quarta-feira, 28 de abril de 2021

Revoluções de Marte


Os primeiros homens que chegaram em Marte tinham extrema facilidade para cortar e levantar rocha. Afinal estavam numa gravidade três vezes menor que a da Terra. Tudo para eles era muito mais leve, e suas ferramentas eram bastante eficientes.

Eles fizeram casas enormes, com tetos robustos que os protegiam da radiação solar. Usaram canhões de microondas para descongelar a água e fizeram enormes lagos de água salgada. Desses lagos, destilavam água com bastante facilidade. Não é difícil destilar água onde as temperaturas já são naturalmente elevadas. Nas horas vagas, fizeram imensos auditórios de rocha, porque achavam que os próximos humanos, quando chegassem, contariam histórias de como a humanidade foi para Marte, qual a tecnologia usada, o que aconteceu com a Terra, etc.

Os filhos deles, acostumados desde crianças com a gravidade de Marte, já não conseguiam levantar e cortar grandes massas de rocha. Fizeram casas com a chamada argila marciana, um tipo de solo mais mole e menos denso, que necessitava de aglutinante para ficar de pé. Essas casas eram menores, menos imponentes e menos seguras. Eles não sabiam direito por que tinham nascido em Marte. Lá pelos trinta anos perceberam que nunca seriam grandes e fortes como seus pais. Começaram a ficar revoltados.

Descobriram formas de acessar satélites da Terra, e durante algum tempo a grande novidade foi ver vídeos de pessoas fazendo coisas simples, como cozinhar, brincar com gatos, ir à praia, nadar. Isso gerou mais revolta nos jovens, que começaram a se organizar e a exigir que fossem levados à Terra, para conhecer seu planeta de origem, brincar com gatos, ir à praia, andar de bicicleta, enfim, fazer tudo que os terráqueos faziam.

Os mais velhos primeiro tentaram explicar que eles não poderiam viver na Terra. Seus corações não suportariam tanto exercício, tanto movimento, tanto peso. E seus pulmões não suportariam a pressão atmosférica da Terra, dez vezes maior que a de Marte. (Eles estavam acostumados a respirar por meio de aparelhos, que não exigiam nenhum esforço da musculatura do tórax.)

As explicações serviram para gerar mais revolta. Houve um assassinato, seguido de prisão, seguido de mais assassinatos. Os velhos então mudaram de estratégia. Usaram filmes de ficção científica para demonstrar que a Terra tinha sido destruída por guerras e explosões nucleares. A única solução agora seria começar do zero, em Marte. Começar uma nova civilização, uma nova cultura, uma nova ordem social. Alguns acreditaram nos velhos e foram fazendo o que eles mandavam. Outros queriam construir naves, para ir à Terra e ver tudo com seus próprios olhos; tocar com suas próprias mãos, arriscar a vida para descobrir o que realmente tinha acontecido.

Um dos comandantes da missão marciana, um homem já com seus oitenta e nove anos, teve um plano para eliminar os revoltados. Ia construir uma nave imensa, embarcar os dissidentes e dizer que os estava mandando para a Terra, quando na verdade a nave estaria programada para levá-los para o Cinturão de Asteróides. Sem saber da verdade, os próprios revoltados trabalharam na construção da nave. Mas uma mulher do grupo dos velhos, uma senhora de 95 anos, se apiedou dos jovens e vazou informação sobre o destino verdadeiro da nave. Houve novos episódios de revolta, novos assassinatos e novas prisões.

Por fim decidiu-se que a melhor solução seria mandar os revoltados realmente para a Terra. Eles não se adaptariam, viveriam em hospitais e logo morreriam, mas o que se podia fazer, se eles não aceitavam mais viver em Marte? Morreriam na Terra, mas pelo menos deixariam os outros marcianos em paz.

Voltaram à construção da nave, agora com propósitos consoantes. Mas nesse meio tempo os velhos começaram a morrer e não repassaram as informações sobre como terminar a nave, e menos ainda sobre como navegá-la. Os jovens solicitaram essas informações da Terra, mas a Terra não os queria de volta. O que fazer com um bando de fracotes que mal conseguiria levantar uma furadeira? Um bando de baixinhos raquíticos, com data marcada para morrer. Além disso, eles seriam uma verdadeira peste intelectual, porque espalhariam a ideia de que a vida em Marte não valia a pena, contariam que Marte era apenas um deserto sufocante e inútil, e isso seria uma grande perturbação nos planos para construir mineradoras em Marte.

Os jovens marcianos não tiveram outra alternativa senão continuar em Marte, recebendo da Terra apenas alimento e oxigênio, nenhuma informação relevante e sobretudo nenhuma gota de combustível para naves. Tiveram filhos e, cuidando de seus filhos, sossegaram um pouco. Foram cumprindo mais ou menos as instruções que vinham da Terra. Trabalharam em grandes plantas para mineração. Ensinaram seus filhos a ler, a escrever, a destilar água, a calcular uma cúpula, a procurar minas de ferro, cobre, etc.

Os mais velhos, a essa altura, já tinham quase todos morrido. A segunda geração de nascidos em Marte começou a entrar na adolescência e a perguntar sobre sua origem. Os pais, com vergonha de seus sucessivos fracassos para voltar à Terra, com vergonha de suas revoluções frustradas, diziam apenas que eles descendiam de gigantes que eram muito mais fortes, muito mais poderosos e tinham uma tecnologia muito mais avançada que a deles. Gigantes que tinham vindo de outro planeta. Um planeta mágico, onde havia plantas, animais, frutas; onde a água caía do céu.

Os jovens cresceram acreditando nisso, mas seus filhos já duvidavam dessas histórias e achavam que tudo não passava de mitologia. Alguns, no entanto, eram imaginativos e construíram vastas obras teóricas descrevendo como deveria ser o planeta de seus ancestrais. Essas obras confusas eram feitas com base em filmes que vinham da Terra, mas como não conheciam a Terra, os teóricos misturavam informações de filmes de entretenimento com documentários sobre a Amazônia, sobre o uso de drogas, sobre o feminismo, sobre a indústria alimentícia, e no fim tudo continuava parecendo mitologia, fantasia, estupefação. Ninguém tinha uma ideia precisa sobre nada.

Nessa época muita coisa mudou. Robôs da Terra foram enviados para construir as grandes redomas de cristal de alumínio, que protegeriam o solo da radiação. Assim, os marcianos receberam material para começar sua própria agricultura. Obviamente ficaram fascinados com as plantas, esqueceram as revoltas de seus pais, plantaram batata, café, trigo, frutas. Fizeram bolos, pães, sucos, lasanhas, e fartaram-se. Experimentaram um prazer sobrenatural. Ficaram ainda mais impressionados com os terráqueos. Um povo que desenvolvia esse tipo de biotecnologia era mesmo superior em inteligência, destreza e sensibilidade. Não seria estranho pensar que os terráqueos eram deuses. Em honra a tais deuses começaram a fazer grandes festivais que coincidiam com as colheitas. Compunham frases ritmadas que pareciam música, depois cantavam, banqueteavam e faziam amor.

Desses massivos festivais vieram novos filhos, e os filhos aprendiam basicamente a ler, escrever, praticar agricultura e minerar o solo. Para aprender a ler, liam as tais obras teóricas sobre a Terra, obras que não distinguiam fantasia da realidade. Imaginavam a Terra como um local cheio de elefantes, gorilas, cangurus, tucanos, mas também com grandes cidades, automóveis, aviões, festivais de música, pessoas dançando, pessoas usando drogas e mulheres tendo orgasmos. Eles quase não notaram quando os grandes carregamentos de alimentos e utensílios da Terra começaram a escassear. Notaram, depois, quando todo tipo de transmissão de dados que vinha da Terra subitamente cessou. Mas, a essa altura, já não se importaram. Tinham construído sua própria civilização. Sabiam plantar, construir casas, sabiam criar codornas, destilar água e acrescentar a ela os sais necessários à vida. Sabiam minerar o solo e construir os equipamentos eletrônicos mais elementares. Sabiam fazer baterias para seus grandes carros elétricos, que eram lentos como bicicletas, mas eles não sabiam que carros deviam ser mais rápidos que bicicletas, assim como não sabiam que codornas eram menores que galinhas.

Nos auditórios que um dia foram construídos para se falar sobre o Planeta Terra e os motivos da viagem a Marte, agora havia grandes palestras sobre os deuses do passado. Deuses que criaram os marcianos, lhes ensinaram as primeiras palavras, lhes ensinaram álgebra, trigonometria, engenharia elétrica, depois voltaram para seu lugar de origem, que eles sabiam ser apenas um pontinho do céu. Um pontinho que ficava mais brilhante em certos meses do ano. Um pontinho tão distante que era preciso ser um deus para ir até lá. Um pontinho tão fantástico, tão variado, tão vivo, que poderia até ser mentira, e os grandes livros que se escreveram sobre ele poderiam ser apenas grandes mitologias do passado.

Alguns marcianos acreditavam que era para lá que se ia depois da morte. Outros garantiam que depois da morte não havia nada, e que os livros intermináveis sobre o passado eram apenas fantasias tolas de marcianos primitivos, entediados pelo deserto, esperançosos de um mundo mais interessante, mais agitado e colorido.

Quem está com a verdade simplesmente não há como saber.


terça-feira, 31 de março de 2020

A Garota Lésbica



A garota lésbica

Depois que ela foi demitida da prefeitura, continuou a usar a camisa de trabalho, uma blusa branca, com mangas alaranjadas, escrito “Juntos podemos mais”. Sua namorada também usava essa blusa, principalmente quando andavam de moto, o que me dava a impressão de que as duas trabalharam na prefeitura e foram demitidas simplesmente por serem lésbicas; mas isso já é coisa da minha cabeça.


Um dia eu estava na festa de um amigo e ela estava por lá (com outra camisa). Fiquei com vontade de perguntar alguma coisa mas não tive coragem. Por fim foi ela quem puxou assunto e perguntou com quê eu trabalhava. Eu disse que era escritor, ela perguntou sobre o que eu escrevia. Inventei que meu último livro era sobre um cara bem apessoado que vivia pedindo dinheiro emprestado a mulheres maduras, solteironas ou divorciadas. Em troca dos empréstimos ele ia com essas mulheres a eventos sociais, casamentos, festas de aniversário, inaugurações de lojas e coisas desse tipo; eventos que as mulheres não gostavam de frequentar sozinhas. Ela me perguntou se ele fazia sexo com elas, eu disse que não. Ela riu e disse que a mãe dela tinha lido esse livro e gostado muito. Falsa, mentirosa, pensei; e acrescentei que um dia talvez eu pudesse conhecer a mãe dela, para conversarmos sobre o livro, sobre canalhas em geral, e darmos algumas risadas. Ela ficou meio sem graça, “Pode ser, por que não?” e foi andando para a cozinha. Depois chegaram o bolo e os docinhos. Só então percebi que eu estava numa festa de aniversário. Cantamos a música, comi alguma coisa que não caiu muito bem com a cerveja, mas deixei rolar. 


Mais tarde me aproximei de um grupo que já estava meio bêbado, e estava falando sobre mulheres. Alguns perderam a noção e falavam de coisas que constrangiam suas esposas. Alguém me perguntou por que minha mulher não estava na festa; eu disse que ela estava com meu filho, que estava meio doente, com febre, tossindo. Uma mulher, que conhecia minha mulher, disse que não sabia que eu tinha filho. É do primeiro casamento, eu falei. Não mora com a gente, vem para cá só de vez em quando. Não entendo por que sempre minto quando estou em público. E quando vejo que falo uma mentira, só consigo reforçá-la, não consigo voltar atrás. Sem a menor dúvida, preciso de um bom psicólogo.


Ouvi mais um pouco das piadas e mentiras dos bonachões, depois comecei a me despedir deles, que também já começavam a se despedir de si mesmos.


Encontrei então a mulher ou garota lésbica. Perguntei se ela queria uma carona para o lado da Vila Miranda. Ela disse que não estava indo para casa, ia ficar num bar no centro, e perguntou se eu podia deixá-la por lá. “Claro, por que não?”, eu disse, descendo atrás dela. E quando chegamos, ela me chamou para entrar por uns minutos. Estava muito cedo para ir para casa. Eu disse alguma coisa como “só mais uma cerveja”, e notei que as pessoas ficaram nos olhando quando passamos pela porta, provavelmente porque era um bar de lésbicas, e nós éramos, afinal, um homem e uma mulher.  


O segundo andar era bem decorado com dois sofás grandes nas laterais e luminárias antigas que pareciam grandes castiçais de cabeça para baixo. Quem estivesse num dos sofás quase não via o que se passava no outro. Pegamos uma cerveja e sentamos num deles. Ela me contou que seu cachorro poodle, ou yorkshire, estava com câncer. Eu disse que era uma pena e que ela devia estar sofrendo muito. E de repente nos abraçamos e começamos a nos beijar. E beijamos forte, como se estivéssemos a uns seis meses sem contato sexual. De cinco em cinco minutos ela passava a mão no meio das minhas pernas para ver se o tripé estava armado. Eu me perguntava: será que ela quer fazer aqui? O bar estava quase vazio, havia apenas algumas pessoas no sofá da frente e outras debruçadas nas janelas. De repente, sem tirar as botas, e com a maior naturalidade do mundo, ela se ajoelhou em cima de mim, abriu meu zíper e me cobriu com seu vestido. Dali começamos um sobe-desce profundo, transpirante, ritmado. Ela quase não olhou para o meu rosto, nem eu para o dela. Quando terminamos, ela disse: espere aqui, e correu para o banheiro. Enquanto eu abotoava minha calça, vi que algumas pessoas olhavam para mim, mais por curiosidade que por reprovação. Quando ela voltou, segurava uma bolsa que eu nem tinha visto com ela. Tomou mais um trago e disse: acho que vou ter que sacrificá-lo. Não suporto vê-lo sofrer. Percebi que falava do poodle. Dei uma desculpa qualquer, peguei o número dela e disse que precisava ir para casa. Ela me disse: nunca ligue nos fins de semana; depois acrescentou: não me mande mensagens. Era das duronas.


Cheguei em casa, tomei rapidamente um banho e fui me deitar. Cátia já estava de camisola, vendo televisão. Seu cabelo está com um cheiro estranho, ela disse. Respondi que na festa tinha muita gente fumando. E o Nelinho, está bem? Pensei comigo que Nelinho devia ser o aniversariante ou algum amigo mais chegado de Cátia. Está ótimo, garanti. Sempre sorrindo. Que bom, ela disse, já deve ter arranjado outro emprego. E se enroscou em mim, para dormirmos juntinhos, como fazemos no inverno. E eu dormi como uma criança, sem pensar em nada.


Algumas semanas depois encontrei a mulher lésbica na sala de espera de um médico. Ela disse que seu poodle tinha morrido. Quase tive pena.


Ronaldo Brito Roque

quinta-feira, 13 de junho de 2019

Súper Poderes


Não gosto de festa, mas aceito algum convite quando estou súper cansado de ficar em casa. De vez em quando vale a pena conversar um pouco, ver alguém vomitar, invejar os garotos que já têm namorada ou pelo menos arranjaram alguma menina para beijar. Não levo jeito com as meninas, sou muito tímido, só sei conversar sobre filmes e livros e não tenho carro de papai para levá-las em casa. E claro que não posso falar sobre certas coisas. Não estou a fim de ser internado e passar a vida entupido de comprimidos. Se não me taxassem de louco, diriam que sou um ridículo tentando chamar atenção. Para as garotas, daria na mesma.

Às vezes eu queria usar minha invisibilidade para ficar quieto num canto, só observando a galera e rindo das abobrinhas que eles falam. Mas todo mundo ia dizer que eu saí sem me despedir, desapareci sem mais nem menos, possivelmente porque bebi demais, vomitei ou tive uma diarréia. Surgiriam os boatos mais improváveis. Eu sofreria pelo menos uma semana de comentários negativos. Seria o sumidão, o antissocial, o foge-de-festa ou outro nome idiota.

Uma vez pensei em fazer uma pequena demonstração dos meus poderes, levantando alguns objetos, depois falar que aquilo era um truque que aprendi no YouTube. Mas seria muito arriscado. Nas outras festas todo mundo ia pedir para eu repetir aquele truque, e me chamariam para mais festas, de parentes distantes, de amigos de parentes, de colegas do cursinho de inglês, talvez chegassem a me oferecer dinheiro para animar aniversário de criança. E me cobririam de perguntas e implorariam pela revelação do truque, de modo que cedo ou tarde eu acabaria explodindo e gritando para todo mundo que não havia truque nenhum, eu simplesmente tinha o súper poder da telecinese. Isso me levaria a uma cadeia de eventos inevitáveis. 1. Todos me taxariam de louco. 2. Minha mãe acreditaria em todos. 3. Minha mãe providenciaria minha internação. Por isso preciso me segurar. Sei que não posso usar meus súper poderes em público. E enquanto estive pensando nessas coisas, parece que puxaram assunto comigo e não respondi, e agora todos estão rindo e apontando para mim. Entre cochichos e olhares enviesados, percebo que colaram alguma coisa nas minhas costas, consigo alcançar a folha e me deparo com a frase: "Não sou desse planeta".

A raiva chega a me dar azia. Luto contra a vontade de usar a força do pensamento para explodir as cabeças deles. Ou poderia simplesmente me concentrar no mais forte e jogá-lo na parede. Ele cairia no chão com algumas costelas quebradas, os outros não ousariam me enfrentar. Mas consigo me conter. Encosto num canto e rio falsamente, fingindo me divertir. Me ocorre uma ideia que pode funcionar: explodir a lâmpada da copa, apenas para desviar a atenção de cima de mim. Ninguém sairia machucado, e o incidente me tiraria do centro da zombaria. Mas a mãe ou tia de alguém saiu da cozinha e vem pela copa anunciando umas empadinhas. Não quero machucar uma inocente, e além disso estou com fome. Desisto da pequena explosão e mastigo, resignado, algumas empadinhas, que ficam até gostosas com um pouco de Fanta morna. Uma das tias diz que em breve trará o bolo, e só então me dou conta de que é aniversário de alguém. Mas eu não trouxe presente, nem refrigerante, nem faço ideia de quem devo felicitar. Claro que esse detalhe não me preocupa, pois posso ler as mentes dos convidados e descobrir facilmente quem é o homenageado da noite. E como sou meio canalha, começo pela loirinha que até agora não vi beijando ninguém. Respiro fundo, fecho os olhos, e penso que, além do aniversariante, posso escanear alguma coisa que facilite uma aproximação com ela. Estou a ponto de visualizar a cara do sujeito quando uma mão toca meu ombro e uma voz feminina pergunta se estou passando mal. É uma gordinha de cabelo crespo. Digo que está tudo bem, louco para voltar à minha concentração, mas ela me toca de novo e diz para eu não ligar para aqueles meninos, que são todos uns palhaços tentando descontar sua miséria em alguém.

Começo a simpatizar com a gordinha, mas de repente noto que seus antebraços têm pelos demais para um corpo de menina. Meio sem querer, escaneio a mente dela e descubro que ela passou a tarde num salão, alisando os cabelos. Me pergunto por que a funcionária não explicou que ela precisava depilar os antebraços. Não posso escanear essa funcionária, meus poderes não vão tão longe. Então lembro da loirinha e vejo que ela não está mais na sala. Fecho os olhos para escanear os quartos e logo me arrependo, porque as imagens dela com outro cara chegam imediatamente na minha cabeça, com um misto de decepção e repulsa. E quando volto para a minha visão, o rosto da gordinha está a um palmo do meu, e seus olhos estão fechados. Não estava pensando em beijá-la, mas não sou cruel o bastante para desviar os lábios num momento tão delicado. Aceito, resignado, o beijo da gordinha, já pensando numa desculpa para ir embora mais cedo. Mas a danadinha até que beija bem, e acabo relaxando por alguns minutos e curtindo a fricção suave dos lábios dela. Estou tocando seus cabelos quando começam novos risos e gritos. Não sei do que estão zombando agora, se do fato de eu estar ficando com uma gordinha de braços peludos ou de uma gordinha estar ficando com o esquisitão calado que veio de outro planeta. Escaneio a mente de uma magrinha de olhos arre-galados e ela está pensando: "se até essa baleia pode ficar com alguém, não vai demorar para um maloqueiro chegar em mim." Um moreno de óculos escuros está concluindo que devo estar chapado para beijar uma gorda dessas. Sinto um estranho mal estar e vou para o banheiro, mas não estou com vontade de vomitar ou aliviar os intestinos. Sento na tampa do vaso e fico apenas me perguntando por que vim a mais uma festa, por que saio de casa para encontrar pessoas que só querem me humilhar? Escaneio minha própria mente em busca dessas respostas e não as encontro. E de repente lembro que ainda não felicitei o homenageado da noite.

Chego na sala, e quando dou os parabéns já aproveito para dizer que vou ter que sair mais cedo. “Você passou, mal? É assim mesmo, tem gente que não pode beber.” Sinto que ele está orgulhoso por seu corpo se dar bem com algumas latas de cerveja. Deve pensar que esse é seu súper poder. Começo a me despedir do pessoal, “pois é, já vou, etc”. Eles dizem “vai não, fica mais um pouco”, enquanto escuto eles pensarem: “que mané, por que ele ainda não sumiu?” Vou me despedir da gordinha, mas ela está conversando com umas amigas e não me dá muita atenção. Os beijos que trocou comigo talvez fossem apenas a desculpa para esse papo de agora, uma espécie de ritual para entrar na turminha das meninas, ser aceita por elas e se tornar uma delas. Ganho um minguado selinho de despedida. Já não sou mais necessário, já não mereço um beijo longo e molhado, simulando desejo.

Decido ir pelas escadas, e quando percebo que estou com-pletamente sozinho, flutuo lentamente de um patamar a outro, só para lembrar quem eu sou. Quando piso na rua, começa a chover. Gero um brando campo de força para me proteger da chuva. Olho, divertido, os pingos fazendo uma curva na frente do meu rosto. Não ligo se o pessoal estiver me olhando. A festa era no oitavo andar, lá de cima não dá para ver a trajetória dos pingos. Passo alguns minutos no ponto de ônibus, mas, cansado da demora, resolvo tentar outro ponto, na transversal. A chuva está mais forte e aciono meu campo novamente, uma coisa tão trivial para mim quanto assobiar ou cantarolar uma melodia. Então me deparo com uma pequena surpresa. A gordinha da festa passa correndo ao meu lado, e na pressa nem chega a me ver. Nos trechos sem marquise, leva a bolsa à cabeça, talvez tentando proteger a química que deu uma melhorada nos seus cabelos. Sinto um misto de pena e simpatia. Fico invisível, corro para perto dela, e dessa vez gero dois campos, um para mim, outro para ela. Mas ela parece não notar. Deve ser míope demais para ver que os pingos estão caindo a meio metro da cabeça dela. Deve ser distraída demais para sentir que a água não está tocando sua pele. Eu tinha pensado em escanear a mente dela, para saber se ela estava pensando em mim, mas, diante dessa insensibilidade, perco completamente a vontade. Espero até ela entrar no ônibus, fico visível novamente e sento no ponto, ao lado de uma velhinha que me olha espantada, como se eu fosse um fantasma. Sei que meu ônibus vai demorar. Eu poderia pegar um táxi, e apagar a mente do taxista assim que ele me deixasse em casa. Ele ficaria completamente desorientado, se perguntando por que foi até lá. Mas não sou tão canalha, não quero prejudicar um trabalhador.

Estou feliz com minha honestidade quando um pivete se aproxima e fica olhando para a velha como um cachorro olha para um pedaço de carne. Não preciso ler mentes para saber que ele está apenas esperando eu sair do ponto para voar na bolsa da velha como urubu em carniça. Sinto que ele não é muito pesado. Com uma concentração moderada eu poderia jogá-lo no chão ou atirá-lo no meio da rua. Poderia projetar imagens de policiais na cabeça dele, chegando numa viatura e ameaçando prendê-lo. Mas, quando chega meu ônibus, prefiro embarcar calado e deixar o moleque agir. Por que eu salvaria uma velha que não hesitaria em me chamar de louco se eu contasse a ela sobre meus súper poderes? Por que eu salvaria uma idiota que recebe uma pensão do estado para ficar em casa vendo televisão e falando da vida dos vizinhos? Sento no banco do ônibus, feliz por saber que aquele jovem – agora prefiro chamá-lo assim, um jovem desfavorecido – está punindo uma velha idiota que nunca fez nada para melhorar o mundo. Acho que essa é a diferença entre mim e os heróis. Não amo a humanidade, não tenho a menor vontade de salvá-la do que quer que seja. Se eu revelar meus poderes em público, provavelmente me prenderão e tentarão desesperadamente me transformar numa pessoa normal. Não quero gastar nem uma caloria tentando salvar os seres que, se tivessem a chance, não hesitariam em me destruir.

Chego em casa e minha mãe me pergunta se foi tudo bem na festa. Digo que foi tudo ótimo, digo que demorei um poco porque levei uma amiga no ponto de ônibus. Ela fica feliz, nem me pergunta como minhas roupas estão secas. Vou para o quarto, apago a luz e me divirto gerando pequenas bolhas de plasma no escuro. Tenho súper poderes, mas sou lúcido o bastante para não querer ser herói.


segunda-feira, 20 de fevereiro de 2017

Cidade dos Atores

O garçom que acaba de trazer a conta não é garçom. O taxista que me leva ao hotel não é taxista. O gerente que dá instruções a uma estagiária morena de cabelos longos nunca deve ter lido um livro sobre hotelaria. Na Cidade dos Atores todos são atores representando seus papéis. Estudaram e ensaiaram seus gestos, suas palavras, o sotaque, a surpresa ou a indiferença que revelam no olhar e no tom de voz. Muitos passaram anos na escola de arte dramática, debruçaram sua juventude sobre Shakespeare e Nélson Rodrigues. Alguns fizeram cursos mais rápidos, com ex-diretores ou atores famosos, mas esses cursos foram devidamente avaliados e certificados pela Secretaria de Cultura. Os intuitivos e autodidatas não são tolerados na cidade. Há profissionais estrangeiros, mas eles estudaram em seus países de origem e sabem imitar perfeitamente o sotaque local. Se alguém aparenta ser um americano ou um chinês, só pode ser um ator nacional desempenhando meticulosamente seu papel. Os atores estrangeiros não costumam representar estrangeiros; isso não seria nenhum desafio, nenhuma conquista excepcional.

Claro que há turistas, a cidade não sobreviveria sem eles. Mas há também atores representando turistas, para tornar a experiência do turismo mais saborosa e completa. Um dia passei quase uma hora assistindo uma velhinha a tomar seu chá, num café decorativo, próximo ao centro histórico. A interpretação não foi menos que magistral. Enquanto lia o cardápio, a atriz encenou a serenidade ancestral das velhinhas, encarnou uma lentidão despreocupada, sustentou uma elegância suave, casual. Com a chegada do cheesecake, assumiu certa voracidade, porém matizada com um prazer requintado junto com breves alusões a uma angústia sutilíssima. Na sequencia retomou a serenidade, mas agora com uma energia e uma concentração realisticamente hipnóticos, culminando numa surpresa vigorosa, quando reclamou da demora da conta. O garçom atuou adequadamente, desculpando-se de forma sumária, fingindo não ver que eu, duas mesas atrás, de câmera ligada, vivia a euforia silenciosa de um espectador feliz. Só no dia seguinte percebi que o vídeo não havia registrado nem de longe a vitalidade irrepetível daquele momento. Lamentei inutilmente; precisei de outras experiências para me conformar. A magia misteriosa da atuação parece não admitir o automatismo das câmeras. O gesto mais vibrante, o olhar mais preciso, indubitável, repetidos em vídeo, parecem fingidos, forçados, artificiais.

Faz anos que passo as férias na Cidade dos Atores, e minhas expectativas nunca foram frustradas. Um homem que barganha o preço das frutas com um camelô, meninas voltando da praia, balançando distraidamente os quadris, o motorista indignado que vocifera com o motoqueiro transgressor, tudo é feito com absoluta precisão e domínio. Um gesto atravessado, um mínimo exagero vocal deitaria a cena a perder, furtaria o prazer do espectador, perder-se-ia num caos tumultuoso de frases exclamativas e banais.

Por isso suponho que haja uma fiscalização severa; os atores incompetentes são rapidamente demitidos, talvez exilados. A Cidade não pode admitir o erro, o acaso, a intromissão perniciosa da realidade. Imagino galpões impenetráveis, nos subúrbios, onde os textos são ensaiados, repetidos, repassados ao limite exaustivo da perfeição. Os profissionais devem dormir muito pouco, e passar as folgas numa cidade vizinha, onde talvez sejam reconhecidos, porém tratados como homens normais, que precisam comer, descansar, esquecer, não como atores que atuam que estão comendo, descansando, esquecendo.

Certa vez fingi uma doença para assistir uma peça num hospital público. Me deliciei com as faces resignadas, o terror no rosto dos familiares, a impassibilidade altiva dos profissionais uniformizados. Naquele dia fui, muito brevemente, para justificar a cena do médico, um ator diletante e canastra. Aludi a uma vaga dor de coluna, tirei a camisa, deixei-me auscultar, medicar, aconselhar, apenas para me deleitar com um olhar de enfado, uma voz monótona, uma gesticulação frouxa, histrionicamente indiferente. Em busca de prazeres semelhantes, fui um passageiro de ônibus, um comprador de legumes, um homem comum, num bar, tentando esquecer sua solidão intragável. A bebida intensificou minha sensibilidade para a beleza de um momento programado e executado por mentes humanas. O garçom fingiu um vago interesse pelas minhas dores. O homem ao lado me contou um caso que seria mais pungente, mais dramático e cabal. Algumas mesas atrás um casal discutia furiosamente a intromissões frequente da sogra. Tencionei beber até a inconsciência, para ver como me tratariam no bar, se me levariam para o hotel, o que restaria da minha carteira, da minha dignidade. Meu estômago simplesmente me obrigou a desistir da ideia. O que fiz foi chegar cansado no quarto, imaginando como a atriz que representasse uma garota de programa teria fingido o orgasmo: o tom agudo dos seus gemidos, a pressão das pálpebras, a contração decidida das sobrancelhas. Farto de especular, deixei o espetáculo para outro dia.

Quando volto para minha cidade natal a vida me parece deformada e sem sentido. Já não faço mais que trabalhar e juntar dinheiro para as férias. Descobri que algumas pessoas da minha cidade, e até do meu bairro, também já visitaram a Cidade dos Atores. Devem saber mais ou menos o que sinto quando estou por lá. Claro, que nunca quis conversar com elas. Diriam que a cidade é maravilhosa, intensa, sobre-humana, ou seja, nenhuma novidade. E, se por acaso não tiverem gostado, não tiverem sabido apreciar o prazer de viver cercado pela encenação e pelo fingimento, eu não toleraria ouvir sua opinião, assim como nenhum homem deste mundo tolera ouvir um juízo negativo sobre o mar ou o pôr do sol.

Possuído por tais pensamentos, não seria natural que eu desejasse e pelo menos tentasse viver permanentemente na Cidade dos Atores? Essa ideia me ocorreu há alguns anos, perturbou meu trabalho e reduziu minhas horas de sono. Fui tantas vezes um turista no meio de profissionais. Não seria hora de ser um ator representando um turista? Esperei o tempo necessário, contando os dias e meses. Nas férias seguintes, voltei à cidade com um plano ousado, ambiciosamente teatral. Não fui para o hotel modesto, no centro, onde eu costumava me hospedar. Parti para um cinco estrelas, próximo a um monumento histórico, quatro vezes mais caro. Ao dar entrada, perguntei pelo menu do café da manhã; fingi certa perplexidade por não terem figos. O atendente, o ator, garantiu que tomariam providencias. No dia seguinte, encontrei os figos na mesa, mas não deixei que minhas pálpebras movessem um milímetro de surpresa. Acompanhei-os de queijo, caputino, broa de fubá. Mastigando a esponja adocicada, emiti uma aprovação gutural, fingi um prazer sublime. Só então me ocorreu que eu tinha espectadores. Nas mesas ao lado, os homens me observavam com uma atenção excitada, olhos fixos; eram turistas em busca do seu espetáculo. Nesse momento senti que eu havia exagerado. Os figos não justificavam um prazer tão elevado. Além disso eu havia dado a entender, no dia anterior, que estava acostumado a eles. Meu gemido, portanto, não devia expressar nenhum êxtase, nenhuma satisfação fora do comum. Tive que admitir: minha estréia fora um fracasso.

Voltei para o hotel. Ensaiei várias vezes a compra de um produto eletrônico. Decorei o texto, atuei a surpresa pelo preço, a indignação, a argumentação inútil, a derrota, a resignação, a submissão rancorosa. Quando me senti pronto, parti para a ação. Escolhi uma lojinha pequena, na zona norte, onde eu teria poucos espectadores. Selecionei um produto, espantei-me, questionei o vendedor, debati. Mas uma novidade deitou a perder minhas horas de ensaio. Naquela semana havia uma promoção, um imprevisível desconto de dez por cento. Confuso, tive que improvisar. Não sabia se o desconto deveria me levar ao contentamento, ou se eu deveria insistir, intensificar a revolta, alegando que o paliativo não tirava o preço da sua faixa exorbitante. Optei pela segunda via, mas não consegui expressar a intensidade necessária. A falta de ensaio me traiu. Minha voz saiu chocha, meus argumentos soaram capengas, falsos, teatrais. O balconista percebeu. Os outros consumidores perceberam. Na impossibilidade de pedir-lhes desculpas, apenas comprei o produto, paguei o preço, voltei para o hotel, derrotado. Meu plano naufragava. Talvez eu precisasse de mais observação, mais ensaios, mais tempo na Cidade dos Atores. Mas isso custaria caro. E agora muitos saberiam que eu não era ator. Talvez ninguém prestasse atenção quando eu entrasse num bar ou num cinema. Como última tentativa, desesperada, chamei uma garota de programa, com intenção de fingir absolutamente tudo. Fingir satisfação com seus seios grandes, fingir prazer com o aderente sexo oral, fingir um êxtase profundo com o alívio do orgasmo. Mas a menina quase não tinha seios, o oral foi com camisinha, e o orgasmo foi um alívio fraco e banal como um arroto.

Naquela tarde achei que eu não conseguiria dormir, me condenando e martirizando pelas péssimas atuações. E no entanto, dormi como um menino, talvez por ter compreendido o erro que eu vinha cometendo. Os atores tinham algo que me faltava completamente. Disciplina, dedicação e talvez o tal do talento. Acreditar que eu seria um deles tão facilmente foi uma ingenuidade absurda. No dia seguinte eu estaria livre dessa sina. Tomaria o que servissem à mesa. Perambularia pela cidade, desatento a tudo, pegaria um táxi para qualquer lugar. De noite, daria saída no hotel e voltaria para a minha cidade banal. Mas no ônibus de volta, ou talvez ainda na rodoviária, eu perceberia um homem feliz. Um homem que tentou ser outro, e agora sabe quem é. Um homem que se equivocou, quase usurpou, sem querer, um cargo legítimo, e agora reconhece seu lugar na plateia; sem ilusões, sem ressentimento.


Ronaldo Brito Roque