O garçom que acaba de trazer a conta não é garçom. O taxista que me leva ao hotel não é taxista. O gerente que dá instruções a uma estagiária morena de cabelos longos nunca deve ter lido um livro sobre hotelaria. Na Cidade dos Atores todos são atores representando seus papéis. Estudaram e ensaiaram seus gestos, suas palavras, o sotaque, a surpresa ou a indiferença que revelam no olhar e no tom de voz. Muitos passaram anos na escola de arte dramática, debruçaram sua juventude sobre Shakespeare e Nélson Rodrigues. Alguns fizeram cursos mais rápidos, com ex-diretores ou atores famosos, mas esses cursos foram devidamente avaliados e certificados pela Secretaria de Cultura. Os intuitivos e autodidatas não são tolerados na cidade. Há profissionais estrangeiros, mas eles estudaram em seus países de origem e sabem imitar perfeitamente o sotaque local. Se alguém aparenta ser um americano ou um chinês, só pode ser um ator nacional desempenhando meticulosamente seu papel. Os atores estrangeiros não costumam representar estrangeiros; isso não seria nenhum desafio, nenhuma conquista excepcional.
Claro que há turistas, a cidade não sobreviveria sem eles. Mas há também atores representando turistas, para tornar a experiência do turismo mais saborosa e completa. Um dia passei quase uma hora assistindo uma velhinha a tomar seu chá, num café decorativo, próximo ao centro histórico. A interpretação não foi menos que magistral. Enquanto lia o cardápio, a atriz encenou a serenidade ancestral das velhinhas, encarnou uma lentidão despreocupada, sustentou uma elegância suave, casual. Com a chegada do cheesecake, assumiu certa voracidade, porém matizada com um prazer requintado junto com breves alusões a uma angústia sutilíssima. Na sequencia retomou a serenidade, mas agora com uma energia e uma concentração realisticamente hipnóticos, culminando numa surpresa vigorosa, quando reclamou da demora da conta. O garçom atuou adequadamente, desculpando-se de forma sumária, fingindo não ver que eu, duas mesas atrás, de câmera ligada, vivia a euforia silenciosa de um espectador feliz. Só no dia seguinte percebi que o vídeo não havia registrado nem de longe a vitalidade irrepetível daquele momento. Lamentei inutilmente; precisei de outras experiências para me conformar. A magia misteriosa da atuação parece não admitir o automatismo das câmeras. O gesto mais vibrante, o olhar mais preciso, indubitável, repetidos em vídeo, parecem fingidos, forçados, artificiais.
Faz anos que passo as férias na Cidade dos Atores, e minhas expectativas nunca foram frustradas. Um homem que barganha o preço das frutas com um camelô, meninas voltando da praia, balançando distraidamente os quadris, o motorista indignado que vocifera com o motoqueiro transgressor, tudo é feito com absoluta precisão e domínio. Um gesto atravessado, um mínimo exagero vocal deitaria a cena a perder, furtaria o prazer do espectador, perder-se-ia num caos tumultuoso de frases exclamativas e banais.
Por isso suponho que haja uma fiscalização severa; os atores incompetentes são rapidamente demitidos, talvez exilados. A Cidade não pode admitir o erro, o acaso, a intromissão perniciosa da realidade. Imagino galpões impenetráveis, nos subúrbios, onde os textos são ensaiados, repetidos, repassados ao limite exaustivo da perfeição. Os profissionais devem dormir muito pouco, e passar as folgas numa cidade vizinha, onde talvez sejam reconhecidos, porém tratados como homens normais, que precisam comer, descansar, esquecer, não como atores que atuam que estão comendo, descansando, esquecendo.
Certa vez fingi uma doença para assistir uma peça num hospital público. Me deliciei com as faces resignadas, o terror no rosto dos familiares, a impassibilidade altiva dos profissionais uniformizados. Naquele dia fui, muito brevemente, para justificar a cena do médico, um ator diletante e canastra. Aludi a uma vaga dor de coluna, tirei a camisa, deixei-me auscultar, medicar, aconselhar, apenas para me deleitar com um olhar de enfado, uma voz monótona, uma gesticulação frouxa, histrionicamente indiferente. Em busca de prazeres semelhantes, fui um passageiro de ônibus, um comprador de legumes, um homem comum, num bar, tentando esquecer sua solidão intragável. A bebida intensificou minha sensibilidade para a beleza de um momento programado e executado por mentes humanas. O garçom fingiu um vago interesse pelas minhas dores. O homem ao lado me contou um caso que seria mais pungente, mais dramático e cabal. Algumas mesas atrás um casal discutia furiosamente a intromissões frequente da sogra. Tencionei beber até a inconsciência, para ver como me tratariam no bar, se me levariam para o hotel, o que restaria da minha carteira, da minha dignidade. Meu estômago simplesmente me obrigou a desistir da ideia. O que fiz foi chegar cansado no quarto, imaginando como a atriz que representasse uma garota de programa teria fingido o orgasmo: o tom agudo dos seus gemidos, a pressão das pálpebras, a contração decidida das sobrancelhas. Farto de especular, deixei o espetáculo para outro dia.
Quando volto para minha cidade natal a vida me parece deformada e sem sentido. Já não faço mais que trabalhar e juntar dinheiro para as férias. Descobri que algumas pessoas da minha cidade, e até do meu bairro, também já visitaram a Cidade dos Atores. Devem saber mais ou menos o que sinto quando estou por lá. Claro, que nunca quis conversar com elas. Diriam que a cidade é maravilhosa, intensa, sobre-humana, ou seja, nenhuma novidade. E, se por acaso não tiverem gostado, não tiverem sabido apreciar o prazer de viver cercado pela encenação e pelo fingimento, eu não toleraria ouvir sua opinião, assim como nenhum homem deste mundo tolera ouvir um juízo negativo sobre o mar ou o pôr do sol.
Possuído por tais pensamentos, não seria natural que eu desejasse e pelo menos tentasse viver permanentemente na Cidade dos Atores? Essa ideia me ocorreu há alguns anos, perturbou meu trabalho e reduziu minhas horas de sono. Fui tantas vezes um turista no meio de profissionais. Não seria hora de ser um ator representando um turista? Esperei o tempo necessário, contando os dias e meses. Nas férias seguintes, voltei à cidade com um plano ousado, ambiciosamente teatral. Não fui para o hotel modesto, no centro, onde eu costumava me hospedar. Parti para um cinco estrelas, próximo a um monumento histórico, quatro vezes mais caro. Ao dar entrada, perguntei pelo menu do café da manhã; fingi certa perplexidade por não terem figos. O atendente, o ator, garantiu que tomariam providencias. No dia seguinte, encontrei os figos na mesa, mas não deixei que minhas pálpebras movessem um milímetro de surpresa. Acompanhei-os de queijo, caputino, broa de fubá. Mastigando a esponja adocicada, emiti uma aprovação gutural, fingi um prazer sublime. Só então me ocorreu que eu tinha espectadores. Nas mesas ao lado, os homens me observavam com uma atenção excitada, olhos fixos; eram turistas em busca do seu espetáculo. Nesse momento senti que eu havia exagerado. Os figos não justificavam um prazer tão elevado. Além disso eu havia dado a entender, no dia anterior, que estava acostumado a eles. Meu gemido, portanto, não devia expressar nenhum êxtase, nenhuma satisfação fora do comum. Tive que admitir: minha estréia fora um fracasso.
Voltei para o hotel. Ensaiei várias vezes a compra de um produto eletrônico. Decorei o texto, atuei a surpresa pelo preço, a indignação, a argumentação inútil, a derrota, a resignação, a submissão rancorosa. Quando me senti pronto, parti para a ação. Escolhi uma lojinha pequena, na zona norte, onde eu teria poucos espectadores. Selecionei um produto, espantei-me, questionei o vendedor, debati. Mas uma novidade deitou a perder minhas horas de ensaio. Naquela semana havia uma promoção, um imprevisível desconto de dez por cento. Confuso, tive que improvisar. Não sabia se o desconto deveria me levar ao contentamento, ou se eu deveria insistir, intensificar a revolta, alegando que o paliativo não tirava o preço da sua faixa exorbitante. Optei pela segunda via, mas não consegui expressar a intensidade necessária. A falta de ensaio me traiu. Minha voz saiu chocha, meus argumentos soaram capengas, falsos, teatrais. O balconista percebeu. Os outros consumidores perceberam. Na impossibilidade de pedir-lhes desculpas, apenas comprei o produto, paguei o preço, voltei para o hotel, derrotado. Meu plano naufragava. Talvez eu precisasse de mais observação, mais ensaios, mais tempo na Cidade dos Atores. Mas isso custaria caro. E agora muitos saberiam que eu não era ator. Talvez ninguém prestasse atenção quando eu entrasse num bar ou num cinema. Como última tentativa, desesperada, chamei uma garota de programa, com intenção de fingir absolutamente tudo. Fingir satisfação com seus seios grandes, fingir prazer com o aderente sexo oral, fingir um êxtase profundo com o alívio do orgasmo. Mas a menina quase não tinha seios, o oral foi com camisinha, e o orgasmo foi um alívio fraco e banal como um arroto.
Naquela tarde achei que eu não conseguiria dormir, me condenando e martirizando pelas péssimas atuações. E no entanto, dormi como um menino, talvez por ter compreendido o erro que eu vinha cometendo. Os atores tinham algo que me faltava completamente. Disciplina, dedicação e talvez o tal do talento. Acreditar que eu seria um deles tão facilmente foi uma ingenuidade absurda. No dia seguinte eu estaria livre dessa sina. Tomaria o que servissem à mesa. Perambularia pela cidade, desatento a tudo, pegaria um táxi para qualquer lugar. De noite, daria saída no hotel e voltaria para a minha cidade banal. Mas no ônibus de volta, ou talvez ainda na rodoviária, eu perceberia um homem feliz. Um homem que tentou ser outro, e agora sabe quem é. Um homem que se equivocou, quase usurpou, sem querer, um cargo legítimo, e agora reconhece seu lugar na plateia; sem ilusões, sem ressentimento.
Ronaldo Brito Roque
segunda-feira, 20 de fevereiro de 2017
quinta-feira, 26 de maio de 2016
Flanando por entre automóveis
Estou usando uma nova técnica com meu filho. Falo o tempo todo no irmão dele, fico repetindo que ele é bem sucedido, que tem um emprego legal, já está economizando para comprar um carro e essa coisa toda. Meu filho vai ter que entender, ele precisa arranjar um emprego, precisa largar essa obsessão pela música.
Semana
passada ele entrou aqui carregando o violão. Eu perguntei onde ele
estava.
– Tocando
com os amigos.
– Ah,
é? Tocando com os amigos? Escuta: seu irmão te falou o lance
maneiro lá na empresa dele?
– Que
lance?
– Lá
tem um prédio só de estacionamento. Ninguém deixa o carro na rua.
A empresa tem estacionamento para os funcionários.
– Ah,
legal.
– Calma,
cara! Ainda não falei tudo. O prédio tem elevador, elevador para
carro! Ninguém fica manobrando naquelas rampinhas insuportáveis.
Você entra no elevador e chega no seu andar. Ponto final.
– Nossa,
deve ser muito legal.
– Claro
que é legal, rapaz. Só é. Se liga. Elevador para carro!
Ele
não demonstrou, mas sei que ele ficou impressionado. Tenho certeza
que ele vai acabar entendendo, só preciso continuar falando no
irmão, insistir nessa tecla. Outro dia eu desliguei a televisão e
ele sentou aqui um minuto. Já notei que ele não gosta de televisão.
Aproveitei para falar mais uma vez no emprego do Marcelo.
– Seu
irmão te falou o lance lá da empresa?
– Que
lance?
– O
ônibus pega todo mundo em casa. Ele não fica esperando ônibus,
cara. A empresa tem seu próprio ônibus.
– Então
para quê o estacionamento?
– Como
assim, para quê o estacionamento? Mas você não entende nada,
mesmo, hem! Seu irmão vai comprar um carro e vai usar o
estacionamento. Ele já fez uma poupança. Está econimizando para a
entrada.
– Ah,
tá.
– Não
é “tá”, não, rapaz. É muito mais que isso: o ônibus tem ar
condicionado! E a empresa também. A empresa tem ar condicionado
central, ninguém fica nesse calor insuportável!
– Não
precisa gritar, eu acredito.
– Mas
não é para acreditar, garoto. Você tem é que entender. Você
também tem capacidade para arranjar um emprego desses. Basta se
empenhar, correr atrás!
– Mas
eu já tenho emprego. Eu não toquei lá no Suruba's?
– Ah,
meu filho, olha só como você fala. Toquei lá no Suruba's! Até
parece que isso é um emprego de verdade. Toquei lá no Suruba's!
Pelo amor de deus, vê se cresce.
– Tá,
pai, já entendi. Agora eu tenho que ir. Tenho uma reunião com o
pessoal.
– Pensa
no ônibus, meu filho. Tem ar condicionado!
Coitado
do meu filho. Ele se encontra com os amigos para falar de música e
diz que tem uma reunião. Acho que a cabeça dele não está muito
legal. O problema é que uma terapia deve custar uma fortuna. Não
tem outro jeito, preciso continuar com a minha técnica. Uma hora ele
vai entender. E quando o Marcelo estiver por aqui, vou falar com
ele: “Dá um toque no seu irmão, cara. O moleque precisa acordar,
precisa largar esse violão.” O Marcelo vai me ajudar, tudo vai se
resolver, eu tenho certeza.
Ainda
bem que eu tenho o Marcelo. Ele me dá alegrias que compensam as
loucuras do caçula. Quando ele deu entrada no carro, a mãe dele
ficou tão feliz que nem conseguia falar. Ele passou aqui, levou a
gente para uma volta. Eu ficava passando a mão no carro, sentindo
aquela sensação gostosa de coisa nova, de coisa que saiu da
fábrica. Lembrei do meu velho Monza e bateu uma saudade danada. Hoje
não tenho mais carro, mas não ligo para isso. A única coisa de que
eu preciso nessa vida é ver o meu caçula num bom emprego. Não
tenho mais ambição, só quero o bem dos meninos.
Não
falei nada para o Marcelo, mas enquanto eu passava a mão no carro,
sentindo aquele brilho, aquela textura refrescante, fiquei
mentalizando que o Vanesso também vai se arranjar, vai comprar um
bom carro, alugar uma quitinete bacana, mais perto da cidade. Ele não
é burro, só precisa se dedicar. Minha mulher me abraçou: – Você
está pensativo, meu bem. O que foi? – É só felicidade, meu amor.
Só felicidade. Olha esse estofamento, essa porta-luva de duas abas,
que coisa linda!
– Você
viu o som, pai? É para pendraive! Você coloca o pendraive aqui, ó!
Você coloca assim, ó!
– Eu
sei, meu filho, eu sei. Não sou tão velho, sei o que é um
pendraive.
Aquele
foi o meu grande momento. Estive no paraíso por alguns minutos.
Infelizmente voltei para casa, e lá estava o Vanesso, com aquele
aparelhinho no ouvido.
– Onde
você estava, meu filho?
– Dando
uma volta.
– Dando
uma volta? Por que você não estava aqui, para ver o carro do seu
irmão? O som tem pendraive, você poderia colocar essas músicas do
seu aparelhinho.
– Você
deve estar querendo dizer que o som lê pendraive.
– Lê
pendraive, tem pendraive, que diferença isso faz! O importante é
ter um carro daquele. Você já é um adulto, devia saber disso.
– Ah,
tá, desculpa.
Agora
ele pegou essa mania de pedir desculpa. Eu odeio quando ele faz isso,
me dá vontade de descer a mão na cara dele. Liguei a televisão bem
alto, para ele sair da sala. Isso nunca falha. Ele subiu para o
quarto e ficou na dele. Não sei mais o que fazer. Acho que está até
batendo uma depressão. Quando eu chego em casa e não vejo meu
filho, sei que ele está com aquela molecada, brincando de ser
músico. Depois ele chega, se tranca no quarto e fica a noite inteira
ouvindo aquele aparelhinho insuportável. Não sei como ele aguenta.
Acho
que estou chegando no meu limite. Talvez eu é que esteja precisando
de terapia, mas deve custar os olhos da cara. Não posso gastar
dinheiro com essa frescura, tenho que me segurar. Por isso resolvi
ligar para o Marcelo, para bater um papo, descontrair, falar do carro
novo. Mas eu senti que ele estava esquisito, desconversando, meio
desanimado.
– O
que foi meu filho? Você está estranho.
– Não
é nada, pai.
– Desembucha,
rapaz. Eu sou seu pai, você pode contar comigo para qualquer coisa.
– Pô,
pai, sabe o que é? Eles cobram para a gente estacionar o carro lá
na empresa. Só descobri essa semana.
– O
que é isso, meu filho? O que você está falando? Isso não faz
sentido!
– Pois
é, pai. Eu também fiquei chocado. Só gerente pode estacionar de
graça. Empregado tem que pagar.
– Mas
não pode ser. Isso é sacanagem demais!
– Só
é. Por isso eu estou meio chateado, acho que vou voltar a ir de
ônibus. No fim das contas não compensa estacionar o carro lá.
– Não,
meu filho. Não fala isso. Agora você tem o seu carro. Você tem que
ir de carro.
– É,
não sei... Ainda não sei o que vou fazer, vamos ver como fica no
fim do mês. Ainda estou pagando as prestações do carro, né. E o
estacionamento é caro para diabo.
– Meu
deus, que cretinice! Não acredito que o dono da empresa faz isso com
os empregados.
– Pois
é... O carro cabe direitinho dentro do elevador, você tem que ver, pai.
Eu queria até levar você lá. Mas fica tão caro.
– Ah,
meu filho. Não fala assim. As coisas vão melhorar, você vai chegar
a gerente, eu tenho certeza.
– É
pai, eu sei, eu sei. Deixa para lá. Outro dia a gente conversa mais.
– Amanhã
eu te ligo, meu filho. Não fica triste, não. Isso vai mudar, eu
tenho certeza.
Quando
desliguei estava quase infartando. Aquilo era canalhice demais!
Cobrar estacionamento dos próprios empregados? Que tipo de empresa
faz uma sacanagem dessas! Deve haver algum tipo de lei contra isso,
não é possível. Sentei no sofá, senti meu coração vibrando como
um tarol, minhas mãos tremendo. Minha mulher entrou na sala de
repente.
– Você
vai assim mesmo, amor?
– O
quê?
– O
chou do Vanesso, você não lembra? O Vanesso vai tocar com a banda
no bar Penicão.
– Vanesso?
Ah, meu deus, eu tinha esquecido completamente.
– Põe
uma calça pelo menos. Você está com essa bermuda o dia inteiro.
– Tá,
vou me trocar, pode deixar.
Vesti
a calça, e saímos. Eu tinha esquecido completamente desse chou –
que não era chou coisa nenhuma, era só o Vanesso tocando com
aquela molecada. Mas pelo menos eu ia me distrair, esquecer um pouco
a tremenda sacanagem que fizeram com o Marcelo. Não dava nem para
acreditar, cobrar estacionamento dos próprios empregados! Devia
haver alguma lei contra isso. Se eu tivesse ao menos coragem de
conversar com um advogado, tenho certeza que eu descobriria alguma
coisa. Mas eu não tinha coragem de conversar com advogado, nem o
Marcelo teria coragem de acionar a empresa, então era melhor
esquecer.
Sentei
com minha mulher e pedi logo uma caipirinha. O Vanesso acenou para a
gente, começou a tocar um sambinha. Minha mulher falou o de sempre:
não vai beber muito, não sei o quê. É por isso que eu não gosto
de sair com minha mulher, ela fala sempre as mesmas coisas, já sei
até as frases que ela vai usar. Pedi mais uma para ver se eu
esquecia minha mulher também. Fui bebendo e sentindo aquele
relaxamento gostoso, aquela soltura. Comecei a ouvir a música como
se ela fosse uma coisa muito minha, como se já estivesse dentro de
mim e nem precisasse de ouvido para chegar na minha cabeça. De
repente escutei aquelas frases:
Flanando
por entre automóveis
da
garagem vertical.
Curtindo
a brisa suave
do
ar condicionado central,
Lá
vai meu irmão,
lá
vai meu herói.
Lá
vai meu irmão,
fenomenal.
O
que era aquilo? Eu nunca tinha ouvido aquela música. Só podia ser
coisa do Vanesso! Mas a loucura toda é que, de alguma forma, a
música era minha também. Era sobre o Marcelo, meu filho preferido,
meu herói. Aquilo era muito meu! Fechei os olhos e cantei
naturalmente, como se eu soubesse a letra de cor; como se eu nunca
tivesse ouvido outra coisa na vida.
Lá
vai meu irmão,
lá
vai meu herói.
Lá
vai meu irmão,
fenomenal.
Quando
reabri os olhos, minha mulher estava batendo palmas, toda
entusiasmada. – Você já conhecia? Já conhecia e não me falou
nada! Como você conseguiu guardar segredo?
Claro
que eu não conhecia coisa nenhuma. Mas senti que meus olhos estavam
molhados. Eu estava chorando, nem sei se de tristeza ou de alegria.
E, para falar a verdade, não quis saber. Cerrei os olhos e
continuei cantando.
Lá
vai meu irmão,
lá
vai meu herói.
Lá
vai meu irmão,
fenomenal.
domingo, 1 de dezembro de 2013
Prazeres secretos de Adriana Milane
Adriana cultiva pequenos prazeres que ela não conta nem para as melhores amigas. Por exemplo, marcar encontros e não comparecer. Marcou com Nelinho quarta-feira passada. Os dois iam tomar uma cerveja num bar de esquina, em frente à praça Velha Montenegro. No telefone, Adriana comentou que o bar estava de cara nova, haviam mudado a decoração, colocaram um piso diferente, de cerâmica portuguesa, e essas mesinhas de pedra polida, que ela nunca sabe se é mármore ou granito. Nelinho parecia empolgado:
― Então está marcado. Sete e meia. Não vai esquecer, hem, princesa!
― Claro que não.
― Sei que você sempre atrasa uns dez minutinhos.
― Que é isso! Não atraso, não, de jeito nenhum!
― Não tem erro. Já estou acostumado.
― Tudo bem, talvez eu atrase uns cinco minutos. Mas eu chego, pode me esperar.
― Então tá, meu anjo. Te espero lá.
― Beijo, gracinha.
Na quarta à noite Adriana se deitou na cama e ficou pensando numa luminária sofisticada que vira numa revista de decoração. Três lâmpadas envoltas em vidro escovado, unidas por uma armação metálica orgânica e tortuosa. Um objeto que parecia uma fusão perfeita de planejamento humano com as imprevisíveis e caprichosas leis do acaso. Quando notou que já eram sete e meia, ela foi sentindo aquele calorzinho gostoso, aquela comichão suave na altura das pernas. Nelinho devia estar saindo do táxi, entrando no bar, escolhendo uma mesa num cantinho mais escuro. Às sete e quarenta ele devia estar pedindo uma água mineral, segurando-se para não mandar uma mensagem para o celular dela. Sete e quarenta e cinco, chegou a mensagem, e Adriana estava de olhos fechados, alisando a parte interna das coxas. Adivinhava que Nelinho estaria pensando avidamente nela, verificando o celular a cada quinze segundos, ansioso pelo momento em que ela entraria no bar e olharia ao redor, procurando por ele. Sete e cinquenta chegou a segunda mensagem, e o travesseiro já tinha ido para o meio das pernas. Adriana sabia que o homem estaria considerando pedir a conta e jurando para si mesmo nunca mais marcar nada com aquela vadia. Mas ela ainda acreditava numa terceira mensagem, implorando disfarçadamente, falando algo como "hoje não deu, mas talvez na sexta" ou "vou ficar até tarde na Lapa, se der, passa lá". E de fato a terceira mensagem chegou alguns minutos mais tarde, quando Adriana já estava suada, revirando os olhos, ofegante como uma jogadora de tênis. Estava se tornando um vício. Quase toda semana, era pelo menos um encontro que ela frustrava por mero prazer.
Outra coisa que sempre a diverte é pedir pequenos favores aos colegas de trabalho. Todo dia, antes de sair da agência, ela guarda o corretivo num dos armários do corredor, para garantir o prazer de pedir, no dia seguinte, que algum colega o pegue para ela. Quando um desavisado entra na sua sala, e pergunta se ela já preencheu alguma planilha idiota, ou puxa assunto sobre a última bobagem do ator do momento, Adriana responde no piloto automático, depois acrescenta, displicentemente:
― Vem cá, já que você está mais perto do corredor, pega o corretivo para mim.
― Claro, é para já ― diz o desavisado, sem saber que, assim que ele virar as costas, ela vai fechar os olhos, morder de leve o lábio inferior e sentir um arrepio gostoso lhe subindo pela espinha.
Claro que ela nunca usa o corretivo, que é coisa de gente preguiçosa e nojenta. Quando tiver sua própria empresa, não hesitará em demitir todos os funcionários que usarem aquela meleca fedida. Está se deliciando com esse pensamento quando o néscio volta com o vidrinho na mão, feliz como um cachorrinho de madame. Ela agradece sem tirar os olhos dos papéis sobre a mesa, e espera que ele saia da sala para voltar a suas fantasias.
Adriana ainda não sabe se quer ter seu próprio negócio ou ser gerente de uma empresa maior. Mas tem certeza que deseja o poder de demitir. Quando ela for chefe de departamento, e um funcionário fizer uma besteira qualquer, como usar o corretivo ou repassar piadinhas machistas para os emeils dos colegas, Adriana vai anotar na sua agenda que precisa conversar com aquele fulano. Na sexta-feira, no último minuto do expediente, vai chamá-lo à sua sala, vai falar pacientemente, num tom sereno e firme, que aquele tipo de comportamento não corresponde ao perfil da empresa. Vai explicar que a gerência busca homens com autodomínio, segurança, mas também gentileza, educação e até certo refinamento. Firmeza por dentro e leveza por fora. Ele não deve esquecer: esse é o perfil que a empresa deseja manter no seu quadro de funcionários. E o boçal vai sair da sala atordoado com aquele sermão, mas vai deixar para trás uma mulher satisfeita, com a musculatura do quadril firme, as faces coradas, os lábios levemente contraídos e uma impressão de serena felicidade.
Porém tudo isso seriam apenas primícias para a disciplinada e hierárquica Adriana Milane. O êxtase propriamente dito só viria numa situação extrema. Na semana seguinte, por exemplo, o mesmo funcionário talvez revelasse não ter aprendido a lição. O suculento corretivo emplastaria novos relatórios; uma estagiária repassaria, sem querer, uma piadinha ridícula que recebera, por emeil, do visado fulano de tal. Então Adriana Milane trincaria os dentes e tomaria um fôlego profundo. Sentiria as batidas do coração subindo-lhe até o topo da cabeça. Contaria até dez, rememorando suas aulas de meditação, e hesitaria por alguns segundos antes de se decidir pela demissão. Mas tão logo o decidisse, já começaria a sentir uma agradável sensação de conforto. Sua pressão voltaria ao normal. Um relaxamento vitorioso lhe tomaria os ombros e as costas. Ela deixaria a agência mais leve naquela noite, já programando o espetáculo que encenaria no dia seguinte.
E o dia seguinte, desde o primeiro instante, já seria um dia triunfal. Cada vez que olhasse ou simplesmente lembrasse do néscio do corretivo, ela teria um pequeno arrepio de prazer. No fim da tarde, ligaria para o ramal dele e o intimaria a uma conversa na sala dela. O homem iria tranquilo, antevendo um mero sermão inútil de uma chefe histérica. Mas dessa vez teria uma surpresa.
A gerente olharia para ele com um desprezo calculado, perguntaria num tom baixo e suave:
― O que aconteceu com esse emeil? Você não conseguiu se conter?
Passaria para ele uma folha impressa com a piadinha machista. O homem não disfarçaria o susto.
― Isso não foi enviado para você!... Quer dizer, para a senhora. Não tem nada a ver com a empresa, mandei só para alguns amigos... não sei como...
Adriana morderia os lábios, seu prazer começaria a chegar num ponto difícil de manter invisível.
― Então foi você que o repassou aos colegas? Você confirma essa informação?
― Mas quem repassou para a senhora? O sujeito que fez isso não estava bem intencionado, não respeitou minha privacidade, você não vê que é alguém que…
O homem a essa altura já tremeria. Adriana também, mas não por medo ou irritação e sim por um motivo sublime.
― Então, senhor Damasceno ― ela adora usar sobrenomes ― a situação está suficientemente esclarecida, não acha? O senhor desrespeitou uma norma da empresa, e já tinha sido alertado sobre isso.
― Não, mas eu… quer dizer, não tem nada a ver com a empresa, não mandei para ninguém da empresa.
― E além de tudo está mentindo. Se não mandou para ninguém da empresa, como o emeil chegou até mim?
E nesse momento ela teria que abaixar a cabeça e fechar os olhos, porque as contrações ficariam mais fortes. O homem começaria a tagarelar. Ela precisaria agir rápido.
― Amanhã o senhor pode passar no RH. Se preferir esvaziar sua mesa amanhã, não tem problema nenhum. Não precisa se preocupar com o computador, o técnico vai formatar o HD e deixá-lo pronto para o novo funcionário.
O homem notaria algo diferente na última frase, que sairia trêmula e sibilante.
― Vou pedir para o senhor se retirar. Estou sentindo um leve mal estar, preciso ficar sozinha.
Adriana chegaria à porta já ofegando ligeiramente, manteria os olhos baixos quando Damasceno passasse por ela. Não notaria se o homem olhasse com perplexidade para seu pescoço suado; não ligaria a mínima se o boçal estivesse em estado de choque. Assim que ele saísse da sala, ela firmaria as costas na parede, esticaria as pernas e empurraria os pés contra o chão. Sentiria as contrações violentas agindo nas coxas e nos quadris, soltaria o ar em gemidos lentos e abafados, depois morderia os lábios, apoiaria uma mão na maçaneta e suspiraria como quem entra num banho quente. Quando sentisse as virilhas molhadas já estaria soberbamente satisfeita. Pensaria que aquele foi dos grandes e era uma pena não poder repeti-lo com frequência.
Quando entrasse no banheiro, estaria relaxada o bastante para curtir uma mijada lenta e sonora. Depois enxugaria sem remorso o excesso de umidade. Diante do espelho, se recomporia com tranquilidade, sem o menor sentimento de culpa. Os funcionários a essa hora já teriam ido embora, ela poderia voltar para sua sala cantarolando, talvez até se debruçasse na janela e apreciasse por um segundo a paisagem de janelas uniformes em frente a seu andar. Em algum lugar lá em baixo caminharia um homem arrependido de usar corretivo e repassar piadas por emeil. Pensar nisso deixaria Adriana serenamente feliz, sentindo-se como se tivesse cumprido sua missão no mundo. Lamentaria apenas não poder ver a expressão do sujeito, não poder assistir de alguma forma como ele agirá no próximo emprego, se realmente mudará de atitude ou encontrará uma chefe mais piedosa, complacente com sua rudeza e descortesia. O mundo está cheio de gente complacente, por isso tudo anda tão sujo e mal acabado.
E quando volta para sua realidade, Adriana sente certa umidade delatora nas virilhas. Agora precisa realmente ir ao banheiro, mas o banheiro da pequena imobiliária onde trabalha é minúsculo e abafado. O papel higiênico é áspero e o vaso recende a urina masculina. Nesse cubículo humilhante, ela se recompõe com dificuldade e quase sente vergonha de ter se masturbado no trabalho. No ônibus para casa, ela pensa em ligar para Nelinho e marcar alguma coisa para o fim de semana. Nelinho é estúpido o bastante para cair novamente na sua armadilha. Em casa, depois de um banho quente, ela pega a revista de decoração e olha mais uma vez sua luminária preferida. Faz mentalmente as contas. Mais três meses e ela poderá comprá-la. Três meses não é muito. Ela tem paciência, perseverança e disciplina. Ela sabe que pode esperar. Esperar é tudo que ela sabe fazer.
quarta-feira, 5 de dezembro de 2012
Sala Privê
Conheci
Luciana numa reunião do Clube da Leitura, que é um clube onde as
pessoas lêem trechos de livros e comentam sobre o que gostaram ou
não gostaram. Na verdade acontece mais coisa, mas eu nunca entendi
direito, então é melhor nem tentar explicar. Faz tempo que parei de
frequentar, primeiro porque não gosto de ler, e segundo, e mais
definitivo, porque lá só dava coroa. Luciana era uma exceção, com
seu vestido preto, seu decote autoafirmativo e sua maquiagem
vulgar, avacalhada pelo verão do Rio. No dia que nos conhecemos ela tinha ganhado o premiozinho
da noite e não me deu muita atenção. Algumas semanas depois,
justamente quando eu estava percebendo que aquilo não era lugar para
mim, ela veio falar comigo.
― Gostei
do trecho que você leu.
Eu
tinha lido o trecho de um livro que peguei lá em casa, acho que era
da minha mãe.
― Legal,
né. Olha, eu estou só dando um tempo aqui, depois eu vou para a
Homens de Terno. Você está a fim de ir? Meu carro está ali na
Hilário de Gouveia.
― Homens
de Terno, o que é isso?
― É
essa boate nova que abriu aqui em Copa. Tá bombando, tá todo mundo
indo para lá.
― Homens
de Terno? Não, acho que eu não conheço, não... Mas olha, eu tenho
estágio amanhã, então fica para outro dia, tá. Você vem sempre
aqui, a gente vai acabar se encontrando.
Preferi
não dizer que eu não voltaria mais ao clube. Peguei o carro e fui para
a Homens de Terno. Lá tem um lance legal, você escolhe algumas
músicas numa tela, e o sistema vai tocando automaticamente as mais pedidas. As que eu escolhi nunca foram tocadas, mas
claro que eu não ligo. Eu gosto mesmo é de tecnologia. Sou
webdesigner e estou pensando em fazer um curso de programação.
Fiquei
por ali, dançando e bebericando minha caipvódica. De repente quem
eu vejo na pista? Era a Luciana, achei que ela parecia mais
alta, mas era ela mesmo.
― Ué,
você falou que não vinha.
― Olha
que louco. Uma amiga me ligou, perguntei onde ela estava, e ela falou
que estava aqui. Achei uma súper coincidência.
― E
cadê sua amiga?
― Ela
já foi.
― Ah,
tá.
Fiquei
dançando um pouco, depois fui comprar um Red Bull. Quando voltei
para a pista, eu já estava um pouco alto e fui me aproximando da
Luciana e dançando com os braços meio abertos. Ela deve ter achado
que eu queria abraçá-la, e me abraçou, e a gente ficou dançando
agarradinho, até nossas bocas se encontrarem meio sem querer ou por
querer ou por nada. Ela não era assim aquela gata, mas tinha um
corpo legal e beijava gostoso. Passamos um tempo nos beijando e
dividindo o Red Bull, depois ela falou que queria uma água e a gente
foi para uma mesinha. Eu notei que ela estava sem sutiã, e uma
mulher sem sutiã me dá uma aflição que eu não sei explicar.
Esperei ela acabar a água, e falei:
― Olha
só, tem umas salas privês aqui, só que a consumação é mais cara.
― Eu
não ligo para sala privê. Você liga para sala privê?
― Pois
é, eu prefiro a sala privê, a gente fica mais à vontade, tem ar
condicionado... Olha só, se eu pagar a consumação, você acha que
dá para rolar um sexo legal?
― O
quê?! Você tá doidão, cara? O quê que você tomou?
― Tomei
só o Red Bull mesmo. Estou perguntando para evitar mal entendido.
Não quero pagar a sala privê para a gente ficar só beijando.
― Quê
é isso, cara?! Você é louco? Isso não é jeito de falar com
mulher, não. Se você está acostumado a falar assim, você deve
estar andando com gente muito vulgar.
― Desculpe,
eu queria falar antes, para não ter mal entendido. Ia ser muito
chato se a gente entrasse lá na privê e você não quisesse
transar.
― Pô,
cara, não é que eu não queira ir para a privê, mas desse jeito
que você falou, sinceramente, isso brocha qualquer uma.
― Tudo
bem, tudo bem. Não precisa ficar nervosa. Eu só queria perguntar
antes para evitar mal entendido...
― Sei...
Você é muito sinistro, viu.
― É...
Eu sou meio sinistro...
Ficou
aquele clima estranho. Eu não sabia o que dizer, e estava louco para
ir para a sala privê. Deixei passar um tempo, e falei:
― Olha,
a gente pode se ver outro dia. Deixa seu telefone comigo.
― É,
acho que vai ter que ser outro dia mesmo. Hoje foi estranho, né.
― É,
pois é...
― Vem
cá, me fala só uma coisa. Você já falou assim com outra mulher?
― Já,
já falei, sim.
― E
deu certo?
― Não
é uma questão de dar certo. Ela também queria ir para a sala
privê.
― Meu
Deus, mas você não entende, né! Não é que eu não quisesse ir,
mas desse jeito que você falou, simplesmente não dá, cara. Não é
assim que se fala com uma mulher.
― Eu
sei, você já falou isso... Mas eu sou assim mesmo, gosto de deixar
as coisas bem claras. É o meu jeito, sei lá. Mas olha, agora eu vou
lá para a privê, tá. Outro dia a gente conversa. Me fala seu
telefone aí, qualquer dia eu te ligo.
Ela
falou o telefone e eu salvei por puro reflexo. Não estava pensando
em vê-la de novo. Quando entrei na privê, senti aquela sensação
gostosa, aquele conforto, aquela tranquilidade. Tinha ar
condicionado, tinha um sofazão, o vidro fumê dava para a pista.
Fiquei um tempo curtindo aquele clima gostoso, depois liguei para o
Minuto (o nome do cara é esse mesmo, Minuto).
― Fala aí,
Minuto! Beleza?... A Bárbara está por aí?
― A
Bárbara não está aqui em baixo, não. Deve estar atendendo alguém.
― Tem
alguma peituda, aí?
― Tem
uma charmosona aqui, que chegou há pouco tempo do Espírito Santo.
Quando
o Minuto fala “charmosona” é porque a mulher é meio coroa. Não
curto coroa, falei com ele para me ligar se chegasse alguma garota
mais nova.
Passou
um tempo, o Minuto me ligou.
― Chegou
uma menina aqui.
― É
branca? Cabelo liso?
― Sim,
é branquinha, cabelo liso. Duzentos reais.
― Fala
com ela para subir.
A
garota valia até mais que duzentos. Era novinha, tinha um corpaço.
O foda é que tinha aquele sotaque carregado do interior de Minas.
Odeio esse sotaque. Faz a mulher parecer uma empregadinha. Mas a vida
é assim mesmo, não se pode querer tudo na mesma noite, na mesma
mulher.
Apesar
de novinha, a garota era experiente e conduziu muito bem a situação.
Me relaxou de várias formas. Depois me bateu uma fome danada e eu
pedi um chisbúrguer com batata. Quando vi que ela ficou de bobeira,
fazendo hora ali na sala, disse que estava esperando um amigo e pedi
que ela se retirasse. Se eu não fizesse isso, ela ia avançar na
minha batata. Eu conheço bem essas meninas, sei o que estou fazendo.
Comi meu chisbúrguer numa boa, depois fiquei de bobeira, simplesmente
ouvindo música e me sentindo feliz. Não sei se é assim com todo
mundo, mas depois do sexo eu sinto uma coisa tão boa que só pode
ser felicidade. Depois fui para casa dormir com a minha felicidade.
Algumas
semanas depois, eu estava sozinho, e resolvi voltar no Clube da
Leitura. Não gosto muito daquele lugar, mas, como não consigo ficar
em casa, acabo indo para qualquer lugar onde tem alguma coisa
acontecendo. Peguei um livro da minha mãe, e fui.
Assim
que cheguei, vi a Luciana. Achei que ela nem ia me cumprimentar. Mas
ela veio falar comigo.
― E
aí, tudo bem? Como é que foi aquele dia lá na boate? Você
encontrou alguém que queria ir para a privê?
― Encontrei,
sim. Chamei uma garota de programa.
― Ah,
chamou uma garota de programa?! Então você é um homem moderno,
século XXI?
― É,
acho que eu sou, sim.
Alguém
chamou a atenção da gente. Estávamos atrapalhando o evento.
Ficamos quietos, aguardando nossa vez. Depois abri o livro em
qualquer página e li um trecho lá. No fim do evento todo mundo
votou no meu trecho, e fiquei em dúvida se devia ficar contente ou
envergonhado. Mas resolvi ficar contente.
Quando
tudo acabou, a Luciana veio falar comigo.
― Legal
esse livro. É da Anaïs Nin, né.
― É...
― Vem
cá, você vai para a Homens de Terno hoje?
― Posso
ir.
― Você
me leva?
― Levo,
sim. Tudo bem.
Quando
entrou no carro, ela ficou folheando o livro, depois falou: ―
Parece que é muito maneiro esse livro. Você me empresta?
― O
livro é da minha mãe, não posso emprestar, não.
― Ah,
tá... Tudo bem... Eu vou anotar o nome, depois eu tento baixar na
internet...
Chegamos
na Homens de Terno e ficamos dançando assim de bobeira, sem muita
vontade. Acho que ela estava chateada comigo, porque no outro dia eu
a tinha deixado sozinha. Mas o que eu podia fazer? Eu estava muito a
fim de transar. Se a gente fosse para a privê, e ela não transasse,
eu ia ficar muito puto. E de repente, quem eu vejo na pista? Leandra,
aquela loira catarinense inacreditável! Ela estava com uma blusa
rendada, transparente, chamando bastante atenção. Se eu não agisse
rápido, ia perder a oportunidade. Cheguei nela já falando: ― E
aí, Leandra, você está linda!
― E
aí, gatinho. Tudo bem?
― Vamos
subir para a privê?
― A
gente pode ir, mas hoje eu estou cobrando trezentos, tá.
― Pô,
trezentos, Leandra? Por que é que aumentou assim, de repente?
― A
cidade está com pouco movimento, sei lá. Não está dando para
pagar as contas.
― Tudo
bem, eu entendo. Eu tenho aqui, não tem problema.
Ela
abriu um sorrisão para mim, depois me deu um selinho. Meu Deus, não
tem nada melhor que uma mulher como a Leandra! O homem que inventou a
garota de programa fez um bem tremendo para a humanidade. É um dos
meus heróis, sem dúvida.
Mas
a Luciana estava ali do meu lado, e ela ficou me olhando com uma cara
súper amarrada. Fiquei meio sem graça, e resolvi apresentar as
duas.
― Olha
só, Luciana. Essa aqui é a minha amiga, Leandra.
A
Leandra estava de salto e chortinho de látex. Ela tinha cabelos
pintados, quase amarelos, e seios do tamanho de bolas de vôlei.
Estava meio na cara que ela era garota de programa. A Luciana ficou
meio confusa, não sabia o que dizer.
― Prazer...
Eu conheço o Rodrigo lá do Clube da Leitura.
― Eu
conheço ele daqui mesmo... ― Ela riu, com uma cara maliciosa. ―
Ele não sai daqui.
― Exagero
dela, Luciana. Eu venho no máximo duas vezes por mês. Também não
sou nenhum Eike Batista, né.
Rimos
um pouco, falamos algumas trivialidades, depois subi com a Leandra
para a sala privê. Ela estava maravilhosa. Já temos alguma
intimidade. Ela é como uma velha amiga para mim, mas não perdemos muito tempo conversando.
Mais
uma vez, encontrei aquela felicidade serena e ao mesmo tempo
vibrante. Depois me deu um pouco de fome e fui para o bar, comer
alguma coisa. Assim que pedi uma batata, quem apareceu? A Luciana.
― Ué,
pensei que você já tinha ido.
― Resolvi
ficar um pouco.
Me
dei mal. Quando a batata chegou, ela meteu a mão. É por isso que eu
não gosto de comer perto de mulher. Elas se sentem no direito de
comer o que é seu.
Passou
um tempo, falei: ― Tô indo. Ela me segurou pelo braço: ― Deixa
eu te perguntar só uma coisa. ― Fala, o que é: ― É que... essa
Leandra... Quer dizer, foi com ela que você subiu para a privê, não
foi? ― Foi ela mesmo. ― E ela... quer dizer, quanto ela cobra
para ficar lá com você? ― Duzentos. ― Nossa, duzentos reais?!
Duzentos reais para ficar uma hora na privê? ― Não sei se foi uma
hora, você marcou? ― É... Marquei... só de curiosidade. ― Pois
é, então é isso. Duzentos reais, uma hora. Agora eu preciso ir,
estou morrendo de sono. ― Você vai voltar no Clube da Leitura? ―
Não sei. ― Vai, sim, pô. Aparece lá. ― Tá, eu vou. Tchau.
Passaram
algumas semanas, lá estava eu no Clube da Leitura, de novo me
perguntando que diabo eu ia fazer naquele lugar. A Luciana viu que eu
estava com o mesmo livro, e perguntou: ― Anaïs Nin, de novo? Eu
nem sabia que o autor daquele livro se chamava Anaïs Nin. Os outros
livros que tinha lá em casa eram sobre dietas ou sobre os não sei
quantos passos das pessoas de sucesso. Aquele era simplesmente o
único que eu podia levar.
Chegou
minha hora, li qualquer trecho lá. Eles gostaram, até bateram
palmas. A Luciana me perguntou: ― Quando é que você vai me
emprestar?
― Você
não conseguiu baixar pela internet?
― Por
que você não baixa para mim? Você tem cara de ser meio hacker.
Ah,
meu Deus, mulher é um saco. Dei um tempo e saí de fininho e nem
falei para a Luciana que eu estava indo para a Homens de Terno.
Fiquei com medo de ela pedir carona e ficar insistindo para eu
emprestar o livro.
Cheguei
na boate. Não deu cinco minutos e ela estava lá. Ficou falando
besteira, nhém, nhém, nhém, Anaïs Nin, não sei mais o quê. Eu
não aguentava mais, daí falei: ― Você me paga um Red Bull? Ela
falou: ― Tá sem grana? tudo bem, posso pagar. Então resolvi ficar
mais um tempo, porque pelo menos ela estava pagando o Red Bull. Daí
de repente me deu a impressão de que ela estava falando “se eu
fosse cobrar não seria menos de trezentos”, e acho que meu olho
brilhou. Eu pensei: a minha cabeça está latejando ou o quê?
― O
que foi que você falou?!
― Eu
falei: Anais Nin, nhém, nhém, nhém, não sei mais o quê.
― Não!
Sobre os trezentos reais?
― Ué,
se eu fosse cobrar, não seria menos de trezentos. Não sou nenhuma
vagabunda, né. Eu tenho classe.
Olhei
para os peitos dela. Ela estava de sutiã, mas deu para ver que era
um sutiã honesto, sem enchimento. Daí mandei:
― Vamos
subir, eu tenho os trezentos aqui!
― Ah,
você é louco, né. Você era bem capaz de me dar esses trezentos
mesmo.
― Chega
de conversar, vamos para a privê, agora! Falei isso com raiva e
tesão, depois a agarrei e a beijei com força. Quando fomos para a
sala privê, meu coração estava a mil, eu sentia que estava me
acontecendo uma coisa estranha e bonita, uma coisa que não pode
acontecer todo dia. Abaixei o vestido dela, tirei o sutiã e nadei
naqueles seios lindos, porque eu era uma criança feliz, encontrando
uma piscina ou um brinquedo fantástico ou um milagre. Tudo foi quase perfeito, mas teve hora que ela ficou me olhando com uma cara
interrogativa, como se estivesse perguntando: “eu estou fazendo
direito? É assim que as putas fazem?”, mas também podia ser: “você
vai baixar o livro para mim? Você vai contar para alguém do Clube
da Leitura?”
Só que, mesmo
não sendo perfeito, a felicidade do sexo me dominou; fiquei mais
uma vez com a impressão de que a vida valia a pena. O dinheiro, o
sexo, as prostitutas, tudo isso é muito bom, não entendo por que
tem tanta gente que fala mal. Assim que ela se vestiu, eu passei para
ela os trezentos reais. Ela enfiou na bolsa e falou: ― Você sabe
que eu só estou aceitando isso porque é uma fantasia sua, né. Você
sabe que isso não tem nada a ver comigo, é tudo uma loucura que
você criou.
― Eu sei, isso não está acontecendo.
Ela
riu.
― Você
vai ficar mortão aí, não vai descer?
― Vou
ficar mais um tempo aqui, só curtindo o ar condicionado.
― Tá,
você tem meu telefone. Qualquer coisa me liga.
Fiquei
um tempo lá, deitado, só ouvindo a batida que vinha da pista,
pensando em como eu gostava daquele lugar, como eu gostava do meu
dinheiro, das mulheres brancas, dos peitos grandes... ou talvez eu
não estivesse pensando em nada, o que era ainda melhor.
Passou
um tempo e me deu aquela vontade de ir para o Clube da Leitura. Mas
eu queria ser forte, queria não ir. Peguei o telefone e liguei para
a Luciana.
― Eu
estou aqui na Homens de Terno ― ela falou.
― Você
não vai no Clube da Leitura?
― Hoje eu acho que vou ficar por aqui.
Peguei
o carro e fui para a Homens de Terno, feliz por conseguir evitar o
Clube. Cheguei lá, não vi a Luciana, mas não liguei. Pedi uma
caipivódica e fiquei de bobeira. Daí a pouco aparece o Minuto.
― Sabe
quem tá aí?
― A
Suzana?
― Não,
a Bárbara.
― A
Bárbara, que maneiro! Cadê ela?... Ah, tá, já vi, já vi.
Fui
dançando para perto da Bárbara, cumprimentei, perguntei se ela
estava esperando alguém, que é o jeito de perguntar se uma garota
está livre. Graças a Deus, ela não estava esperando ninguém, e
subimos para a privê. Eu não preciso descrever a Bárbara, pense
nas garotas mais bonitas que você já viu. Ela é tipo um resumo
disso, com a diferença de que nela você tem como chegar.
Relaxamos
gostoso, depois ficamos deitados de conchinha, num silêncio quase
íntimo. Ela perguntou: ― Você não sente frio com esse ar
condicionado? Eu falei que não, mas na verdade eu estava com um
pouco de frio, sim. E também estava com fome, e pensei uma coisa bem
óbvia: se eu pedisse comida pelo interfone, a Bárbara ia comer
comigo e não ia pagar. Então me vesti e falei que eu tinha que
voltar para o bar. Quando eu estava saindo da sala, vi uma
coisa que eu não podia acreditar, e um segundo depois eu acreditei e
achei espantosamente natural. A Luciana estava saindo de outra sala
privê e se despedindo de outro cara. Ela me lançou um olhar sério
e profundo, e aquele olhar dizia: não me cumprimente, finja que não
me conhece. Obedeci candidamente, como quem obedece a uma regra que
aprendeu na infância e não lembra que aprendeu. Mas não a perdi de
vista e mais tarde consegui me aproximar.
― Você
foi no Clube da Leitura? ― ela perguntou.
― Não
fui, não.
― Olha
só, eu queria te pedir uma coisa.
― Pode
deixar, eu vou tentar baixar o livro para você.
― Não,
não é isso, não... É que... Não comenta com ninguém, não, tá.
Porque isso é uma coisa temporária, não vou fazer isso por muito
tempo.
― Que
é isso, não vou comentar nada com ninguém. Isso não está
acontecendo, é só uma loucura da minha cabeça.
Ela
riu uma risada gostosa, e ri com ela e acabamos nos abraçando,
deliciosamente. Me deu vontade de falar “eu te levo em casa”,
mas senti que isso estragaria o equilíbrio delicado daquela noite.
Eu precisava voltar sozinho, para pensar devagar e entender o que eu
já sabia. No carro lembrei que, quando nos conhecemos, ela estava
com uma maquiagem exagerada, fazia gestos vulgares, parecia uma
garota de programa. Naquela noite pensei que a diferença entre
minhas amigas e as garotas de programa era apenas o dinheiro dos
pais. Agora eu percebia que essa equação não era tão
simples. Talvez houvesse, em algumas mulheres, uma alma de
prostituta, esperando o momento certo para vir à tona. Eu fui esse
momento para Luciana. O destino me usou para permitir que ela se
revelasse a si mesma, e fizesse uma transição suave, sem traumas. Essa ideia me animou e confortou ao mesmo tempo, talvez
porque no fundo eu ame as garotas de programa. Sem elas eu seria
provavelmente mais um maridinho submisso, pai de dois filhos,
trabalhando incessantemente para sustentá-los. As prostitutas me
libertaram desse destino previsível e banal.
Cheguei
em casa feliz. Minha mãe, mais uma vez, tinha dormido diante da
televisão. Desliguei o aparelho, fui para o quarto, encontrei, na
minha mesa, o livro da Anaïs Nin, que eu nunca tinha lido. Antes
pegar no sono, consegui ler algumas páginas.
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