terça-feira, 21 de junho de 2011

Hoje ela não pensou em sexo


No metrô, quando ia para o estúdio, ela notou que um sujeito não parava de encará-la, e ficou morrendo de medo de estar sendo reconhecida. Pensou novamente em passar a andar de peruca e óculos escuros. O problema é que odiava peruca desde que soubera que em São Paulo havia assalto de cabelo. Perambular por aí coberta por cabelos roubados certamente daria azar, e azar era tudo que ela não queria agora que estava quase conseguindo comprar um apartamento nos Jardins. Talvez fosse melhor ir de táxi, mas sairia caro no fim do mês, e ela teria de economizar em roupa ou comida, o que seria um tremendo sacrifício. Agora que se acostumara a um almoço decente, não queria voltar a viver de esfirras e sanduíches.

O sujeito mal encarado saltou depois de algumas estações, e ela ficou mais tranqüila. Voltou a pensar na decoração do apartamento que estava prestes a comprar. Gostava muito de cozinha americana, mas o sofá devia ficar com cheiro de gordura, e seria horrível ver televisão ou descansar ou fazer as unhas sentindo cheiro de gordura. E quando sua mãe a visitasse, provavelmente diria algo como “por que você não põe uma divisória nessa cozinha?” ou “por que você não troca o estofamento do sofá? Está fedendo!” Com isso concluiu que uma cozinha separada era melhor. Se a sala fosse grande, ela poderia colocar uma mesa, e serviria o jantar ali, quando recebesse as amigas.

Só voltou a pensar no problema do reconhecimento quando entrou no estúdio, e um dos técnicos a cumprimento pelo nome artístico. Decidiu que ia perguntar ao Lucélio se não dava para mandar um motorista buscá-la e levá-la em casa. Alegaria que precisava de privacidade, estava sendo a toda hora reconhecida pelos fãs, que a cobriam de convites indecorosos. (Era mentira; mesmo depois de quatro anos fazendo filme, ela fora reconhecida uma única vez, por um sujeito tão tímido que não ousaria sequer chamá-la para um café com leite.)

Quando a maquiadora começou a passar o rímel, ela pensou duas coisas: para quê tanto capricho na maquiagem, se os homens só iam prestar atenção no sexo? E por que a maquiadora a tratava com tanta frieza? Afinal, quem pagaria o salário dela, se não fossem as atrizes?

Na cena de sexo oral, ela fechou os olhos e lembrou de um sofá lindo que vira na Style Decor, por apenas três prestações de quinhentos e poucos. O estofado era de um azul tão suave que dava até um pouco de sono. Era tudo que ela queria para sua sala, estava cansada de viver cercada de tanto vermelho. Quando o ator gozou em seu rosto, ela ficou se perguntando quanto custaria uma boa banheira. Depois de dançar, o que ela mais gostava era um bom banho quente. Teria uma banheira em casa, nem que precisasse fazer filme por mais dez anos!

No intervalo, o direitor parecia de ótimo humor. Pediu pitsa para todo mundo, fez uns comentários engraçados com a maquiadora, falando que ia abrir uma linha de filmes com gordinhas. Ela riu deliciosamente, e achou que era um bom momento para falar no lance do motorista. Estava enganada. Quando ela falou a palavra “motorista”, Lucélio a fulminou com os olhos, depois perguntou: “sabia que eles exigem previdência? No fim das contas sai mais caro que um ator!” Ela não estava segura de saber o que era previdência, e apenas riu, tentando disfarçar a decepção.

Na cena de dupla penetração, houve um momento em que ela olhou para o teto e reparou pela primeira vez que no estúdio havia sancas de gesso. Sua mente disparou automaticamente algumas perguntas: "será que é muito caro? Mais quanto tempo de trabalho?" Daí ela lembrou que não queria trabalhar depois dos trinta; precisaria de um tempo para ter filhos. Tentou fazer mentalmente algumas contas para estimar quanto ganharia até lá, mas não conseguiu. Quando voltou a si, um dos caras já estava gozando, e ela pensou: "Meu Deus, foi muito rápido, o Lucélio vai querer gravar de novo." Mas o Lucélio não falou nada, e ela ficou aliviada.

No metrô, de volta para casa, ela usou a calculadora do celular, e fez as contas sem dificuldade. Até os trinta, daria para pagar o apartamento, e talvez ainda sobrasse para um smart. Ser reconhecida de vez em quando era um preço que valia a pena pagar. Depois dos trinta, ela pretendia largar a carreira, e se dedicar de verdade a encontrar um marido; de preferência de olhos azuis, com um corpo bem cuidado, e um apartamento um pouco maior que o dela.


Entrou no seu conjugado bastante cansada, mas ainda deu tempo de mandar um email para aquela amiga que vendia cosméticos. O esfoliante estava acabando, e ela precisava encomendar mais um. Depois tomou um banho rápido, sem lavar os cabelos, e foi se deitar. Não demorou a dormir; estava exausta. Hoje foi apenas mais um dia em que ela pensou em sexo. 

sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

Um leve exagero


Quando eu estava passando perto da Parmê, vi um cartaz com uma foto de fetuccine, e tive uma forte impressão de que eu estava com vontade de comer — mas muito forte mesmo, como se fosse fome. Entrei e pedi um fetuccine com filé de frango, pensando em comer só metade. Mas foi só eu lembrar como tem gente passando fome, que não tive coragem de deixar sobra no prato. Matei tudo, e já ia pedir a conta quando notei que eles agora estão servindo musse de manga. Eu nunca tinha comido, e resolvi experimentar. Ia pedir com um café expresso, mas o garçom falou que a máquina de café estava estragada, então acabei pedindo com um milkshake pequeno de chocolate. Não sei por quê, chocolate me lembra café. Consigo substituir um pelo outro, na maior facilidade. O que nunca consegui é passar mais de um dia sem um dos dois.  

Depois eu estava voltando para casa, e resolvi passar no Empório Árabe, para levar um pouco de homus e beringela defumada. Adivinha quem eu encontrei lá? Isso o mesmo, o Beto, o Marcos Flávio, a Irene, o pessoal estava todo lá. Tive que sentar para tomar uma cervejinha com eles. E a cerveja me abriu o apetite, e resolvi experimentar os tais quibes de coalhada que todo mundo está comentando desde que o Empório foi inaugurado. Meus amigos adoraram, e até aproveitaram para me apresentar ao patê de azeitona preta, que também é muito comentado, só que eu já não achei grande coisa. Mas claro que comi, para não fazer desfeita; por isso cheguei em casa sem fome nenhuma, e fui logo falando para minha mulher que eu não ia jantar. Ela me olhou com uma cara tão esquisita, que parecia que eu estava cometendo um crime. 

— Você está louco, amor? Claro que não vamos jantar. Hoje é o primeiro dia do Festival Gastronômico da Zona Sul. Vamos agora para o Folle Plat, eles já devem estar começando a servir alguma coisa.

Enquanto eu tomava um banho rápido, percebi nitidamente que já não cabia mais nada no meu estômago. Ah, mas meu estômago não ia fazer aquilo comigo! Era um festival anual, eu não podia perder um evento daqueles por causa do capricho de um dos meus órgãos. Saí do banheiro e fui direto em cima de dois antiácidos. Quando minha mulher perguntou o que eu estava fazendo, claro que não falei nada sobre meu encontro com o pessoal no Empório. Eu conheço minha mulher, ela ia falar que eu esqueci do festival, que eu não ligava para os programas dela, que eu passava mais tempo com meus amigos que com ela... enfim, essas picuinhas de mulher.

No Folle Plat estavam servindo umas torradinhas com foie gras, e eu fiquei indignado, porque aquilo não era coisa de festival! Foie gras eu já como quase todo dia. Comentei com a Jussara, mas ela ponderou: — Você não notou, amor? Esse é com raiz forte, é completamente diferente. Realmente eu não tinha notado. Depois veio um ravióli de pato que, esse sim, eu nunca tinha provado, e estava delicioso! Minha mulher ficou reclamando que devíamos ter pedido um merlot, porque o pato não combinava com o cabernet chileno que o sommelier tinha indicado. Claro que eu concordei na hora. Não tenho paladar para vinhos, e não queria que ela percebesse que eu estava louco por uma coca-cola. Depois do chessecake de amora (que também me decepcionou; isso eu como todo dia) minha mulher encontrou umas conhecidas, e vi que era uma boa hora para aplicar o golpe do cigarro. Falei que eu ia fumar um pouquinho lá fora, e pedi a um garçom para me levar uma coca zero. Na calçada fiquei pensando que eu devia voltar a fumar de verdade; depois que eu como me dá uma vontade tremenda de sentir aquele gostinho do cigarro. Mas lembrei da Jussara buzinando no meu ouvido que cigarro faz mal para os meninos, que é um péssimo exemplo, e não sei mais o quê, e decidi ficar só na coca mesmo. Minha mãe bem que me avisou que eu não devia casar com uma mulher vinte anos mais jovem. Essa nova geração pensa completamente diferente. Ah, mas minha mãe nunca viu a Jussara nua, nunca viu como os mamilos dela ficam quando ela está excitada. Tem coisas que mamãe nunca vai entender...

Quando eu estava voltando para o mezanino, senti uma dor no peito, que foi um troço incrível. Cheguei a pensar que eu ia ter um infarto, e fiquei alguns segundos despistando na escada,  fingindo que eu estava tossindo. Foi nesse momento que uma força misteriosa agiu sobre mim. Sinceramente, eu tenho pena de quem não acredita em Deus. Quem não acredita, não entende esses momentos mágicos. Eu fui sentindo um calor no peito, uma palpitação, depois uma pressão, quase uma cãibra, e então... vagarosamente... deliciosamente, saiu aquele arroto fenomenal. Não pensem que eu fiz barulho, pelo amor de Deus! Eu estudei no Santo Inácio! Foi um arroto suave, silencioso, embora constante, convicto, eficiente, quase espiritual. Me senti tão leve que subi o resto da escada saltitando. Quando sentei à mesa, minha mulher já tinha pedido a conta, e fiquei pensando em como eu dormiria soberbamente depois daquele dia incrível. Quibes de coalhada, raviole de pato, chessecake... Acho que o vinho tinha me dado sono, e minha mulher certamente estava notando, porque perguntou: — Você não está com sono, está? Temos que ir agora para o Piacere Reale! As meninas me falaram que eles estão servindo uns caldos incríveis!

Eu não ligo para caldos, mas lembrei do meu pequeno milagre na escada, e pensei: “Quer saber? Depois de um arroto daqueles, eu topo qualquer coisa.” 

E topei mesmo. O caldo de moranga estava uma delícia, o de lentilhas também. Mas nada superou o de feijão branco com calabresa!  Claro que eu me controlei: não toquei nas torradas. Comi só uns pãezinhos de alho, e depois um queijinho provolone para acompanhar o licor. Minha mulher adora o Poire Williams, eu estou acostumado com o Cointreau, e preferi manter a tradição. Depois já íamos pedir a conta, e a Jussara exclamou: — Amor, e a sua grapinha? Não é aqui que servem aquela grappa que você diz que é maravilhosa? — Deus do céu, eu tinha esquecido completamente. No Piacere servem aquela grappa divina que vem direto de uma aldeia da Sicília. Mas eu já estava sentindo uma coisa estranha, uma certa indisposição. Falei com minha mulher que eu ia arrematar com a grappa, mas depois de um cigarrinho, e saí pensando na minha coca-cola. Foi aí que cometi um erro terrível, uma coisa idiota mesmo! Em vez de conversar numa boa com o garçom, eu pensei em comprar a coca num quiosque da praia. Estávamos a uma quadra do calçadão, e achei que seria até bom tomar a coca lá, depois voltar caminhando lentamente, dando um tempo para um novo milagre. Tudo ia muito bem, quando eu senti novamente aquela estranha pressão no peito, aquele cansaço inconveniente. Fiquei me perguntando se Deus tinha invertido o milagre, e o arroto viria antes da coca. Para Ele nada é impossível. Mas aí me veio uma fraqueza nas pernas, eu vacilei, meio tonto. Os passantes devem ter rido muito do sujeito de sapatos e calça social que, de repente, ficou de quatro em pleno calçadão. Precisei me deitar por um instante, e quando vi aqueles rostos assustados, falando em ambulância, tentei gritar que eu só queria uma coca, e tudo ia ficar bem em questão de minutos. Mas acho que eles não me ouviam, porque eu também não ouvia nada, e depois de um silêncio ritmado, que parecia barulho de mar, veio também um escuro completo, avassaldor. Quando eu acordei já estava no hospital.

Os médicos me explicaram que não foi infarto, apenas faltou um pouco de sangue num músculo do coração. É coisa à toa, que um stent resolve sem dificuldade. Minha mulher mais uma vez brigou comigo, porque eu não falei que estava passando mal, e não sei mais o quê. Ora, por que eu não falei? É óbvio por que eu não falei. Eu ia deixar uma tontura de nada estragar o primeiro dia de festival gastronômico?!


E por falar nisso, o Festival é até domingo. Já conversei com o doutor Danilo, ele disse que me libera no máximo amanhã. Vocês já ouviram falar do canelone de amêndoas do Sapore Romano? Me disseram que estão servindo com um molho difenciado, por causa do Festival. E no Gustosità tem aquele tiramisu maravilhoso! Tenho certeza que Deus vai me ajudar. Não posso perder essa de jeito nenhum!


quarta-feira, 29 de setembro de 2010

Controle Remoto

Quando surgiu o controle remoto, no final dos anos setenta, Macaulay não deu muita bola. Achou que levantar para mudar de canal era no mínimo um bom exercício, e não valia a pena pagar o dobro numa televisão, só para ter o prazer de comandá-la à distância. Porém, com o tempo, o preço caiu bastante, e o número de canais só aumentou. Mac, como o chamava sua mulher, acabou cedendo, e aderiu à moda sem maiores dificuldades. Desde então, seu entusiasmo pela tecnologia não parou de crescer. Quando o microcomputador surgiu, nos anos oitenta, ele foi um dos primeiros compradores. Também foi pioneiro quando os telefones celulares começaram a tocar nos restaurantes e cinemas, no final dos noventa. Em 2004 fez um curso de webdesign e, quando se aposentou, em 2009, trabalhava criando aplicativos para smartphones. Na velhice havia se tornado um entusiasta de novas tecnologias, e assinava revistas especializadas, que tratavam desde livros digitais até viagens intergalácticas. Foi por meio delas que descobriu o que era criogenia, e, para desespero de Zelda, nunca mais conseguiu pensar em outra coisa. Chegou a mudar seu círculo de amigos, porque os retrógrados não adeririam à idéia nem depois que o preço caiu para menos que o de um condicionador de ar. Sua maior decepção, sem dúvida, foi não ter convencido a mulher, e, depois de inúmeras discussões, ficou decidido que os dois não falariam mais no assunto, para evitar aborrecimentos. Afeita a seitas esotéricas e idéias orientais, que Macaulay chamava simplesmente de superstição, Zelda fazia questão de defender seu direito a morrer em paz. Argumentava que: ou haveria vida após a morte – e essa seria um pouco melhor – ou haveria o descanso eterno, sem nenhum espaço para saudade. As duas opções seriam melhores que acordar num mundo assombrado por andróides e infestado de aparelhinhos irritantes que seus donos já nem lembrassem para que serviam.

Macaulay respeitou o direito da mulher, mas sempre que se encontrava com os amigos não deixava de expressar sua profunda frustração: – Ela não acompanha o progresso da medicina, não vê que é apenas questão de tempo até conseguirem fazer um transplante de cérebro!

Os amigos concordavam. Sim, era absurdo. Ela preferia morrer a dar um pouco de crédito à ciência. E agora estava tão barato, apenas quatrocentos dólares por ano! Que mulher mesquinha.

Mas Zelda também respeitou a decisão do marido, e guardou com cuidado o telefone da equipe de criogenização. Um dia Mac sentiu uma palpitação e lembrou à mulher: – Quando minha hora chegar, não vá esquecer de chamá-los, hem! Depois tomou seu comprimido para pressão, e ficou estranhamente taciturno. Sua mulher logo se preocupou: – O que foi, querido? Por que esse silêncio todo? O homem resmungou um pouco, depois desabafou: – Zelda, você vai casar de novo? – O quê?! – Quando eu for criogenizado, você vai arrumar outro marido? A mulher ficou até lisonjeada. – Ora, o que é isso, Mac! Eu tenho sessenta e quatro anos, você acha que eu ainda penso nessas coisas! – Sei lá, de repente você encontra um velho que nem você, que goste dessas bobagens orientais. – Ora, Mac, não seja bobo!

Zelda cortou o assunto, mas naquela noite dormiu até melhor. Nos dias seguintes começou a considerar a criogenização com mais simpatia. Mac, afinal, era um bom marido, sempre trabalhara e arcara com as maiores despesas do lar. Não era justo deixá-lo sozinho. Devia ser muito triste passar anos trancado naquele tanque de nitrogênio líquido. E se ele acordasse mesmo no tal futuro, será que se acostumaria a falar com andróides? Como ele se sustentaria? Sua aposentadoria se tornaria vitalícia? Dúvida e compaixão se alternaram no coração da velha, e ela concluiu que, se o marido insistisse mais um pouquinho, ela acabaria indo para o tanque com ele. Não por ela, que detestava qualquer aparelho com mais de quatro botões, mas pelo seu velho Macaulay, que sozinho não conseguia nem achar os óculos. Alguém tinha que cuidar dele, e se fosse preciso passar séculos imersa em nitrogênio líquido, ela estava disposta a fazer esse sacrifício. Decidiu que explicaria tudo ao marido assim que ele viesse com mais uma especulação cansativa sobre o futuro.

Não podia imaginar que o destino lhe negaria essa oportunidade. No dia seguinte, Macaulay estava vendo televisão, quando de repente o controle remoto parou de funcionar. As pilhas se esgotaram, e ele teve que se levantar para mudar de canal. Mas seu coração, muito desgastado, não suportou o pequeno trajeto. A dor no peito foi até fraca, comparada às outras que vieram após a queda. Contudo Macaulay lamentou mesmo foi a perda da fala, porque o rosto de Zelda, nos momentos finais, parecia mais consternado que ele esperava. O velho te
meu que ela tivesse perdido o telefone da equipe. Mas seu receio não durou nem dez segundos. Logo ele mergulharia numa calma profunda, sem sonoridade, sem luz, sem nada que pudesse deixar uma lembrança.

Quando acordou, a primeira coisa que viu foi um teto branco, depois notou que ele não era branco, seus olhos é que estavam se acostumando à iluminação. Parecia estar num hospital, e chegou a lamentar que tivesse apenas passado por mais um infarto. Uma voz de mulher o saudou – Bom dia, senhor Smithson. Em breve uma de nossas enfermeiras falará com o senhor – e ele ficou mais aliviado, porque pelo menos era um hospital moderno, com dispositivos eletrônicos que sabiam que ele tinha acordado. A enfermeira era linda, e Macaulay quase não entendeu o que ela dizia, de tanto que ficou vidrado no movimento suave e ritmado dos seus lábios. Quando ela parou de falar, ele arriscou um comentário engraçadinho.

– Ah, minha querida, se eu tivesse apenas uns dez anos a menos, não saía daqui sem o seu telefone. 
– A resposta da garota acelerou seu batimento cardíaco, que ele podia acompanhar num pequeno monitor ao lado da cama.

– Senhor, devo avisá-lo que sou uma andróide. Neste pequeno panfleto o senhor encontrará informações sobre minha companhia. Caso tenha interesse, poderemos fabricar uma andróide com noventa e nove por cento de semelhança com a senhora Smithson, inclusive no sotaque e nos hábitos mentais.

Em seguida a beldade abriu um pequeno armário, e informou: – Esses são os pertences que a senhora Smithson considerou que seriam de interesse pessoal do senhor. Aqui está o cartão de outra companhia que poderá reconstruí-los caso algum deles venha a se desfazer. Ainda em estado de choque, Macaulay perguntou: – Quando ela morreu? – O senhor se refere à Sra. Smithson? – Claro que me refiro à minha mulher, sua máquina estúpida. De quem mais eu estaria falando? – Me desculpe, senhor. Eu precisava confirmar. Ela morreu em 2021. Fará exatamente 218 anos no dia 21 de outubro de 2239.

Ele ia perguntar quanto tempo ficou dentro da câmara de criogenização, mas as palavras simplesmente não saíram. Pela primeira vez lhe ocorreu que o futuro talvez não fosse tão hospitaleiro quanto ele tinha pensado. Ficou alguns segundos contemplando seus objetos pessoais, que eram um leptop, um chapéu de caubói, algumas fotos de Zelda e um controle remoto de televisão.

Os dias seguintes foram de descobertas paradoxais. Quanto mais Macaulay conhecia coisas novas, mais lhe parecia que o mundo no fundo continuava o mesmo de sempre. Havia mais jardins, as pessoas trajavam estranhos macacões de plástico. Óculos inteligentes – chamados smartglasses – substituíam a televisão, os jornais e quase tudo relacionado a informação. Mas continuava a haver pobres e ricos, e o velho descobriu que precisaria voltar a trabalhar. Depois de alguns meses de treinamento, ele não teve dificuldade em se adaptar, e se tornou inspetor de qualidade numa fábrica de petbots (eram robôs que acompanhavam as pessoas filmando e gravando tudo que elas faziam, para consulta pessoal ou para servir de prova em caso de processos judiciais). Sua maior dificuldade era parar de pensar no passado. Quando ficava sozinho, punha-se a olhar suas fotos antigas, e como não lembrava muito bem dos seus sentimentos, começou a pensar – e até mesmo a acreditar – que tinha sido feliz. A Zelda das fotos tinha seios firmes e um sorriso encantador, não lembrava em nada a mulher rabugenta e entediante que havia se tornado mais tarde. Ele mesmo parecia contente entre os amigos, tinha um riso modesto e franco, um rosto descontraído, parecia um homem realizado. O futuro, por outro lado, era apenas um conjunto de rotinas maçantes que intensificavam sua sensação de vazio e solidão. Um dia recordou os argumentos de sua mulher sobre a morte, e se pegou pensando que, afinal, ela podia ter razão. 
Morrer não seria mais fácil que se cercar de atividades cada vez mais complexas para conservar a vida?

Daí para a tentativa de suicídio foi apenas um passo. Se Macaulay ainda está vivo é porque ressuscitar uma pessoa agora é tão banal quanto acender um fósforo. Depois de muita terapia e alguns órgãos substituídos, ele acabou consentindo em tentar de novo. O problema, como lhe explicaram os psicanalistas, era sua tendência a idealizar o passado como um estado paradisíaco, sem conflitos e contrariedades. Parece que Macaulay fazia agora com o passado o que no passado fizera com o futuro.

Foi também na terapia que ele descobriu uma forma criativa de lidar com essa tendência. Começou a escrever romances de época, que logo cativaram a todos pela riqueza de detalhes históricos. No futuro, familiarizados com os comandos por movimento de íris, todos adoram ouvir uma boa história sobre controles remotos. O próprio exemplar de Macaulay valeria uma fortuna se ele quisesse vender. Mas ele garante que nunca se desfará do objeto. Depois de duas ressurreições, ele começou a acreditar que certas coisas têm, para além de sua função imediata, um imensurável valor sentimental.

segunda-feira, 31 de maio de 2010

A menina 2D

Quando a menina do espelho começou a conversar comigo, meu tio já tinha sofrido aquela crise, e fui esperta o bastante para não falar dela para ninguém. Eu não estava nem um pouco a fim de passar semanas numa clínica, depois viver entupida de comprimidos, e ser tratada feito criança por todo mundo. Aliás, eu estava entrando na adolescência e tudo que eu queria era ser tratada como adulta. Falar sobre a menina do espelho, contar que ela me dava uns conselhos maneiros — embora às vezes meio radicais — seria praticamente pedir que me internassem. Eu acabaria que nem o pobre do tio Sélton, que agora não tinha emprego e ficava falando que era artista. Por isso eu trancava a porta para conversar com ela, e não contei nem para a Josilene, minha melhor amiga, que a menina do espelho existia.

O que mais me impressionava nem era que ela morasse no espelho, mas que ela acertasse todas as suas previsões. Ela foi a primeira a falar que minha mãe ia acabar pedindo o divórcio e que minha irmã ia voltar do exterior ainda mais pobre que antes. Também previu que meu pai ia ficar muito solitário depois da separação, e acabaria gostando bem mais de mim. Eu ficava súper contente em ter uma amiga daquelas, e morria de vontade de contar para as meninas, mas aí eu lembrava do tio Sélton, e tratava de ficar calada. Eu adorava minha amiga secreta, e o silêncio era o sacrifício que eu tinha que fazer para a gente continuar se vendo.

Depois eu fui crescendo, e comecei a consultá-la para coisas cada vez mais sérias. Quando fiz dezoito anos, por exemplo, todas as minhas amigas já tinham silicone, e eu sentia que também já estava precisando. O que não tinha crescido até os dezoito, provavelmente não ia crescer depois. Meu pai, naquela época, andava um amor comigo, adorava me encontrar nas baladas e ser apresentado às minhas amigas. Claro que elas não queriam nada com ele, mas eu falava que elas o achavam uma gracinha, um coroa muito fofo, e ele ficava todo feliz, rindo que nem sambista de televisão. Para minha surpresa, ele não se opôs à cirurgia, apenas perguntou se dava para parcelar no cartão de crédito. Minha mãe é que ficou contrariada, e começou a jogar uma conversa pessimista para cima de mim. Tentou me fazer medo, disse que o silicone podia estourar, que ia prejudicar a produção de leite, que podia tirar a sensibilidade da pele. Hoje sei que era tudo mentira, mas na época eu fiquei assustada, e fui correndo consultar a menina do espelho. Como sempre, ela foi bastante lúcida. Explicou que minha mãe estava era morrendo de inveja, porque meu pai pagava tudo para mim, e não queria nem conversar com ela. Falou que os meninos me dariam muito mais atenção, e isso ia botar minha auto-estima lá nas alturas. Não demorei a perceber que ela tinha toda razão. Coloquei apenas trezentos mililitros em cada seio, mas isso bastou para que mil garotos pedissem meu telefone, e falassem de mim o tempo todo, como se eu fosse uma dessas mulheres do Big Brother. Todo dia eu agradecia à menina do espelho, e ela ficava me elogiando e me olhando com tanta atenção que até fiquei especulando se ela não era bi. Mas eu não tinha que me preocupar com isso, afinal, ela morava no espelho, e de lá de dentro não dava nem para me passar a mão.

Mas foi só eu pensar nisso que comecei a sentir pena dela. A coitada ficava enclausurada naquele espelho, não podia ir para a balada, não pegava ninguém, não conversava com ninguém a não ser comigo. Sinceramente, eu morria de dó. Às vezes, no meio de uma balada ou de uma festinha, eu ia para o banheiro e contava para ela tudo que estava acontecendo, só para ela se distrair um pouco. De início ela gostava, me ouvia com atenção, e fazia observações interessantes sobre as minhas aventuras. Mas, depois de um tempo, ela começou a falar umas coisas estranhas, ficava me depreciando, enxergava defeito em tudo. Quando eu contava que algum carinha estava me cantando, ela perguntava:

— Você ainda gosta disso? Não está cansada desses joguinhos?

Quando eu contava alguma briguinha com a minha mãe, ela apelava:
— Você ainda não percebeu que ela quer você saia de casa? Você já não está muito velha para morar com a mamãe?

Eu achei que ela estava ficando muito amarga, por isso nem comentei quando conheci o Fernando. Ele era mais velho, tinha um Audi, e trabalhava de executivo numa importadora. Eu não sabia direito o que era executivo, mas nem quis saber quando vi o apartamento lindo que ele tinha no Leblon. Era um quarto-e-sala súper espaçoso. No quarto tinha cama de casal, e no banheiro tinha até bidê. No dia que a gente transou no sofá, eu fique pensando: “Nossa, como essa sala é grande! Se eu morasse aqui, com certeza poderia trazer minhas amigas para ver um filme.” Quando a gente transou na cama de casal, eu estiquei bem os braços e fiquei passando as mãos no lençol. Ele deve ter achado que eu estava gozando, mas eu estava medindo a largura da cama, e pensando que dava tranqüilo para a gente dormir ali sem incomodar um ao outro. Minha alegria culminou no dia que dei uma desculpa para ir à cozinha, e abri a geladeira dele. Meu Deus, tinha tudo que eu adorava comer: palmito, tomate seco, mussarela de búfala! Desde aquele dia foi como se eu estivesse apaixonada, porque comecei a pensar só no Fernando, a sonhar com o Fernando, e a tentar fazer absolutamente tudo para agradar o Fernando — incluindo engolir um bocado de sêmen. Não importava se ele não fosse o homem da minha vida, ele era a porta para o apartamento da minha vida!

Mas não fui boba de contar essas coisas para a menina do espelho, porque, do jeito que ela andava amarga, com certeza ia me encher de críticas. Ia falar que eu não amava o Fernando e via nele só uma solução para sair da casa da minha mãe. Ia inventar que ele também não me amava, e estava apenas obcecado pelo prazer que eu lhe dava na cama. Para evitar essas discussões, passei a só cumprimentar a menina do espelho, e quando ela me perguntava alguma coisa mais íntima, eu dava uma desculpa, e virava as costas. Eu já era uma adulta, já estava na hora de tomar minhas decisões sozinha.

Fiquei um tempão sem falar com ela, e não contei como foi o meu casamento, nem como minha mãe ficou contente quando eu me mudei. Não confessei minha enorme decepção com a minha mãe, que nem queria saber se eu estava feliz, só estava louca que eu achasse outro lugar para morar. Não falei das inúmeras piadas que minha irmã ficou fazendo, só porque o Fernando era quase vinte anos mais velho que eu. E também enfrentei calada o preconceito das minhas amigas, que diziam que, se elas quisessem coroa, era só estalar o dedo que vinham duzentos. Mas eu não me ofendia com esse papo. Elas até podiam pegar coroa, mas quantos queriam levá-las para morar com eles? Eram uma burras, umas fúteis, não sabiam fazer um ravióli ao molho de funghi ou um petit gateau com sorvete. Tinham nascido para aqueles burros malhados que só serviam para motobóis. Mas não comentei nada disso com a menina do espelho, porque eu sabia que ela ia me chamar de arrogante, e talvez até insinuar que eu não era assim tão diferente das minhas amigas.

Fui perdendo o contato com elas, e comecei a gostar de literatura. Passei a ler uns livros antigos e demorados que não tinham nada a ver com vampiros ou lobisomens. Fui descobrindo um monte de mulheres que tinham vivido os mesmos problemas que eu, e aquilo me dava um tremendo alívio. Ler era bem mais seguro que falar com o espelho, porque eu podia ver os problemas dos outros, sem que ninguém visse os meus. Acho que esqueci completamente a menina do espelho, de tão fascinada que eu ficava com aquelas estórias de jovens que queriam casar, e casadas que queriam ter amantes.

Nessa época, o Fernando adorava a minha comida, e falava que eu não precisava trabalhar, que eu devia ficar só cozinhando e cuidando da casa. Se eu aceitava essa idéia, era porque queria ler cada vez mais, e depois fazer uma faculdade de psicologia ou letras. Mas, às vezes, a leitura ficava chata, e eu comecei a entrar na internet, e puxar assunto com estrangeiros. Pensei que o Fernando nunca ia ter ciúme de estrangeiro, porque um cara que estivesse do outro lado do mar podia até me cantar, mas não poderia nem me encostar a mão. Eu só conversava com eles para praticar meu inglês e pedir dicas de livros. O problema é que pintavam uns caras meio depravados, que ficavam pedindo para eu fazer umas coisas indecentes. Uns queriam que eu ficasse só de calcinha, outros pediam que eu me masturbasse na frente da câmera. Claro que eu me recusava. Eu confesso que algumas propostas chegaram a me excitar, mas eu não estava nem um pouco a fim de entrar em crise com o Fernando, e ter que voltar a morar com minha mãe. Quando eles vinham com aquele papo estranho, eu desconversava e começava a falar sobre livros. Foi assim que eu fiquei sabendo da Jane Austen, da Emily Brönte, e de outras mulheres que pareciam bem mais infelizes que eu. Depois alguém me indicou umas autoras iranianas, e quando li os livros delas, aí sim, me senti satisfeitíssima com a vida! Meu Deus, como tinha mulher infeliz no mundo. E eu tinha aquele apartamento arrumadinho, morava no Leblon, ia ao cinema todo sábado. Só sentia falta de sair para dançar, mas isso eu resolvia colocando uma música bem alta para arrumar a casa. Comecei a me sentir bem comigo mesma, e até pensei em voltar a falar com a menina do espelho, só para ter uma companhia.

Mas eu não devia ter pensado nisso, porque umas coisas muito estranhas começaram a acontecer. Já no dia seguinte recebi uns emails de caras da internet, agradecendo minha perfórmance, dizendo que eu tinha arrasado, que tinha sido incrível para eles, e não sei mais o quê. Eu não fazia idéia do que eles estavam falando, e achei que eles tinham pirado de ficar tanto tempo na internet. Mas toda semana chegavam mais emails, pedindo para eu fazer mais, alguns oferecendo até dinheiro, e fiquei feito louca perguntando o que estava acontecendo, de que diabo eles estavam falando. Quando um cara me contou, eu simplesmente não acreditei! Lógico que não era eu! Ou eles estavam me confundindo ou era uma puta alucinação coletiva! Mas logo me bateu uma intuição de que a menina do espelho podia ter alguma coisa a ver com aquilo, e fui correndo no banheiro tirar satisfação com ela.

— Pode aparecer, e me explicar tudo que está acontecendo — eu mandei.

O que mais me impressionou foi que ela admitiu tudo sem a menor vergonha. Eu fiquei súper chocada, não conhecia esse lado pervertido dela.

— Coitados desses moleques — ela alegou. — Eles são uns nerdes, nunca devem ter visto uma mulher pelada. Quê que custa mostrar um pouquinho para eles?
— Ah, você é louca, é?! Você vai me dizer que usou a minha imagem para ficar se exibindo pela internet?!
— Lamento, minha filha, mas a imagem que eu tenho é essa. Não posso usar outra.

Mas ela falou aquilo de um jeito que quase me matou. Uma espécie de satisfação maldosa, misturada com escárnio. Eu percebi que ela tinha prazer em se passar por outra, em poder ser uma completa fraude, sem levar culpa nenhuma por isso. Me subiu uma raiva tão grande que, se ela não estivesse fechada dentro daquele espelho, eu tinha enfiado a mão na cara dela! Foi aí que eu lembrei que ela morava dentro do espelho. Como é que a safada tinha entrado na minha webcam? Perguntei na mesma hora, e tive que engolir um papo suspeito.

— Eu não moro só no espelho — ela falou. — Eu posso me projetar em qualquer superfície plana que produza uma imagem dotada de sentido. Os monitores são superfícies planas, e produzem imagens que... bem, você entendeu, não é?

Mas eu não tinha entendido direito. Que papo era aquele? Superfície plana, imagem dotada de sentido?! Além de safada, a putinha agora era filósofa?!

Fiquei meio transtornada, e passei dias sem usar o computador. Meu medo era que o Fernando descobrisse alguma coisa, e achasse que a culpa era minha. Passei a ter ódio da menina do espelho. Não era justo que essa loucura toda pudesse acontecer. Ela podia aparecer em qualquer tela por aí, e todo mundo ia achar que era eu. Comecei a ficar súper tensa quando pensava nisso, e passei a buscar mais e mais sexo com o Fernando, para me aliviar, e para ver se eu parava de pensar no assunto. Aliás, depois que a gente se casou, ele já não fazia muito, e aquilo às vezes me incomodava. Não que eu gostasse de sexo, porque eu não gostava, mas era uma das poucas coisas que me deixavam com uma sensação de dever cumprido. Eu não trabalhava, não estudava, passava os dias lendo e acessando a internet. Quando fazíamos sexo, eu pensava: “Pelo menos isso eu sei fazer. Pelo menos consigo satisfazer meu marido.” Mas o problema é que ele já não estava querendo, e aquilo acabava me deixando nervosa. Um dia insinuei que de vez em quando ele bem que podia tomar um viagra. Eu não conhecia tanto os homens, e não sabia que isso era suicídio. A partir daquele dia, tudo mudou no nosso casamento. O Fernando passou a ser ciumento, me ligava toda hora, perguntava onde eu estava. Quando a gente ia numa festa, ele ficava me olhando de longe, depois falava que eu tinha olhado para fulano ou ciclano. Claro que era tudo loucura da cabeça dele, e eu ficava puta de ter que me explicar mil vezes, falar que eu o amava, pedir perdão o tempo todo pelo papo do viagra. Fui ficando cansada dele, e me sentindo cada vez mais incompreendida. Agora eu não tinha nem a menina do espelho para me entender. Mas o pior era que eu nem podia me separar. O apartamento era dele, se eu pedisse o divórcio, ia ter que voltar a morar com minha mãe. Tudo era aceitável, menos conviver de novo com minha mãe, principalmente agora que ela tinha arrumado um namorado mais novo e estava matando a família de vergonha. O jeito era tentar um emprego, e eu sabia que nunca ia conseguir um bom salário, porque não tinha faculdade. Mas era a única alternativa que me restava. Talvez juntando por uns dez anos, eu conseguisse comprar um apartamento, e ter uma vida só minha. Eu queria esquecer o Fernando, com aquele ciúme doentio, e minha mãe, com aquele egoísmo, sei lá, doentio também. Aí entrei na internet e comecei a me inscrever nos saites de emprego. De repente, quem apareceu no meu monitor e começou a falar comigo? Sim, ela mesma, a garota de espelho. Lembrei daquele papo sobre superfície plana, e falei que era melhor começar a chamá-la de menina 2D.

— É mais apropriado mesmo — ela falou. — E mais contemporâneo também.

Não sei de onde a putinha tirava essas palavras. Eu ainda estava meio irada com ela, mas não estava muito a fim de brigar. Minha situação era deprimente, e talvez ela pudesse ser de alguma ajuda. E acho que ela adivinhou esse pensamento, porque do nada resolveu me passar o endereço de alguns saites.

— Entra neste aqui ó: “stripweb.com” E neste: “meancams.com”.

Quando entrei nos saites, me arrependi na hora de ter dado papo para aquela putinha. Era só mais uma das idéias pervertidas que ela tinha.

— Você acha que eu sou que nem você, sua louca?! Acha que eu vou ficar fazendo strip pela internet, só para ganhar dinheiro?

— Não é só strip — ela falou. — Tem que se masturbar também.

Eu nem respondi. Desliguei o computador e fui para a cama chorar. Meu casamento era um fracasso, eu não tinha uma carreira, e minha única amiga, que me conhecia desde criança, estava sugerindo que eu me tornasse uma espécie de prostituta. Chorei sem parar, depois fiz uma maquiagem meio trash, para o Fernando não descobrir que eu passei a tarde chorando. Mas justamente nessa hora ele me ligou, para falar que tinha um lance complicado rolando lá no trabalho, e ele ia chegar súper tarde. Aí voltei para o computador e olhei de novo aqueles saites. Meu marido bem que estava merecendo um chifrezinho. Ele não me amava, não ligava nem um pouco para meu estado emocional. Quando vi que uma menina podia ganhar uns trezentos por dia, só fazendo aquelas bobagens, eu quase caí para trás. Meu Deus, trezentos reais por dia! Em quanto tempo daria para comprar um apartamento?! Mas eu não podia fazer aquelas coisas, não tinha nada a ver comigo. Mostrar os peitos e me masturbar na frente da câmera?... Eu nem gostava de me masturbar! Foi então que me veio aquela idéia incrível. A idéia redentora, a idéia perfeita, que me mostrava como eu podia me aproveitar completamente daquela situação. Eu não era safada, não gostava daquelas indecências, mas ela gostava. Se eu entrasse no saite, e ficasse só conversando com os meninos, aposto que a menina 2D ia se excitar, e fazer um monte de loucuras! Ela podia se dar ao luxo desses descaramentos, porque a culpa sempre cairia em cima de mim. Mas a culpa agora era uma transferência bancária para a minha conta corrente. Vasculhei os saites, e peguei todas as informações. No dia seguinte, abri a conta. Mas continuo com a minha política, e não faço nada daquelas bobagens. Eu só entro no saite, e fico conversando sobre Jane Austen e mulheres iranianas. E ela faz o que gosta de fazer. Voltamos a ser amigas, e nunca estive tão feliz por conhecê-la. Acho que a menina 2D finalmente se tornou, para mim, uma imagem dotada de sentido.