segunda-feira, 20 de fevereiro de 2017

Cidade dos Atores

O garçom que acaba de trazer a conta não é garçom. O taxista que me leva ao hotel não é taxista. O gerente que dá instruções a uma estagiária morena de cabelos longos nunca deve ter lido um livro sobre hotelaria. Na Cidade dos Atores todos são atores representando seus papéis. Estudaram e ensaiaram seus gestos, suas palavras, o sotaque, a surpresa ou a indiferença que revelam no olhar e no tom de voz. Muitos passaram anos na escola de arte dramática, debruçaram sua juventude sobre Shakespeare e Nélson Rodrigues. Alguns fizeram cursos mais rápidos, com ex-diretores ou atores famosos, mas esses cursos foram devidamente avaliados e certificados pela Secretaria de Cultura. Os intuitivos e autodidatas não são tolerados na cidade. Há profissionais estrangeiros, mas eles estudaram em seus países de origem e sabem imitar perfeitamente o sotaque local. Se alguém aparenta ser um americano ou um chinês, só pode ser um ator nacional desempenhando meticulosamente seu papel. Os atores estrangeiros não costumam representar estrangeiros; isso não seria nenhum desafio, nenhuma conquista excepcional.

Claro que há turistas, a cidade não sobreviveria sem eles. Mas há também atores representando turistas, para tornar a experiência do turismo mais saborosa e completa. Um dia passei quase uma hora assistindo uma velhinha a tomar seu chá, num café decorativo, próximo ao centro histórico. A interpretação não foi menos que magistral. Enquanto lia o cardápio, a atriz encenou a serenidade ancestral das velhinhas, encarnou uma lentidão despreocupada, sustentou uma elegância suave, casual. Com a chegada do cheesecake, assumiu certa voracidade, porém matizada com um prazer requintado junto com breves alusões a uma angústia sutilíssima. Na sequencia retomou a serenidade, mas agora com uma energia e uma concentração realisticamente hipnóticos, culminando numa surpresa vigorosa, quando reclamou da demora da conta. O garçom atuou adequadamente, desculpando-se de forma sumária, fingindo não ver que eu, duas mesas atrás, de câmera ligada, vivia a euforia silenciosa de um espectador feliz. Só no dia seguinte percebi que o vídeo não havia registrado nem de longe a vitalidade irrepetível daquele momento. Lamentei inutilmente; precisei de outras experiências para me conformar. A magia misteriosa da atuação parece não admitir o automatismo das câmeras. O gesto mais vibrante, o olhar mais preciso, indubitável, repetidos em vídeo, parecem fingidos, forçados, artificiais.

Faz anos que passo as férias na Cidade dos Atores, e minhas expectativas nunca foram frustradas. Um homem que barganha o preço das frutas com um camelô, meninas voltando da praia, balançando distraidamente os quadris, o motorista indignado que vocifera com o motoqueiro transgressor, tudo é feito com absoluta precisão e domínio. Um gesto atravessado, um mínimo exagero vocal deitaria a cena a perder, furtaria o prazer do espectador, perder-se-ia num caos tumultuoso de frases exclamativas e banais.

Por isso suponho que haja uma fiscalização severa; os atores incompetentes são rapidamente demitidos, talvez exilados. A Cidade não pode admitir o erro, o acaso, a intromissão perniciosa da realidade. Imagino galpões impenetráveis, nos subúrbios, onde os textos são ensaiados, repetidos, repassados ao limite exaustivo da perfeição. Os profissionais devem dormir muito pouco, e passar as folgas numa cidade vizinha, onde talvez sejam reconhecidos, porém tratados como homens normais, que precisam comer, descansar, esquecer, não como atores que atuam que estão comendo, descansando, esquecendo.

Certa vez fingi uma doença para assistir uma peça num hospital público. Me deliciei com as faces resignadas, o terror no rosto dos familiares, a impassibilidade altiva dos profissionais uniformizados. Naquele dia fui, muito brevemente, para justificar a cena do médico, um ator diletante e canastra. Aludi a uma vaga dor de coluna, tirei a camisa, deixei-me auscultar, medicar, aconselhar, apenas para me deleitar com um olhar de enfado, uma voz monótona, uma gesticulação frouxa, histrionicamente indiferente. Em busca de prazeres semelhantes, fui um passageiro de ônibus, um comprador de legumes, um homem comum, num bar, tentando esquecer sua solidão intragável. A bebida intensificou minha sensibilidade para a beleza de um momento programado e executado por mentes humanas. O garçom fingiu um vago interesse pelas minhas dores. O homem ao lado me contou um caso que seria mais pungente, mais dramático e cabal. Algumas mesas atrás um casal discutia furiosamente a intromissões frequente da sogra. Tencionei beber até a inconsciência, para ver como me tratariam no bar, se me levariam para o hotel, o que restaria da minha carteira, da minha dignidade. Meu estômago simplesmente me obrigou a desistir da ideia. O que fiz foi chegar cansado no quarto, imaginando como a atriz que representasse uma garota de programa teria fingido o orgasmo: o tom agudo dos seus gemidos, a pressão das pálpebras, a contração decidida das sobrancelhas. Farto de especular, deixei o espetáculo para outro dia.

Quando volto para minha cidade natal a vida me parece deformada e sem sentido. Já não faço mais que trabalhar e juntar dinheiro para as férias. Descobri que algumas pessoas da minha cidade, e até do meu bairro, também já visitaram a Cidade dos Atores. Devem saber mais ou menos o que sinto quando estou por lá. Claro, que nunca quis conversar com elas. Diriam que a cidade é maravilhosa, intensa, sobre-humana, ou seja, nenhuma novidade. E, se por acaso não tiverem gostado, não tiverem sabido apreciar o prazer de viver cercado pela encenação e pelo fingimento, eu não toleraria ouvir sua opinião, assim como nenhum homem deste mundo tolera ouvir um juízo negativo sobre o mar ou o pôr do sol.

Possuído por tais pensamentos, não seria natural que eu desejasse e pelo menos tentasse viver permanentemente na Cidade dos Atores? Essa ideia me ocorreu há alguns anos, perturbou meu trabalho e reduziu minhas horas de sono. Fui tantas vezes um turista no meio de profissionais. Não seria hora de ser um ator representando um turista? Esperei o tempo necessário, contando os dias e meses. Nas férias seguintes, voltei à cidade com um plano ousado, ambiciosamente teatral. Não fui para o hotel modesto, no centro, onde eu costumava me hospedar. Parti para um cinco estrelas, próximo a um monumento histórico, quatro vezes mais caro. Ao dar entrada, perguntei pelo menu do café da manhã; fingi certa perplexidade por não terem figos. O atendente, o ator, garantiu que tomariam providencias. No dia seguinte, encontrei os figos na mesa, mas não deixei que minhas pálpebras movessem um milímetro de surpresa. Acompanhei-os de queijo, caputino, broa de fubá. Mastigando a esponja adocicada, emiti uma aprovação gutural, fingi um prazer sublime. Só então me ocorreu que eu tinha espectadores. Nas mesas ao lado, os homens me observavam com uma atenção excitada, olhos fixos; eram turistas em busca do seu espetáculo. Nesse momento senti que eu havia exagerado. Os figos não justificavam um prazer tão elevado. Além disso eu havia dado a entender, no dia anterior, que estava acostumado a eles. Meu gemido, portanto, não devia expressar nenhum êxtase, nenhuma satisfação fora do comum. Tive que admitir: minha estréia fora um fracasso.

Voltei para o hotel. Ensaiei várias vezes a compra de um produto eletrônico. Decorei o texto, atuei a surpresa pelo preço, a indignação, a argumentação inútil, a derrota, a resignação, a submissão rancorosa. Quando me senti pronto, parti para a ação. Escolhi uma lojinha pequena, na zona norte, onde eu teria poucos espectadores. Selecionei um produto, espantei-me, questionei o vendedor, debati. Mas uma novidade deitou a perder minhas horas de ensaio. Naquela semana havia uma promoção, um imprevisível desconto de dez por cento. Confuso, tive que improvisar. Não sabia se o desconto deveria me levar ao contentamento, ou se eu deveria insistir, intensificar a revolta, alegando que o paliativo não tirava o preço da sua faixa exorbitante. Optei pela segunda via, mas não consegui expressar a intensidade necessária. A falta de ensaio me traiu. Minha voz saiu chocha, meus argumentos soaram capengas, falsos, teatrais. O balconista percebeu. Os outros consumidores perceberam. Na impossibilidade de pedir-lhes desculpas, apenas comprei o produto, paguei o preço, voltei para o hotel, derrotado. Meu plano naufragava. Talvez eu precisasse de mais observação, mais ensaios, mais tempo na Cidade dos Atores. Mas isso custaria caro. E agora muitos saberiam que eu não era ator. Talvez ninguém prestasse atenção quando eu entrasse num bar ou num cinema. Como última tentativa, desesperada, chamei uma garota de programa, com intenção de fingir absolutamente tudo. Fingir satisfação com seus seios grandes, fingir prazer com o aderente sexo oral, fingir um êxtase profundo com o alívio do orgasmo. Mas a menina quase não tinha seios, o oral foi com camisinha, e o orgasmo foi um alívio fraco e banal como um arroto.

Naquela tarde achei que eu não conseguiria dormir, me condenando e martirizando pelas péssimas atuações. E no entanto, dormi como um menino, talvez por ter compreendido o erro que eu vinha cometendo. Os atores tinham algo que me faltava completamente. Disciplina, dedicação e talvez o tal do talento. Acreditar que eu seria um deles tão facilmente foi uma ingenuidade absurda. No dia seguinte eu estaria livre dessa sina. Tomaria o que servissem à mesa. Perambularia pela cidade, desatento a tudo, pegaria um táxi para qualquer lugar. De noite, daria saída no hotel e voltaria para a minha cidade banal. Mas no ônibus de volta, ou talvez ainda na rodoviária, eu perceberia um homem feliz. Um homem que tentou ser outro, e agora sabe quem é. Um homem que se equivocou, quase usurpou, sem querer, um cargo legítimo, e agora reconhece seu lugar na plateia; sem ilusões, sem ressentimento.


Ronaldo Brito Roque


quinta-feira, 26 de maio de 2016

Flanando por entre automóveis



Estou usando uma nova técnica com meu filho. Falo o tempo todo no irmão dele, fico repetindo que ele é bem sucedido, que tem um emprego legal, já está economizando para comprar um carro e essa coisa toda. Meu filho vai ter que entender, ele precisa arranjar um emprego, precisa largar essa obsessão pela música.

Semana passada ele entrou aqui carregando o violão. Eu perguntei onde ele estava.
Tocando com os amigos.
Ah, é? Tocando com os amigos? Escuta: seu irmão te falou o lance maneiro lá na empresa dele?
Que lance?
Lá tem um prédio só de estacionamento. Ninguém deixa o carro na rua. A empresa tem estacionamento para os funcionários.
Ah, legal.
Calma, cara! Ainda não falei tudo. O prédio tem elevador, elevador para carro! Ninguém fica manobrando naquelas rampinhas insuportáveis. Você entra no elevador e chega no seu andar. Ponto final.
Nossa, deve ser muito legal.
Claro que é legal, rapaz. Só é. Se liga. Elevador para carro!
Ele não demonstrou, mas sei que ele ficou impressionado. Tenho certeza que ele vai acabar entendendo, só preciso continuar falando no irmão, insistir nessa tecla. Outro dia eu desliguei a televisão e ele sentou aqui um minuto. Já notei que ele não gosta de televisão. Aproveitei para falar mais uma vez no emprego do Marcelo.
Seu irmão te falou o lance lá da empresa?
Que lance?
O ônibus pega todo mundo em casa. Ele não fica esperando ônibus, cara. A empresa tem seu próprio ônibus.
Então para quê o estacionamento?
Como assim, para quê o estacionamento? Mas você não entende nada, mesmo, hem! Seu irmão vai comprar um carro e vai usar o estacionamento. Ele já fez uma poupança. Está econimizando para a entrada.
Ah, tá.
Não é “tá”, não, rapaz. É muito mais que isso: o ônibus tem ar condicionado! E a empresa também. A empresa tem ar condicionado central, ninguém fica nesse calor insuportável!
Não precisa gritar, eu acredito.
Mas não é para acreditar, garoto. Você tem é que entender. Você também tem capacidade para arranjar um emprego desses. Basta se empenhar, correr atrás!
Mas eu já tenho emprego. Eu não toquei lá no Suruba's?
Ah, meu filho, olha só como você fala. Toquei lá no Suruba's! Até parece que isso é um emprego de verdade. Toquei lá no Suruba's! Pelo amor de deus, vê se cresce.
Tá, pai, já entendi. Agora eu tenho que ir. Tenho uma reunião com o pessoal.
Pensa no ônibus, meu filho. Tem ar condicionado!
Coitado do meu filho. Ele se encontra com os amigos para falar de música e diz que tem uma reunião. Acho que a cabeça dele não está muito legal. O problema é que uma terapia deve custar uma fortuna. Não tem outro jeito, preciso continuar com a minha técnica. Uma hora ele vai entender. E quando o Marcelo estiver por aqui, vou falar com ele: “Dá um toque no seu irmão, cara. O moleque precisa acordar, precisa largar esse violão.” O Marcelo vai me ajudar, tudo vai se resolver, eu tenho certeza.
Ainda bem que eu tenho o Marcelo. Ele me dá alegrias que compensam as loucuras do caçula. Quando ele deu entrada no carro, a mãe dele ficou tão feliz que nem conseguia falar. Ele passou aqui, levou a gente para uma volta. Eu ficava passando a mão no carro, sentindo aquela sensação gostosa de coisa nova, de coisa que saiu da fábrica. Lembrei do meu velho Monza e bateu uma saudade danada. Hoje não tenho mais carro, mas não ligo para isso. A única coisa de que eu preciso nessa vida é ver o meu caçula num bom emprego. Não tenho mais ambição, só quero o bem dos meninos.
Não falei nada para o Marcelo, mas enquanto eu passava a mão no carro, sentindo aquele brilho, aquela textura refrescante, fiquei mentalizando que o Vanesso também vai se arranjar, vai comprar um bom carro, alugar uma quitinete bacana, mais perto da cidade. Ele não é burro, só precisa se dedicar. Minha mulher me abraçou: – Você está pensativo, meu bem. O que foi? – É só felicidade, meu amor. Só felicidade. Olha esse estofamento, essa porta-luva de duas abas, que coisa linda!
Você viu o som, pai? É para pendraive! Você coloca o pendraive aqui, ó! Você coloca assim, ó!
Eu sei, meu filho, eu sei. Não sou tão velho, sei o que é um pendraive.
Aquele foi o meu grande momento. Estive no paraíso por alguns minutos. Infelizmente voltei para casa, e lá estava o Vanesso, com aquele aparelhinho no ouvido.
Onde você estava, meu filho?
Dando uma volta.
Dando uma volta? Por que você não estava aqui, para ver o carro do seu irmão? O som tem pendraive, você poderia colocar essas músicas do seu aparelhinho.
Você deve estar querendo dizer que o som lê pendraive.
Lê pendraive, tem pendraive, que diferença isso faz! O importante é ter um carro daquele. Você já é um adulto, devia saber disso.
Ah, tá, desculpa.
Agora ele pegou essa mania de pedir desculpa. Eu odeio quando ele faz isso, me dá vontade de descer a mão na cara dele. Liguei a televisão bem alto, para ele sair da sala. Isso nunca falha. Ele subiu para o quarto e ficou na dele. Não sei mais o que fazer. Acho que está até batendo uma depressão. Quando eu chego em casa e não vejo meu filho, sei que ele está com aquela molecada, brincando de ser músico. Depois ele chega, se tranca no quarto e fica a noite inteira ouvindo aquele aparelhinho insuportável. Não sei como ele aguenta.
Acho que estou chegando no meu limite. Talvez eu é que esteja precisando de terapia, mas deve custar os olhos da cara. Não posso gastar dinheiro com essa frescura, tenho que me segurar. Por isso resolvi ligar para o Marcelo, para bater um papo, descontrair, falar do carro novo. Mas eu senti que ele estava esquisito, desconversando, meio desanimado.
O que foi meu filho? Você está estranho.
Não é nada, pai.
Desembucha, rapaz. Eu sou seu pai, você pode contar comigo para qualquer coisa.
Pô, pai, sabe o que é? Eles cobram para a gente estacionar o carro lá na empresa. Só descobri essa semana.
O que é isso, meu filho? O que você está falando? Isso não faz sentido!
Pois é, pai. Eu também fiquei chocado. Só gerente pode estacionar de graça. Empregado tem que pagar.
Mas não pode ser. Isso é sacanagem demais!
Só é. Por isso eu estou meio chateado, acho que vou voltar a ir de ônibus. No fim das contas não compensa estacionar o carro lá.
Não, meu filho. Não fala isso. Agora você tem o seu carro. Você tem que ir de carro.
É, não sei... Ainda não sei o que vou fazer, vamos ver como fica no fim do mês. Ainda estou pagando as prestações do carro, né. E o estacionamento é caro para diabo.
Meu deus, que cretinice! Não acredito que o dono da empresa faz isso com os empregados.
Pois é... O carro cabe direitinho dentro do elevador, você tem que ver, pai. Eu queria até levar você lá. Mas fica tão caro.
Ah, meu filho. Não fala assim. As coisas vão melhorar, você vai chegar a gerente, eu tenho certeza.
É pai, eu sei, eu sei. Deixa para lá. Outro dia a gente conversa mais.
Amanhã eu te ligo, meu filho. Não fica triste, não. Isso vai mudar, eu tenho certeza.
Quando desliguei estava quase infartando. Aquilo era canalhice demais! Cobrar estacionamento dos próprios empregados? Que tipo de empresa faz uma sacanagem dessas! Deve haver algum tipo de lei contra isso, não é possível. Sentei no sofá, senti meu coração vibrando como um tarol, minhas mãos tremendo. Minha mulher entrou na sala de repente.
Você vai assim mesmo, amor?
O quê?
O chou do Vanesso, você não lembra? O Vanesso vai tocar com a banda no bar Penicão.
Vanesso? Ah, meu deus, eu tinha esquecido completamente.
Põe uma calça pelo menos. Você está com essa bermuda o dia inteiro.
Tá, vou me trocar, pode deixar.
Vesti a calça, e saímos. Eu tinha esquecido completamente desse chou – que não era chou coisa nenhuma, era só o Vanesso tocando com aquela molecada. Mas pelo menos eu ia me distrair, esquecer um pouco a tremenda sacanagem que fizeram com o Marcelo. Não dava nem para acreditar, cobrar estacionamento dos próprios empregados! Devia haver alguma lei contra isso. Se eu tivesse ao menos coragem de conversar com um advogado, tenho certeza que eu descobriria alguma coisa. Mas eu não tinha coragem de conversar com advogado, nem o Marcelo teria coragem de acionar a empresa, então era melhor esquecer.
Sentei com minha mulher e pedi logo uma caipirinha. O Vanesso acenou para a gente, começou a tocar um sambinha. Minha mulher falou o de sempre: não vai beber muito, não sei o quê. É por isso que eu não gosto de sair com minha mulher, ela fala sempre as mesmas coisas, já sei até as frases que ela vai usar. Pedi mais uma para ver se eu esquecia minha mulher também. Fui bebendo e sentindo aquele relaxamento gostoso, aquela soltura. Comecei a ouvir a música como se ela fosse uma coisa muito minha, como se já estivesse dentro de mim e nem precisasse de ouvido para chegar na minha cabeça. De repente escutei aquelas frases:

Flanando por entre automóveis
da garagem vertical.
Curtindo a brisa suave
do ar condicionado central,

Lá vai meu irmão,
lá vai meu herói.
Lá vai meu irmão,
fenomenal.

O que era aquilo? Eu nunca tinha ouvido aquela música. Só podia ser coisa do Vanesso! Mas a loucura toda é que, de alguma forma, a música era minha também. Era sobre o Marcelo, meu filho preferido, meu herói. Aquilo era muito meu! Fechei os olhos e cantei naturalmente, como se eu soubesse a letra de cor; como se eu nunca tivesse ouvido outra coisa na vida.

Lá vai meu irmão,
lá vai meu herói.
Lá vai meu irmão,
fenomenal.

Quando reabri os olhos, minha mulher estava batendo palmas, toda entusiasmada. – Você já conhecia? Já conhecia e não me falou nada! Como você conseguiu guardar segredo?
Claro que eu não conhecia coisa nenhuma. Mas senti que meus olhos estavam molhados. Eu estava chorando, nem sei se de tristeza ou de alegria. E, para falar a verdade, não quis saber. Cerrei os olhos e continuei cantando.

Lá vai meu irmão,
lá vai meu herói.
Lá vai meu irmão,
fenomenal.


domingo, 1 de dezembro de 2013

Prazeres secretos de Adriana Milane



Adriana cultiva pequenos prazeres que ela não conta nem para as melhores amigas. Por exemplo, marcar encontros e não comparecer. Marcou com Nelinho quarta-feira passada. Os dois iam tomar uma cerveja num bar de esquina, em frente à praça Velha Montenegro. No telefone, Adriana comentou que o bar estava de cara nova, haviam mudado a decoração, colocaram um piso diferente, de cerâmica portuguesa, e essas mesinhas de pedra polida, que ela nunca sabe se é mármore ou granito. Nelinho parecia empolgado:  
Então está marcado. Sete e meia. Não vai esquecer, hem, princesa!  
Claro que não.
Sei que você sempre atrasa uns dez minutinhos.
Que é isso! Não atraso, não, de jeito nenhum!
Não tem erro. Já estou acostumado.  
Tudo bem, talvez eu atrase uns cinco minutos. Mas eu chego, pode me esperar.
Então tá, meu anjo. Te espero lá.
Beijo, gracinha.


Na quarta à noite Adriana se deitou na cama e ficou pensando numa luminária sofisticada que vira numa revista de decoração. Três lâmpadas envoltas em vidro escovado, unidas por uma armação metálica orgânica e tortuosa. Um objeto que parecia uma fusão perfeita de planejamento humano com as imprevisíveis e caprichosas leis do acaso. Quando notou que já eram sete e meia, ela foi sentindo aquele calorzinho gostoso, aquela comichão suave na altura das pernas. Nelinho devia estar saindo do táxi, entrando no bar, escolhendo uma mesa num cantinho mais escuro. Às sete e quarenta ele devia estar pedindo uma água mineral, segurando-se para não mandar uma mensagem para o celular dela. Sete e quarenta e cinco, chegou a mensagem, e Adriana estava de olhos fechados, alisando a parte interna das coxas. Adivinhava que Nelinho estaria pensando avidamente nela, verificando o celular a cada quinze segundos, ansioso pelo momento em que ela entraria no bar e olharia ao redor, procurando por ele. Sete e cinquenta chegou a segunda mensagem, e o travesseiro já tinha ido para o meio das pernas. Adriana sabia que o homem estaria considerando pedir a conta e jurando para si mesmo nunca mais marcar nada com aquela vadia. Mas ela ainda acreditava numa terceira mensagem, implorando disfarçadamente, falando algo como "hoje não deu, mas talvez na sexta" ou "vou ficar até tarde na Lapa, se der, passa lá". E de fato a terceira mensagem chegou alguns minutos mais tarde, quando Adriana já estava suada, revirando os olhos, ofegante como uma jogadora de tênis. Estava se tornando um vício. Quase toda semana, era pelo menos um encontro que ela frustrava por mero prazer.


Outra coisa que sempre a diverte é pedir pequenos favores aos colegas de trabalho. Todo dia, antes de sair da agência, ela guarda o corretivo num dos armários do corredor, para garantir o prazer de pedir, no dia seguinte, que algum colega o pegue para ela. Quando um desavisado entra na sua sala, e pergunta se ela já preencheu alguma planilha idiota, ou puxa assunto sobre a última bobagem do ator do momento, Adriana responde no piloto automático, depois acrescenta, displicentemente:
Vem cá, já que você está mais perto do corredor, pega o corretivo para mim.
Claro, é para já diz o desavisado, sem saber que, assim que ele virar as costas, ela vai fechar os olhos, morder de leve o lábio inferior e sentir um arrepio gostoso lhe subindo pela espinha.


Claro que ela nunca usa o corretivo, que é coisa de gente preguiçosa e nojenta. Quando tiver sua própria empresa, não hesitará em demitir todos os funcionários que usarem aquela meleca fedida. Está se deliciando com esse pensamento quando o néscio volta com o vidrinho na mão, feliz como um cachorrinho de madame. Ela agradece sem tirar os olhos dos papéis sobre a mesa, e espera que ele saia da sala para voltar a suas fantasias.


Adriana ainda não sabe se quer ter seu próprio negócio ou ser gerente de uma empresa maior. Mas tem certeza que deseja o poder de demitir. Quando ela for chefe de departamento, e um funcionário fizer uma besteira qualquer, como usar o corretivo ou repassar piadinhas machistas para os emeils dos colegas, Adriana vai anotar na sua agenda que precisa conversar com aquele fulano. Na sexta-feira, no último minuto do expediente, vai chamá-lo à sua sala, vai falar pacientemente, num tom sereno e firme, que aquele tipo de comportamento não corresponde ao perfil da empresa. Vai explicar que a gerência busca homens com autodomínio, segurança, mas também gentileza, educação e até certo refinamento. Firmeza por dentro e leveza por fora. Ele não deve esquecer: esse é o perfil que a empresa deseja manter no seu quadro de funcionários. E o boçal vai sair da sala atordoado com aquele sermão, mas vai deixar para trás uma mulher satisfeita, com a musculatura do quadril firme, as faces coradas, os lábios levemente contraídos e uma impressão de serena felicidade.


Porém tudo isso seriam apenas primícias para a disciplinada e hierárquica Adriana Milane. O êxtase propriamente dito só viria numa situação extrema. Na semana seguinte, por exemplo, o mesmo funcionário talvez revelasse não ter aprendido a lição. O suculento corretivo emplastaria novos relatórios; uma estagiária repassaria, sem querer, uma piadinha ridícula que recebera, por emeil, do visado fulano de tal. Então Adriana Milane trincaria os dentes e tomaria um fôlego profundo. Sentiria as batidas do coração subindo-lhe até o topo da cabeça. Contaria até dez, rememorando suas aulas de meditação, e hesitaria por alguns segundos antes de se decidir pela demissão. Mas tão logo o decidisse, já começaria a sentir uma agradável sensação de conforto. Sua pressão voltaria ao normal. Um relaxamento vitorioso lhe tomaria os ombros e as costas. Ela deixaria a agência mais leve naquela noite, já programando o espetáculo que encenaria no dia seguinte.


E o dia seguinte, desde o primeiro instante, já seria um dia triunfal. Cada vez que olhasse ou simplesmente lembrasse do néscio do corretivo, ela teria um pequeno arrepio de prazer. No fim da tarde, ligaria para o ramal dele e o intimaria a uma conversa na sala dela. O homem iria tranquilo, antevendo um mero sermão inútil de uma chefe histérica. Mas dessa vez teria uma surpresa.


A gerente olharia para ele com um desprezo calculado, perguntaria num tom baixo e suave:
O que aconteceu com esse emeil? Você não conseguiu se conter?
Passaria para ele uma folha impressa com a piadinha machista. O homem não disfarçaria o susto.
Isso não foi enviado para você!... Quer dizer, para a senhora. Não tem nada a ver com a empresa, mandei só para alguns amigos... não sei como...
Adriana morderia os lábios, seu prazer começaria a chegar num ponto difícil de manter invisível.
Então foi você que o repassou aos colegas? Você confirma essa informação?
Mas quem repassou para a senhora? O sujeito que fez isso não estava bem intencionado, não respeitou minha privacidade, você não vê que é alguém que…
O homem a essa altura já tremeria. Adriana também, mas não por medo ou irritação e sim por um motivo sublime.
Então, senhor Damasceno ela adora usar sobrenomes a situação está suficientemente esclarecida, não acha? O senhor desrespeitou uma norma da empresa, e já tinha sido alertado sobre isso.
Não, mas eu… quer dizer, não tem nada a ver com a empresa, não mandei para ninguém da empresa.
E além de tudo está mentindo. Se não mandou para ninguém da empresa, como o emeil chegou até mim?
E nesse momento ela teria que abaixar a cabeça e fechar os olhos, porque as contrações ficariam mais fortes. O homem começaria a tagarelar. Ela precisaria agir rápido.
Amanhã o senhor pode passar no RH. Se preferir esvaziar sua mesa amanhã, não tem problema nenhum. Não precisa se preocupar com o computador, o técnico vai formatar o HD e deixá-lo pronto para o novo funcionário.
O homem notaria algo diferente na última frase, que sairia trêmula e sibilante.
Vou pedir para o senhor se retirar. Estou sentindo um leve mal estar, preciso ficar sozinha.

Adriana chegaria à porta já ofegando ligeiramente, manteria os olhos baixos quando Damasceno passasse por ela. Não notaria se o homem olhasse com perplexidade para seu pescoço suado; não ligaria a mínima se o boçal estivesse em estado de choque. Assim que ele saísse da sala, ela firmaria as costas na parede, esticaria as pernas e empurraria os pés contra o chão. Sentiria as contrações violentas agindo nas coxas e nos quadris, soltaria o ar em gemidos lentos e abafados, depois morderia os lábios, apoiaria uma mão na maçaneta e suspiraria como quem entra num banho quente. Quando sentisse as virilhas molhadas já estaria soberbamente satisfeita. Pensaria que aquele foi dos grandes e era uma pena não poder repeti-lo com frequência.


Quando entrasse no banheiro, estaria relaxada o bastante para curtir uma mijada lenta e sonora. Depois enxugaria sem remorso o excesso de umidade. Diante do espelho, se recomporia com tranquilidade, sem o menor sentimento de culpa. Os funcionários a essa hora já teriam ido embora, ela poderia voltar para sua sala cantarolando, talvez até se debruçasse na janela e apreciasse por um segundo a paisagem de janelas uniformes em frente a seu andar. Em algum lugar lá em baixo caminharia um homem arrependido de usar corretivo e repassar piadas por emeil. Pensar nisso deixaria Adriana serenamente feliz, sentindo-se como se tivesse cumprido sua missão no mundo. Lamentaria apenas não poder ver a expressão do sujeito, não poder assistir de alguma forma como ele agirá no próximo emprego, se realmente mudará de atitude ou encontrará uma chefe mais piedosa, complacente com sua rudeza e descortesia. O mundo está cheio de gente complacente, por isso tudo anda tão sujo e mal acabado.


E quando volta para sua realidade, Adriana sente certa umidade delatora nas virilhas. Agora precisa realmente ir ao banheiro, mas o banheiro da pequena imobiliária onde trabalha é minúsculo e abafado. O papel higiênico é áspero e o vaso recende a urina masculina. Nesse cubículo humilhante, ela se recompõe com dificuldade e quase sente vergonha de ter se masturbado no trabalho. No ônibus para casa, ela pensa em ligar para Nelinho e marcar alguma coisa para o fim de semana. Nelinho é estúpido o bastante para cair novamente na sua armadilha. Em casa, depois de um banho quente, ela pega a revista de decoração e olha mais uma vez sua luminária preferida. Faz mentalmente as contas. Mais três meses e ela poderá comprá-la. Três meses não é muito. Ela tem paciência, perseverança e disciplina. Ela sabe que pode esperar. Esperar é tudo que ela sabe fazer.

terça-feira, 15 de outubro de 2013

Dia dos professores


O mundo é contra a inteligência e a favor da tradição. Ninguém representa isso melhor que os professores. Pergunte a um professor de matemática para que serve um determinante de matriz e ele não vai saber responder; no entanto ele passa a vida lecionando isso. Pergunte a um professor de português por que uma palavra não pode começar com cê cedilha e ele não vai saber responder; no entanto ele ganha a vida repetindo isso. Os professores são contra a inteligência e a favor da repressão, da manipulação, da uniformização, da ação sem compreensão, da autoridade irracional, da repetição inútil, do adestramento mental. Os professores tornam o mundo pior. O avanço da ciência e da cultura é feito por indivíduos fazendo suas próprias experiências, errando, tentando de novo, aprendendo e comunicando seus acertos. Os professores são meros papagaios repetindo coisas que eles mesmos não compreendem. No dia do professor, desejo que os professores levem muita porrada ou sofram coisa pior. Essa profissão está em vias de extinção e já vai tarde.