quarta-feira, 28 de abril de 2021

Lembrança do bairro violento

 

Eu era muito jovem, não lembro com precisão. As imagens apenas resvalam na minha cabeça. Num domingo de tarde, o sol nos fustigava, queríamos fazer alguma coisa, arranhar um carro, bater em algum menino bem vestido, roubar um celular ou um par de tênis. Mas não tinha ninguém na rua, a não ser os adultos, que ficavam em bares e eram bem mais fortes que nós. 

Entramos no quintal de uma casa que parecia abandonada. Pelo tanque, subimos na laje. De lá vimos uma mulher, no quintal vizinho, aguando flores com uma mangueira. Ela estava com a camisa suspensa, presa pelos sovacos. Isso nos dava a impressão de que seus seios eram maiores. Decidimos que aquela seria nossa vítima. Mas logo chegou um cara e começou a conversar com ela. Então decidimos esperar, não queríamos testemunhas. Descemos da laje e fomos dar uma volta pelo bairro. Jogamos pedras num cachorro grande, que latia brutalmente contra uns cachorros menores. Ele fugiu. Nós vencemos. Apareceu um mendigo, mancando de uma perna, usando um pau torto como muleta. Mais chuva de pedras, dessa vez no mendigo. Alguém o acertou na cabeça. Ele caiu, imóvel, provavelmente desmaiado. Mais vivas e glórias! Agora éramos invencíveis, éramos a força inevitável daquele sol massacrante. 

Resolvemos voltar à laje, mas dessa vez não achamos o quintal que nos permitia a entrada. Alguém deve ter simplesmente fechado o portão. Então descobrimos uma dessas grades muradas à meia parede. Subimos no meio-muro, segurando nos ferros, e passamos para um muro mais alto e mais grosso, onde podia-se ficar de pé sem dificuldade. De lá avistamos outro quintal, ou talvez o mesmo, apenas visto de outro lado. A mulher tinha saído. Agora havia uma jovem tomando sol. Ela tinha estendido uma cadeira de praia. Estava de chortinho e sutiã, uma coisa que nos fazia trincar por dentro. Íamos pular no quintal e atacá-la, eu sentia que esse era o pensamento de todos. Mas o cachorro grande voltou com outros cachorros, que latiam e arranhavam o chapisco do muro, nos ameaçando. Nesse momento os bravos mediram sua coragem. Os garotos pularam do muro e enfrentaram os cachorros, chutando seus pescoços, socando suas cabeças, fazendo como podiam. Eu, o covarde, pulei para dentro do quintal. Quando me viu, a garota colocou os braços sobre o sutiã. Eu improvisei: me desculpe. Tenho que passar por aqui, uns cachorros estão atacando meus amigos. Ela disse: quer que eu chame a polícia? Polícia prende cachorro?, eu perguntei, decepcionado com sua ideia. Ela riu, disse para eu esperar e entrou dentro de casa. Depois voltou, com um bustiê em vez do sutiã. Era apenas alguns centímetros maior, mas de fato bem menos erótico. Ela perguntou se eu era filho daquela mulher, dona daquele restaurante. Fiquei lisonjeado em ser confundido com o filho de uma mulher rica. Menti, confirmando o mal entendido. Ela disse: minha mãe fez café agora, vamos entrar. Estou sem camisa, respondi, na minha humildade total. Tudo que eu sabia da vida era que não se entra na casa dos outros sem camisa. Ela disse: o que é isso? Que bobagem, vem logo. Então entrei, mesmo me sentindo em território estranho. A mãe dela apareceu na cena, me deu café, bolo, depois perguntou se os cachorros tinham  me atacaso. Eu disse que não, eu tinha subido no muro para fugir. Meus amigos não foram tão rápidos e acabaram sendo atacados. A mulher falou que esses cachorros estavam um perigo. Era preciso conversar com alguém da prefeitura. Depois perguntou se eu queria que ela ligasse para minha mãe, para ela vir me buscar. Eu disse que não. Se eu saísse pela porta da frente, não passaria pelos cachorros, não havia perigo. Ela disse que tudo bem, e saiu da cozinha. Fiquei olhando para a garota sem saber o que dizer. Isso fazia o café parecer mais quente, e o bolo, mais doce. A garota também não dizia nada. Secretamente, tínhamos vergonha de nossas cabeças vazias. De repente me ocorreu uma ideia, algo que podia ser dito sem medo, pois tinha um fundo de verdade. Se souber que eu lanchei aqui, minha mãe vai querer que você lanche lá em casa também, arrisquei. Tudo bem, ela disse. Você liga para mim, e a minha mãe me leva lá. Vocês moram em cima do restaurante, não é? Minha alegria durou dois segundos. Me dá sua mão, ela falou de repente. Pegou minha mão e anotou uns números na minha palma. Me liga, e eu falo com minha mãe. Ela parecia contente em dizer isso. Era uma atividade complexa. Envolvia telefonemas, deslocamentos, bolos. Uma casa nova para ver, uma coisa para se contar às amigas. Eu disse: tudo bem, agora vou indo. Passei pela sala: tchau, dona. Ela disse: fala para a sua mãe que eu mandei um abraço. 

Quando pisei a calçada olhei para a minha palma com uma tristeza muda e opressiva. O suor já começava a dissolver os números. Não tentei memorizá-los. Não valia o esforço. Em pouco tempo eu estaria na minha casinha de dois cômodos e um banheiro. As paredes sem reboco. O piso sem cerâmica. Um lugar onde eu nunca levaria nem um dos moleques que andava comigo, quanto menos uma garota.

No entanto, quando relembro essa história, não consigo deixar de pensar que o bravo fui eu. Enfrentar uma garota, enfrentar o desconhecido, pelo menos naquele dia, exigia mais coragem.


terça-feira, 31 de março de 2020

A Garota Lésbica



A garota lésbica

Depois que ela foi demitida da prefeitura, continuou a usar a camisa de trabalho, uma blusa branca, com mangas alaranjadas, escrito “Juntos podemos mais”. Sua namorada também usava essa blusa, principalmente quando andavam de moto, o que me dava a impressão de que as duas trabalharam na prefeitura e foram demitidas simplesmente por serem lésbicas; mas isso já é coisa da minha cabeça.


Um dia eu estava na festa de um amigo e ela estava por lá (sem a tal camisa). Fiquei com vontade de perguntar alguma coisa mas não tive coragem. Por fim foi ela quem puxou assunto e perguntou com quê eu trabalhava. Eu disse que era escritor, ela perguntou sobre o que eu escrevia. Inventei que meu último livro era sobre um cara bem apessoado que vivia pedindo dinheiro emprestado a mulheres maduras, solteironas ou divorciadas. Em troca dos empréstimos ele ia com essas mulheres a eventos sociais, casamentos, festas de aniversário, inaugurações de lojas e coisas desse tipo; eventos que as mulheres não gostavam de frequentar sozinhas. Ela me perguntou se ele fazia sexo com elas, eu disse que não. Ela riu e disse que a mãe dela tinha lido esse livro e gostado muito. Falsa, mentirosa, pensei; e acrescentei que um dia talvez eu pudesse conhecer a mãe dela, para conversarmos sobre o livro, sobre canalhas em geral, e darmos algumas risadas. Ela ficou meio sem graça, “Pode ser, por que não?” e foi andando para a cozinha. Depois chegaram o bolo e os docinhos. Só então percebi que eu estava numa festa de aniversário. Cantamos a música, comi alguma coisa que não caiu muito bem com a cerveja, mas deixei rolar. 


Mais tarde me aproximei de um grupo que já estava meio bêbado, e estava falando sobre mulheres. Alguns perderam a noção e falavam de coisas que constrangiam suas esposas. Alguém me perguntou por que minha mulher não estava na festa; eu disse que ela estava com meu filho, que estava meio doente, com febre, tossindo. Uma mulher, que conhecia minha mulher, disse que não sabia que eu tinha filho. É do primeiro casamento, eu falei. Não mora com a gente, vem para cá só de vez em quando. Não entendo por que sempre minto quando estou em público. E quando vejo que falo uma mentira, só consigo reforçá-la, não consigo voltar atrás. Sem a menor dúvida, preciso de um bom psicólogo.


Ouvi mais um pouco das piadas e mentiras dos bonachões, depois comecei a me despedir deles, que também já começavam a se despedir de si mesmos.


Encontrei então a mulher ou garota lésbica. Perguntei se ela queria uma carona para o lado da Vila Miranda. Ela disse que não estava indo para casa, ia ficar num bar no centro, e perguntou se eu podia deixá-la por lá. “Claro, por que não?”, eu disse, descendo atrás dela. E quando chegamos, ela me chamou para entrar um pouquinho, porque ainda estava muito cedo para ir para casa. Eu disse alguma coisa como “só mais uma cerveja”, e notei que as pessoas ficaram nos olhando quando passamos pela porta, provavelmente porque era um bar de lésbicas, e nós éramos, afinal, um homem e uma mulher.  


O segundo andar era bem decorado com dois sofás grandes nas laterais e luminárias antigas que pareciam grandes castiçais. Quem estivesse num dos sofás quase não via o que se passava no outro. Pegamos uma cerveja e sentamos num deles. Ela me contou que seu cachorro poodle, ou yorkshire, estava com câncer. Eu disse que era uma pena e que ela devia estar sofrendo muito. E de repente nos abraçamos e começamos a nos beijar. E beijamos forte, como se estivéssemos a uns seis meses sem contato sexual. De cinco em cinco minutos ela passava a mão no meio das minhas pernas para ver se o tripé estava armado. Eu me perguntava: será que ela quer fazer aqui? O bar estava quase vazio, havia apenas algumas pessoas no sofá da frente e outras debruçadas nas janelas. De repente, sem tirar as botas, e com a maior naturalidade do mundo, ela se ajoelhou em cima de mim, abriu meu zíper e me cobriu com seu vestido. Dali começamos um sobe-desce profundo, transpirante, ritmado. Ela quase não olhou para o meu rosto, nem eu para o dela. Quando terminamos, ela disse: espere aqui, e correu para o banheiro. Enquanto eu abotoava minha calça, vi que algumas pessoas olhavam para mim, mais por curiosidade que por reprovação. Quando ela voltou, segurava uma bolsa que eu nem tinha visto com ela. Tomou mais um trago e disse: acho que vou ter que sacrificá-lo. Não suporto vê-lo sofrer. Percebi que falava do poodle. Dei uma desculpa qualquer, peguei o número dela e disse que precisava ir para casa. Ela me disse: nunca ligue nos fins de semana; depois acrescentou: não me mande mensagens. Era das duronas.


Cheguei em casa, tomei rapidamente um banho e fui me deitar. Cátia já estava de camisola, vendo televisão. Seu cabelo está com um cheiro estranho, ela disse. Respondi que na festa tinha muita gente fumando. E o Nelinho, está bem? Pensei comigo que Nelinho devia ser o aniversariante ou algum amigo mais chegado de Cátia. Está ótimo, garanti. Sempre sorrindo. Que bom, ela disse, já deve ter arranjado outro emprego. E se enroscou em mim, para dormirmos juntinhos, como fazemos no inverno. E eu dormi como uma criança, sem pensar em nada.


Algumas semanas depois encontrei a mulher lésbica na sala de espera de um médico. Ela disse que seu poodle tinha morrido. Quase tive pena.


Ronaldo Brito Roque

quinta-feira, 13 de junho de 2019

Memórias de um cara


(Resenha)


Esse livro é demais. O melhor dos últimos 10 anos. Um forte candidato a clássico da literatura brasileira. O protagonista tem um irmão retardado e vai lentamente aprendendo a amar e a respeitar o irmão, a sentir compaixão, respeito, carinho e até admiração pelo pobre moleque.

Mas isso tudo só no primeiro capítulo! No segundo ele fica doidão, começa a usar drogas, a transar com prostitutas, a roubar dos pais, a malhar em academia, ou seja, tornar-se uma pessoa normal.

Eu gosto particularmente do capítulo em que ele se apaixona por uma garota linda que sonha em ser atriz. A garota deixa claro que não quer nada com ele, mas ele acaba conhecendo a mãe dela, e a mulher é uma coroa carente, desesperada, que está fazendo qualquer coisa por meia dúzia de abraços e um orgasminho básico. Ele fica com a coroa, pensando que agora a garota vai se interessar por ele, só porque ele se tornou amante da sua mãe. É nesse momento que ocorre uma súbita quebra de expectativa. A garota continua a ignorá-lo com tal convicção que chega a contaminar a mãe, e a velha acaba pedindo um tempo.

Ele pensa em se matar, mas faz terapia e descobre que tem um raro distúrbio de personalidade. O problema é que esse distúrbio não dá direito a aposentadoria por invalidez. Então começa sua luta para se adaptar a uma nova vida, conseguir emprego, pagar as contas, chegar no horário, terminar o supletivo.

Mas a vida é dura com o cara. Ele acaba fracassando nas profissões que expressariam sua verdadeira vocação: vocalista de roque, ator de comédia-em-pé, ventríloquo, escritor, professor de semiótica, corretor de imóveis, motorista de carrinho de golfe. Antes dos trinta ele já se considera um fracassado, profetizando o que só seria realidade dez anos depois.

Não vou contar o final, para não estragar a surpresa. Pensando bem, se você leu até aqui, já deve ter deduzido o final. É isso mesmo, ele acaba assassinado pelo irmão. O motivo é claro: ele tratou o irmão como um ser humano, coisa que um retardado não pode suportar.

Não se preocupe em ler o livro. O filme sai no final do ano.

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2017

Cidade dos Atores

O garçom que acaba de trazer a conta não é garçom. O taxista que me leva ao hotel não é taxista. O gerente que dá instruções a uma estagiária morena de cabelos longos nunca deve ter lido um livro sobre hotelaria. Na Cidade dos Atores todos são atores representando seus papéis. Estudaram e ensaiaram seus gestos, suas palavras, o sotaque, a surpresa ou a indiferença que revelam no olhar e no tom de voz. Muitos passaram anos na escola de arte dramática, debruçaram sua juventude sobre Shakespeare e Nélson Rodrigues. Alguns fizeram cursos mais rápidos, com ex-diretores ou atores famosos, mas esses cursos foram devidamente avaliados e certificados pela Secretaria de Cultura. Os intuitivos e autodidatas não são tolerados na cidade. Há profissionais estrangeiros, mas eles estudaram em seus países de origem e sabem imitar perfeitamente o sotaque local. Se alguém aparenta ser um americano ou um chinês, só pode ser um ator nacional desempenhando meticulosamente seu papel. Os atores estrangeiros não costumam representar estrangeiros; isso não seria nenhum desafio, nenhuma conquista excepcional.

Claro que há turistas, a cidade não sobreviveria sem eles. Mas há também atores representando turistas, para tornar a experiência do turismo mais saborosa e completa. Um dia passei quase uma hora assistindo uma velhinha a tomar seu chá, num café decorativo, próximo ao centro histórico. A interpretação não foi menos que magistral. Enquanto lia o cardápio, a atriz encenou a serenidade ancestral das velhinhas, encarnou uma lentidão despreocupada, sustentou uma elegância suave, casual. Com a chegada do cheesecake, assumiu certa voracidade, porém matizada com um prazer requintado junto com breves alusões a uma angústia sutilíssima. Na sequencia retomou a serenidade, mas agora com uma energia e uma concentração realisticamente hipnóticos, culminando numa surpresa vigorosa, quando reclamou da demora da conta. O garçom atuou adequadamente, desculpando-se de forma sumária, fingindo não ver que eu, duas mesas atrás, de câmera ligada, vivia a euforia silenciosa de um espectador feliz. Só no dia seguinte percebi que o vídeo não havia registrado nem de longe a vitalidade irrepetível daquele momento. Lamentei inutilmente; precisei de outras experiências para me conformar. A magia misteriosa da atuação parece não admitir o automatismo das câmeras. O gesto mais vibrante, o olhar mais preciso, indubitável, repetidos em vídeo, parecem fingidos, forçados, artificiais.

Faz anos que passo as férias na Cidade dos Atores, e minhas expectativas nunca foram frustradas. Um homem que barganha o preço das frutas com um camelô, meninas voltando da praia, balançando distraidamente os quadris, o motorista indignado que vocifera com o motoqueiro transgressor, tudo é feito com absoluta precisão e domínio. Um gesto atravessado, um mínimo exagero vocal deitaria a cena a perder, furtaria o prazer do espectador, perder-se-ia num caos tumultuoso de frases exclamativas e banais.

Por isso suponho que haja uma fiscalização severa; os atores incompetentes são rapidamente demitidos, talvez exilados. A Cidade não pode admitir o erro, o acaso, a intromissão perniciosa da realidade. Imagino galpões impenetráveis, nos subúrbios, onde os textos são ensaiados, repetidos, repassados ao limite exaustivo da perfeição. Os profissionais devem dormir muito pouco, e passar as folgas numa cidade vizinha, onde talvez sejam reconhecidos, porém tratados como homens normais, que precisam comer, descansar, esquecer, não como atores que atuam que estão comendo, descansando, esquecendo.

Certa vez fingi uma doença para assistir uma peça num hospital público. Me deliciei com as faces resignadas, o terror no rosto dos familiares, a impassibilidade altiva dos profissionais uniformizados. Naquele dia fui, muito brevemente, para justificar a cena do médico, um ator diletante e canastra. Aludi a uma vaga dor de coluna, tirei a camisa, deixei-me auscultar, medicar, aconselhar, apenas para me deleitar com um olhar de enfado, uma voz monótona, uma gesticulação frouxa, histrionicamente indiferente. Em busca de prazeres semelhantes, fui um passageiro de ônibus, um comprador de legumes, um homem comum, num bar, tentando esquecer sua solidão intragável. A bebida intensificou minha sensibilidade para a beleza de um momento programado e executado por mentes humanas. O garçom fingiu um vago interesse pelas minhas dores. O homem ao lado me contou um caso que seria mais pungente, mais dramático e cabal. Algumas mesas atrás um casal discutia furiosamente a intromissões frequente da sogra. Tencionei beber até a inconsciência, para ver como me tratariam no bar, se me levariam para o hotel, o que restaria da minha carteira, da minha dignidade. Meu estômago simplesmente me obrigou a desistir da ideia. O que fiz foi chegar cansado no quarto, imaginando como a atriz que representasse uma garota de programa teria fingido o orgasmo: o tom agudo dos seus gemidos, a pressão das pálpebras, a contração decidida das sobrancelhas. Farto de especular, deixei o espetáculo para outro dia.

Quando volto para minha cidade natal a vida me parece deformada e sem sentido. Já não faço mais que trabalhar e juntar dinheiro para as férias. Descobri que algumas pessoas da minha cidade, e até do meu bairro, também já visitaram a Cidade dos Atores. Devem saber mais ou menos o que sinto quando estou por lá. Claro, que nunca quis conversar com elas. Diriam que a cidade é maravilhosa, intensa, sobre-humana, ou seja, nenhuma novidade. E, se por acaso não tiverem gostado, não tiverem sabido apreciar o prazer de viver cercado pela encenação e pelo fingimento, eu não toleraria ouvir sua opinião, assim como nenhum homem deste mundo tolera ouvir um juízo negativo sobre o mar ou o pôr do sol.

Possuído por tais pensamentos, não seria natural que eu desejasse e pelo menos tentasse viver permanentemente na Cidade dos Atores? Essa ideia me ocorreu há alguns anos, perturbou meu trabalho e reduziu minhas horas de sono. Fui tantas vezes um turista no meio de profissionais. Não seria hora de ser um ator representando um turista? Esperei o tempo necessário, contando os dias e meses. Nas férias seguintes, voltei à cidade com um plano ousado, ambiciosamente teatral. Não fui para o hotel modesto, no centro, onde eu costumava me hospedar. Parti para um cinco estrelas, próximo a um monumento histórico, quatro vezes mais caro. Ao dar entrada, perguntei pelo menu do café da manhã; fingi certa perplexidade por não terem figos. O atendente, o ator, garantiu que tomariam providencias. No dia seguinte, encontrei os figos na mesa, mas não deixei que minhas pálpebras movessem um milímetro de surpresa. Acompanhei-os de queijo, caputino, broa de fubá. Mastigando a esponja adocicada, emiti uma aprovação gutural, fingi um prazer sublime. Só então me ocorreu que eu tinha espectadores. Nas mesas ao lado, os homens me observavam com uma atenção excitada, olhos fixos; eram turistas em busca do seu espetáculo. Nesse momento senti que eu havia exagerado. Os figos não justificavam um prazer tão elevado. Além disso eu havia dado a entender, no dia anterior, que estava acostumado a eles. Meu gemido, portanto, não devia expressar nenhum êxtase, nenhuma satisfação fora do comum. Tive que admitir: minha estréia fora um fracasso.

Voltei para o hotel. Ensaiei várias vezes a compra de um produto eletrônico. Decorei o texto, atuei a surpresa pelo preço, a indignação, a argumentação inútil, a derrota, a resignação, a submissão rancorosa. Quando me senti pronto, parti para a ação. Escolhi uma lojinha pequena, na zona norte, onde eu teria poucos espectadores. Selecionei um produto, espantei-me, questionei o vendedor, debati. Mas uma novidade deitou a perder minhas horas de ensaio. Naquela semana havia uma promoção, um imprevisível desconto de dez por cento. Confuso, tive que improvisar. Não sabia se o desconto deveria me levar ao contentamento, ou se eu deveria insistir, intensificar a revolta, alegando que o paliativo não tirava o preço da sua faixa exorbitante. Optei pela segunda via, mas não consegui expressar a intensidade necessária. A falta de ensaio me traiu. Minha voz saiu chocha, meus argumentos soaram capengas, falsos, teatrais. O balconista percebeu. Os outros consumidores perceberam. Na impossibilidade de pedir-lhes desculpas, apenas comprei o produto, paguei o preço, voltei para o hotel, derrotado. Meu plano naufragava. Talvez eu precisasse de mais observação, mais ensaios, mais tempo na Cidade dos Atores. Mas isso custaria caro. E agora muitos saberiam que eu não era ator. Talvez ninguém prestasse atenção quando eu entrasse num bar ou num cinema. Como última tentativa, desesperada, chamei uma garota de programa, com intenção de fingir absolutamente tudo. Fingir satisfação com seus seios grandes, fingir prazer com o aderente sexo oral, fingir um êxtase profundo com o alívio do orgasmo. Mas a menina quase não tinha seios, o oral foi com camisinha, e o orgasmo foi um alívio fraco e banal como um arroto.

Naquela tarde achei que eu não conseguiria dormir, me condenando e martirizando pelas péssimas atuações. E no entanto, dormi como um menino, talvez por ter compreendido o erro que eu vinha cometendo. Os atores tinham algo que me faltava completamente. Disciplina, dedicação e talvez o tal do talento. Acreditar que eu seria um deles tão facilmente foi uma ingenuidade absurda. No dia seguinte eu estaria livre dessa sina. Tomaria o que servissem à mesa. Perambularia pela cidade, desatento a tudo, pegaria um táxi para qualquer lugar. De noite, daria saída no hotel e voltaria para a minha cidade banal. Mas no ônibus de volta, ou talvez ainda na rodoviária, eu perceberia um homem feliz. Um homem que tentou ser outro, e agora sabe quem é. Um homem que se equivocou, quase usurpou, sem querer, um cargo legítimo, e agora reconhece seu lugar na plateia; sem ilusões, sem ressentimento.


Ronaldo Brito Roque