendo televisão. Tudo por causa de uma dessas mulheres de ancas largas e gestos delicados. Ela já sabe os nomes que vai dar aos filhos. Ele ainda quer escrever um livro. Mas alguma coisa no seu corpo, algo além da queda de cabelos, vai conciliando o futuro com uma gravata e uma carteira assinada. Os sonhos que restam vão morrendo a cada orgasmo. Aos poucos ele vai descobrindo que nunca quis ser livre. Queria apenas alguém com quem dividir a cela. As mesmas paredes que antes o oprimiam formam agora um refúgio contra a desordem cansativa do mundo. E desde que a doce morena permaneça ali dentro, desde que ela o envolva nos seus braços macios, desde que ela sorria brancura e morda prazer, aquele espaço exíguo não será mais uma prisão, mas simplesmente o seu lar. Para que ser livre, se a busca terminou? Uma mulher para dividir a cama, uma janela para olhar as estrelas, uma madrugada para escrever versos medíocres, eis a súbita descoberta: tudo isso é muito melhor que a liberdade.