segunda-feira, 7 de setembro de 2009

É hoje!

Todos os seus amigos já tinham ido a casas de massagem. Pablo tinha falado sobre um lugar no centro onde a hora era apenas cem reais. Ruslan havia lhe indicado um saite com garotas um pouco mais caras, mas muito bonitas. Saulo hesitava porque sua namorada era até gostosa; tinha seios pequenos, mas graciosos, tinha um corpinho proporcional, pernas bem torneadas. O problema é que era muito apagada na cama. Apenas se deitava e esperava que ele fizesse o trabalho; não tinha iniciativa, parecia até mesmo não gostar de sexo. Saulo estava percebendo que a estratégia dela era inventar mil programas para o fim de semana, passar na casa de vários amigos, ir a festas intermináveis, estúpidas exposições de arte, e assim cansar o namorado e não ter que transar. Em contrapartida, ele descobria que gostava realmente de sexo, não era mero capricho de adolescente. Queria penetrar uma mulher, abraçá-la com força, morder seus ombros e pescoço; depois gostava de dormir aquele sono pacífico e redentor que só existe após o orgasmo. O trabalho, as reclamações dos clientes, os horários e prazos seriam esquecidos por algumas horas; o próprio mundo desapareceria por algumas horas. Depois ele acordaria disposto, como se estivesse começando algo novo, como se estivesse prestes a fazer uma descoberta. Mas Flávia Cristina estava lhe negando esse imenso prazer. Inventava cada vez mais desculpas para não ir para cama. Quando não era a menstruação, eram festas e insuportáveis reuniões de família. Saulo sentiu que precisava dar um basta. Olhou mais uma vez o saite — estava numa lanhouse — tomou coragem, e escreveu o email que tinha planejado.

“Se você não fizer amor comigo hoje, vou chamar uma garota de programa.”

Enviou a mensagem com uma sensação obscura, misto de orgulho e receio. Orgulho pela iniciativa, e medo da reação de Flávia, que ele não conseguia prever. E se ela não gostasse da provocação? E se quisesse terminar? “Que se dane!” pensou, irritado. “De que me adianta uma namorada, se não posso ir para cama? Não sou nenhum padre, quero sexo, e Flávia vai ter que lidar com isso! Afinal, para quê estou trabalhando?!” Ele mesmo se surpreendeu com essa pergunta, pois não tinha imaginado que trabalhava para ter direito a sexo. Mas era isso mesmo! Trabalhava para ter direito a algum prazer, e que prazer seria melhor que a nudez quente e úmida de uma mulher bonita? Estava confuso, mas excitado, confiante, quase feliz. Sim, era um homem! Tinha testosterona correndo em suas veias, e era delicioso admitir aquilo. De volta ao trabalho, ainda curtia certa empolgação quando recebeu uma mensagem no celular:

“Amor, precisamos conversar. Passo na sua casa às oito.”

Seu humor oscilou com uma rapidez incrível. “Está acabado”, pensou, derrotado. “Ela vai terminar. Eu sabia: fui longe demais.” Passou alguns minutos confuso e envergonhado. Não conseguiu trabalhar, passava as mãos na cabeça, queria acender um cigarro, embora nunca tivesse fumado. “Meu Deus, exagerei! Devia ter tocado no assunto de outra maneira.”

Depois do trabalho, voltou à lanhouse e ficou olhando os saites de garotas de programa. Muitas não mostravam o rosto, apenas exibiam os corpos em poses de revista masculina. Aquelas fotos muitas vezes tinham disparado suas fantasias e lhe despertado ereções bastante convictas. Mas agora elas pareciam exageradas, extravagantes, irreais. Reparou que o cabelo de uma garota parecia peruca. O silicone de outra estava visivelmente mal colocado, deixando veias ressaltadas e mamilos esticados. Uma terceira chegava mesmo a ter uma cicatriz de cesariana, o que deixou Saulo estranhamente chocado. Pela primeira vez pensou que aquelas jovens talvez já tivessem filhos, talvez trabalhassem apenas para sustentá-los, e não porque fossem mulheres ousadas e fissuradas em sexo. Essas conclusões eram ainda mais incômodas quando ele imaginava Flávia Cristina terminando o namoro. Ela diria: “então é isso, amor. Pensei que você fosse outro tipo de homem. Eu me enganei sobre você, e você se enganou sobre mim”, depois se despediria com indiferença, batendo a porta do seu quarto-e-sala e sumindo para sempre. A previsão se agravava quando sua mãe aparecia na história, perguntando por Flávia Cristina, frisando que ela era modesta, simpática, educada, que ele não encontraria facilmente outra garota como aquela. Mas tudo estava acabado. Era melhor se acostumar logo à idéia. Fechou os olhos, repetiu cinco vezes que estava acabado, depois voltou a olhar o saite, com um rancor profundo que confundia com determinação. Encontrou uma garota — Larissa — que mostrava o rosto nas fotos. Era branca, tinha cabelos lisos que não pareciam artificiais. Seios perfeitos, pele sem manchas de sol: provavelmente não era carioca. Verificou que o preço era acessível. Não seria nenhum desfalque no seu orçamento mensal. Calculou que às nove Flávia Cristina já teria feito um discurso e dado seu adeus. Às nove e dez ele ligaria para a garota, nove e meia estaria no hotel. Receberia Larissa às quinze para as dez, os dois conversariam sobre coisas banais, ela perguntaria sua profissão, ele perguntaria há quanto tempo ela fazia programa. Às dez e quarenta metade das suas fantasias estariam realizadas e às onze ele estaria relaxado, feliz, esperando a garota sair do banheiro para tomar uma ducha. Era uma ótima previsão para a noite. Acreditou que umas quatro aventuras como essa lhe bastariam para esquecer a namorada e sua sexualidade insípida e banal.

Às oito estava preparado para a prova. Estranhou que Flávia chegasse de salto e tão bem arrumada, brilho nos lábios, sombra, delineador, um vestido de noite que ele sabia não ser usado em qualquer ocasião. De repente se sentiu oprimido por um ciúme obscuro e indeciso. Especulou que ela também encontraria alguém depois de terminar, talvez havia muito já estivesse interessada em outro, e ansiasse pela oportunidade de poder culpá-lo pelo fim do namoro. Sentiu-se manipulado, traído de uma forma tão complexa que não conseguiria bolar uma vingança à altura. E sentia sua derrota aumentar quando reparava que Flávia estava bonita, confiante, estranhamente distante. Saulo se convenceu de que era na verdade a mera vítima de uma mulher calculista e dissimulada.

Ela começou a falar com frieza, não parecia nervosa.

— Sabe, Saulo. Quando eu te conheci, achei que estava conhecendo outro tipo de homem...

Ele ouvia sem muita atenção. Estava convencido de que ela ia terminar.

— Você era sensível, gostava de arte, parecia entender a alma feminina, parecia valorizar o amor, o romantismo... — enquanto falava, ela movia a cabeça e fazia balançar um pouco os cabelos. Seu olhar estava distante, parecia uma atriz, estava mais linda que nunca. Saulo reparou que ela usava um sutiã preto, provavelmente novo. Aquilo o excitava levemente, mas também o torturava, porque ele não parava de pensar que ela ia encontrar alguém quando saísse do apartamento. Não era normal que se arrumasse daquele jeito simplesmente para terminar com ele, lógico que ia ver outro.

Flávia continuava a falar, lembrando que o sexo não pode estar acima da confiança, do amor, dos planos compartilhados. Mas Saulo só reparava no suave movimento dos seus lábios, nos olhos cuidadosamente delineados, e nos seios contornados e pressionados pelo rigor do sutiã preto. Começou a pensar que sua namorada não era assim tão inocente: quando queria, sabia provocar. O problema era que não queria com muita freqüência. Mas era inaceitável que aqueles seios macios terminassem a noite nas mãos de outro. Subitamente uma idéia confusa pareceu dar alívio àquela pletora de sensações contraditórias. Faria amor com Flávia uma última vez. Ou pelo menos tentaria. Tomaria suas mãos, pediria um perdão caudaloso, convincente, e a levaria para o quarto antes que ela o contrariasse. Afinal, ele ainda era oficialmente seu namorado. Depois disso estaria mais calmo para terminar, deixaria que ela saísse porta afora, deitado em sua cama, enrolado na maciez compreensiva do seu edredom. Dormiria um sono pesado, sem sonhos, e só voltaria a pensar em garotas de programa daí uma semana, quiçá um mês. A idéia lhe agradava e antes mesmo de formular a primeira frase, já tinha tocado Flávia nos cabelos, já estava confessando que ela era linda, na verdade a mulher mais linda que ele já tinha namorado. Dizia isso com os olhos baixos, como se admitisse uma fraqueza dele, não uma qualidade dela. E logo recordou os seios, e quis dizer alguma coisa também sobre eles, mas, não sabendo como se expressar, apenas os tocou, com espanto, com estranheza, com certo desespero até. Suas mãos já lhe tiravam o vestido quando ela exigiu alguma promessa, que ele fez, sem entender muito bem, apenas assentindo com a cabeça — sim amor, claro que sim, eu prometo, eu juro! — e redescobrindo a magia candente daqueles seios que pareciam bem mais imponentes por trás do negrume do sutiã. Flávia Cristina deteve-o algumas vezes, por vaidade e prazer, enquanto internamente se deliciava com a realização de seus planos. Lá estava ele novamente, seu namorado, implorando por sua nudez, prometendo e concordando com o que ela quisesse, só para ter alguns minutos dentro do seu corpo quente e úmido de fêmea. Considerava-se superior em estratégia, e se congratulava por não ter respondido o email dele com as primeiras palavras que lhe vieram à cabeça. Depois consentiu em ir para o quarto, se despiu de uma maneira programada, teatral, prendendo a barriga e exibindo uma lingerie ansiosa, que esperara anos no fundo de uma gaveta. Saulo estava extasiado, certas coisas com que ele sempre tinha sonhado começavam a acontecer, e isso dava à realidade uma atmosfera cinematográfica, meio fantástica e ao mesmo tempo mais emocionante, mais colorida, mais real. Quando Flávia cavalgou sobre ele e o sufocou de leve entre os seios, ele quis desesperadamente dizer alguma coisa que não sabia o que era, só sabia que era verdadeiro, intenso e definitivo. Assustou-se ao ouvir a própria voz gritando “eu te amo, Flávia Cristina!” e o susto logo se converteu no imenso prazer que fluiu pelo seu corpo e o sossegou e o refrescou como uma chuva torrencial de dezembro. Flávia o ouviu, satisfeita, depois sentiu certa comichão na altura da cintura e ficou se perguntando se aquilo era o tal do orgasmo. Mas a sensação se dissipou e ela apenas se deitou relaxada sobre o namorado, seu corpo oscilando entre o cansaço e a satisfação.

Quando recuperou o ânimo, foi correndo ao banheiro, porque detestava ficar com sêmen entre as pernas. Estacou diante do espelho, levemente chocada, lembrando que estava gorda e notando que o suor tinha espraiado a tinta do delineador. Mas, apesar dos inconvenientes, teve a sensação de estar ligeiramente mais bonita, e lamentou que não fosse passar numa festa ou danceteria onde todos pudessem testemunhar essa mudança. Voltou ao quarto e tentou não rir ao ver Saulo com cara de bobo, olhando para o teto. Não adivinhou que ele se perguntava se da próxima vez ela o deixaria filmar. Deitou ao lado dele, acariciou de leve seu peito, seu rosto, e disse baixinho o que tinha pensando antes de sair de casa.

— Então, amor? Você vai me dar os duzentos reais?

— O quê?! — Saulo não acreditou. Achou que outra mulher tinha tomado o corpo dela.

— Não foi o que combinamos? Você não ouviu o que eu disse na sala?

Ele ficou ainda mais confuso e assustado. De fato não tinha ouvido bem o que ela dissera antes de irem para cama. Tinha achado que era algo banal, mais um sermão sobre a importância do amor ou coisa do tipo.

— Amor, então foi isso que você falou!? Não estou nem acreditando, você falou que ia me cobrar!?

Flávia abriu uma risada gostosa, triunfante. Saulo também começou a rir, primeiro apreensivo, indeciso, depois relaxado e cúmplice. Abraçou a namorada, mais feliz do que nunca. Sentia estar diante de outra mulher, mais ousada, mais inteligente e divertida.

— Você não tinha ouvido nada, hem, amor.

— Você me pegou, linda. Aquela hora eu nem estava ouvindo... — Os dois se abraçavam e riam agora por dentro, riam por sentir que mereciam aquele momento, mereciam um ao outro, por motivo nenhum e por todos os motivos do mundo, como a terra merece as flores e as flores merecem a luz e o calor do sol. Flávia ria com um prazer especial, porque sentia que aquela conquista era sua. Ela planejara e executara aquela noite com a precisão de um gênio do crime. De repente sentiu um calor suave e pulsante que aquecia seu peito e subia até as faces, talvez a fazendo corar. Surpresa e encantada, ficou se perguntando se aquilo era afinal o tal do orgasmo. Mas logo concluiu que não. Não era orgasmo. Era simplesmente felicidade.


quarta-feira, 12 de agosto de 2009

Duas dúvidas e uma certeza


I. A Bruxa


Um pentagrama tatuado nas costas, uma lua e três estrelas na mão. Ela tentava me convencer que bruxaria era coisa boa, “o contato com a natureza, a sensibilidade para as energias cósmicas, o cristianismo é que estragou tudo, com aquela moral repressora...” Eu tolerava incenso e maconha em troca de alguns orgasmos — o que um adolescente não faz movido por hormônios? Mas deuses pagãos não são eternos. Um dia foi minha paciência e veio a inquisição. Confessei meu ceticismo. Ela não tinha poderes sobrenaturais, era apenas humana, ou pior: mulher. Ultrajada, tentou se defender atacando — Nunca gozei com você! — mas isso apenas provava sua completa falta de poderes mágicos. A não ser, é claro, para a hipocrisia: nos despedimos com beijinhos formais. Quando ela bateu a porta, o ar puro voltou a fluir no meu apartamento.

II. La Mamma

Ela ficou decepcionada quando esqueci nosso aniversário. Não mandei cartão, não telefonei, mas continuei sendo o destinatário de suas palavras carinhosas: “meu amor”, “minha vida”, “razão da minha existência”. Ela não podia evitar, já que fora educada por estórias infantis e canções românticas. Quando não era a princesa, esperando que eu matasse um dragão, tornava-se uma mãe solícita e pegajosa: “Leve agasalho”, “Não tome leite vencido”; frases até desejáveis quando uma mulher não sabe fazer outra coisa. Confesso que quase a amei, sobretudo quando dentro do seu corpo quente e molhado. Mas seus olhos mendigos pediam algo que eu não podia dar: uma promessa. Acabei por lhes dar algumas lágrimas. Felizmente, seriam poucas. Funcionários públicos vivem à espera de mamães como essa. Eles sim, têm as promessas que elas pedem. Eu ainda tinha alguns dragões para matar.

III. É Ela

Quando ela disse “eu te amo”, tive certa vertigem. Eu queria mesmo tocá-la de novo, sentir o frescor inesperado da sua pele, a maciez sombria dos cabelos negros, estranha nuvem noturna — mas achei que o destino me negaria o privilégio. Veio o privilégio, veio o deleite escandaloso da sua nudez, o tremor ilícito das nossas bocas: a dela de prazer, a minha de medo — medo de ser a única vez. E, de fato, ela não voltou a falar em amor. Fez bem melhor que isso: me deu ordens. Explicou que filhos precisam de um pai, com gravata e carteira assinada. Eu obedeço calado. Não quero que ela descubra minha enorme satisfação. De dia uso o trabalho para esquecê-la. De noite seu corpo absorve essa revolta muda e absurda que tem sido meu único pecado desde que me entendo por gente. Entre uma novidade e outra, passei a acreditar em Deus; afinal, preciso ter a quem pedir. Enquanto ela dorme, peço baixinho que eu seja sempre o destinatário das suas ordens, peço que eu saiba o que fazer com esses moleques ruidosos que brotarão do seu ventre, e peço, sobretudo, que seu riso me dê sempre essa sensação de que já vivo na eternidade. Não tenho mais dúvidas, não preciso de mais nada.

segunda-feira, 10 de agosto de 2009

Moldura

De dento da moldura, ele me olhava. Seriedade, autoridade, prepotência eram palavras que eu desconhecia. Eu via apenas os olhos claros e imóveis do retrato, aos quais minha mãe ia atribuindo temor ou ternura, conforme seu interesse. Se eu arriscasse um mergulho no rio, “o que seu pai pensaria de uma loucura como essa?!” Se eu fechasse uma prova de matemática, “como seu pai ficaria feliz!” Aos poucos fui aprendendo a medir minhas ações pelos olhos de uma fotografia. Tive amigos que odiavam o próprio pai, e buscavam ansiosamente um emprego que lhes permitisse sair de casa. Eu não podia odiá-lo nem amá-lo — do alto da parede, ele era distante, plano, inacessível a meus sentimentos.

Mas não digo que nos estranhássemos. Acabei descobrindo que mamãe não era a única a adivinhar emoções por trás do seu rosto inerte. Quando tomei certa liberdade com nossa empregada, me pareceu que ele aprovava silenciosamente. Acreditei captar-lhe uma euforia contida, quando um amigo mais velho começou a me ensinar a dirigir. Um dia mamãe me mandou usar calças compridas e camisa de gola para jantar. Apareceu um senhor meio curvado, apresentado com adjetivos favoráveis, junto à estranha previsão de que nos daríamos bem. Naquela noite derramei comida na mesa, falei alto, relembrei constantemente a figura altiva de meu pai. Citei sua seriedade, sua austeridade moral, como se eu não as conhecesse apenas pelas palavras de minha mãe. Eu mesmo não compreendia a razão da minha insólita fúria, mas quando o sujeito se despediu, um tanto encabulado, ainda mais curvado que na entrada, senti pela primeira vez que o retrato me transmitia um olhar  triunfal. Era o início de uma cumplicidade secreta, já não acessível a mamãe e suas frases tortuosas.

Nos anos seguintes, papai passou a aprovar minha juventude tranqüila, meus passeios de carro, minha lenta aprendizagem com a bebida, o bilhar e as garotas. Achei que nossa relação manteria a sintonia, até o dia ingrato em que olhei para o retrato e não compreendi o olhar que ele me devolvia: seria aprovação desdenhosa, reprovação sumária ou simplesmente indiferença? Chegava a época do vestibular, e eu tinha escolhido Artes Plásticas. Mamãe protestava incessantemente, pois acreditava que uma facilidade para desenho seria mais bem explorada em arquitetura — ou mesmo em moda, desde que observadas certas reservas. Mas a carreira incerta das artes era algo que meu pai decididamente não aprovaria. Pela primeira vez, ao perscrutar o retrato, eu não sabia dizer se ela tinha razão.

Depois veio a questão com Lucélia. Mamãe não aprovava nosso casamento, dizia que o temperamento instável da garota me traria problemas no futuro. Reclamava do cigarro, acusava-a de não saber cozinhar — no que tinha plena razão — e nesse debate também não consegui intuir de que lado papai estaria.

Um dia estaquei na sala e fiquei a encará-lo, mudo, como se esperasse uma resposta definitiva. Não uma palavra, mas um sinal nítido, o princípio de um código que me permitiria deduzir suas intenções para o resto da vida. O silêncio me surpreendeu com uma clareza inacreditável. Na sua indiferença pálida, o retrato tentava me transmitir que não era mais hora de consultá-lo. Me pareceu que a foto queria abdicar da função de oráculo, e se contentar com o cargo modesto de lembrança. Mas a súbita transformação me perturbava. Não consegui conter a revolta; um silêncio morto queria se instalar onde antes havia um diálogo fértil e profundo. Senti-me traído, abandonado, praticamente insultado. Tomei o retrato nas mãos, vociferei impropérios, acusei a imagem de ser apenas o espelho da minha loucura, uma ilusão que eu herdara de minha mãe, e minha mãe herdara de uma ausência. Revoltado contra sua passividade orgulhosa, espanquei o retrato, bati-o contra as costas de uma cadeira, depois o rasguei, cortei minhas mãos no vidro estilhaçado, talvez acreditando, por desespero, que se pode destruir um passado anulando um de seus símbolos. Quando mamãe entrou na sala, consegui conter o choro, não as lágrimas. Ela apenas se abaixou e começou a catar os cacos. Surpreso, percebi que não estava contrariada. Também estava farta de ver o presente governado pelo fantasma que ela mesma havia projetado atrás daquela imagem vazia. Recolhemos juntos os estilhaços, varremos o chão, colocamos o vidro para fora. A grande moldura, que me disseram ser de jacarandá, eu venderia numa feira de antigüidades. Mas algo me deteve no momento de fechar o negócio. Não foi o preço baixo — o dinheiro não me interessava, eu queria apenas me livrar do que restava de uma revolta estéril e obscura — foi antes o insólito pressentimento de que um dia eu também seria retrato. A emoção que pulsava no meu peito, a força misteriosa que enchia e esvaziava meus pulmões também se tornaria rigidez, frieza, ausência. Segurei a moldura diante de mim, tentei imaginar meu rosto imobilizado dentro dos seus limites. Especulei que um dia talvez um filho precisasse do meu rosto ali dentro, dos meus olhos vazios de sentimento para que ele pudesse projetar e compreender os seus. Livrar-me da moldura não me livraria dessas conclusões. Minha decisão súbita decepcionou o comprador. Apoiei a moldura no ombro, voltei para casa com passos lentos e firmes. O peso do limite eu aprenderia a suportar paulatinamente, até que eu fosse também um limite, uma imagem contida num retângulo de madeira. Hoje a moldura me aguarda num quartinho dos fundos, e eu aguardo o dia em que me tornarei o homem que quero emoldurar.

sábado, 6 de junho de 2009

Liberdade?

Ele tem flertado com a mediocridade. Passeios no shopping, sexozinho nos fins de semana, e sono, muito sono. Logo estará vendo televisão. Tudo por causa de uma dessas mulheres de ancas largas e gestos delicados. Ela já sabe os nomes que vai dar aos filhos. Ele ainda quer escrever um livro. Mas alguma coisa no seu corpo, algo além da queda de cabelos, vai conciliando o futuro com uma gravata e uma carteira assinada. Os sonhos que restam vão morrendo a cada orgasmo. Aos poucos ele vai descobrindo que nunca quis ser livre. Queria apenas alguém com quem dividir a cela. As mesmas paredes que antes o oprimiam formam agora um refúgio contra a desordem cansativa do mundo. E desde que a doce morena permaneça ali dentro, desde que ela o envolva nos seus braços macios, desde que ela sorria brancura e morda prazer, aquele espaço exíguo não será mais uma prisão, mas simplesmente o seu lar. Para que ser livre, se a busca terminou? Uma mulher para dividir a cama, uma janela para olhar as estrelas, uma madrugada para escrever versos medíocres, eis a súbita descoberta: tudo isso é muito melhor que a liberdade.