quarta-feira, 3 de março de 2010

Como me tornei o marido de Heloísa

Eu amo Heloísa, e nisso definitivamente não sou original. Qualquer homem entre dezoito e cinqüenta anos pode amá-la sem dificuldade, pricipalmente se notar que ela não consegue levantar a voz — nem quando quer. Loira, alta, de olhos claros, sua beleza seria trivial, não fosse por um nariz exagerado e duas narinas pontiagudas que parecem vírgulas de cabeça para baixo. Aliás acho que foi esse nariz que a fez pensar, por um tempo, que poderia ser uma espécie de atriz cult. Embora formada em direito, ela acabou grudando nesse pessoal metido a artista, tão comum aqui no Rio, e que no fundo não passa de um bando de desempregados. Mas, quando eles apareceram com a idéia de um curta-metragem, ela ficou tão entusiasmada que acabei concordando em usar nossa poupança conjunta para bancar parte do filme. Dava gosto vê-la tão animada, e o roteiro, no fim das contas, não era dos piores. O protagonista descobre que sua mulher já havia trabalhado em filmes pornôs. Ele passa por alguns conflitos antes de perdoá-la, e chega a traí-la com a cunhada, numa vingança desesperada e inútil, tentando atenuar seu enorme sentimento de humilhação. Acho que gostei do filme porque ele me ajudou a compreender essa estranha adoração que eu sentia por Heloísa. Mesmo que ela me traísse, mesmo que me humilhasse marcantemente, eu me sentia impotente para deixá-la. As outras mulheres que passaram pela minha vida eram feias, ou de uma beleza banal, ou meio burras. Heloísa não era inteligente, mas tinha certo dom para fazer frases espirituosas que fascinavam a todos. Além disso, era divertida e capaz de me surpreender; e eu, que sou um homem rotineiro e pacato, preciso de alguém assim para me animar um pouco.

O curta-metragem acabou não dando muito certo, mas rendeu a Heloísa o convite para uma peça — que também teríamos de ajudar a produzir. Eu a incentivei bastante, pois naquela época cheguei mesmo a acreditar que ela queria ser atriz. Mas, assim que começou a ensaiar, ela não pôde deixar de perceber que o teatro exigia dedicação, autodomínio e alguma outra coisa misteriosa, que talvez seja o que chamam de talento. Isso a desanimou bastante, e ela acabou por providenciar, algumas semanas antes da estréia, uma sinusite, uma bronquite alérgica e não sei que outra "ite" que a salvaram de um vexame maior. Um dia cheguei em casa mais cedo e a surpreendi chorando no nosso quarto, encolhida na borda da cama, na posição fetal. Eu nunca entendi se ela chorava por ter perdido uma boa oportunidade ou por se dar conta que não tinha nascido para o palco. Mas fiquei feliz em estar lá para consolá-la. Sua carreira de atriz me causava certa aflição que eu já não estava conseguindo controlar. Quase chorei com ela, mas por dentro eu sentia alívio, e até certa alegria. Foi a primeira vez que pensei que, apesar de tanto tempo juntos, ainda sentíamos os acontecimentos de forma bem diferente.

Depois desse episódio, Heloísa foi ficando mais quieta, mais conformada com seu trabalho administrativo na Justiça Federal. Comecei a pensar que talvez fosse o momento de falar num filho. Mas esperei que a iniciativa viesse dela, porque, em todos os filmes que eu tinha visto, era a mulher que falava nessas coisas, e o homem até fingia contrariar, nem que fosse só para manter a pose. No entanto ela acabou não falando em filho, e, em vez disso, começou a escrever certos textos confusos que ela chamava de contos. Passou a frenqüentar um evento ainda mais confuso, chamado Clube da Leitura, e eu, com aquele receio incômodo de perdê-la, comecei a ir com ela. Nunca entendi direito como o evento funcionava — as regras eram bem complexas — mas os textos dela eram lidos em voz alta, e, quando tudo acabava, sempre aparecia alguém para dizer que tinha gostado deles. Mesmo sem compreender, eu ficava feliz, contagiado pela felicidade dela. Acho que passei a ser assim desde que a conheci: meu riso sempre vinha por tabela, provocado pelo riso dela, que por sua vez era provocado por coisas cada vez mais imprevisíveis. Quando ela não estava por perto, eu não sabia direito o que sentir, e falava a primeira banalidade que me viesse à cabeça. Talvez por isso eu tenha concordado tão prontamente quando falaram num livro de contos que seria rateado pelos membros do clube. Nossa poupança foi ficando cada vez menor, e o filho dos meus sonhos foi envelhecendo, aprendeu a falar, e já me chamava para jogar playstation, antes de passar pelo ventre da mãe.

O livro teve um lançamento bacana, com um bifê de comida árabe, e muita gente pedindo autógrafo. Heloísa me fez uma dedicatória bonita, dizendo que não conseguiria escrever uma linha sem meu amor e minha compreensão. Fiquei tão feliz que não liguei a mínima para a falta de retorno financeiro. Durante algumas semanas me senti muito próximo dela, cheguei a ler alguns de seus textos, e até desejei ter mais dinheiro para bancar seus sonhos. Comecei a fantasiar que, se ela se tornasse escritora, seria uma mãe mais dedicada, talvez lesse poesia para os filhos, talvez lhes ensinasse francês, que ela sabia um pouco, mas não falava na minha frente por insegurança. Imaginei uma Heloisinha delicada, introspectiva, cercada de livros e diários, falando em francês com a mère os segredinhos que desejasse esconder do pai. Nessa época ela andava escrevendo uns contos de mulheres tresloucadas que queriam abandonar o emprego e o marido, e nem sequer sabiam por quê — nem sequer tinham amantes. Claro que eu não compreendia nada daquilo, e logo comecei a sugerir, sorrateiramente, que ela escrevesse sobre filhos. Talvez fosse interessante abordar o tema de uma mulher que a princípio tem certo receio da maternidade, mas aos poucos acaba sendo conquistada pela fragilidade e delicadeza de seu bebê.

Fiquei surpreso e feliz quando vi que minha sugestão fazia efeito. Ela começou a escrever sobre um homem que adorava a vida de solteiro, a independência, a liberdade, e ainda tinha vontade de conhecer Las Vegas. Esse pobre diabo descobre que tem um filho com uma mulher do seu passado, e o moleque já passa dos oito anos quando os dois se conhecem. Então vão surgindo uma série de situações engraçadas nas quais ele vai aprendendo a aceitar e a gostar do filho. Pode não ser uma idéia original, mas eu vibrei a cada página. Não entendo de literatura, e não saberia dizer se estava bem escrito, mas eu ficava pensando que Heloísa, afinal, começava a aceitar a idéia da maternidade. Acreditei que aquele menino atrevido e inteligente, com que eu tanto sonhava, estaria agora morando também nos sonhos dela. Daí até ele mudar para o nosso apartamento seria só um pulo.

Adorei a forma como o livro terminava. Os dois tinham uma discussão, e o menino demonstrava uma astúcia fora do comum. O homem acabava por dizer: "Você é mesmo bem parecido com seu pai, hem!", tentando salvar sua autoestima. "Então você conhece meu pai?", o menino perguntava. E só nesse momento o protagonista e o leitor percebiam que a mulher ainda não tinha contado a verdade para o filho. O sujeito descobre que tem a chance de sumir, de desaparecer da vida dos dois, e o menino ia se lembrar dele apenas como o amigo da mamãe que o ensinou a jogar damas. Mas, após alguma hesitação, o personagem responde: "Sim, eu conheço seu pai. Graças a você, eu o estou conhecendo cada vez melhor", e depois disso fica implícito que ele decidiu aceitar definitivamente o papel de pai.

Poucas vezes chorei com um livro, e durante muito tempo esse choro me fez acreditar que Heloísa era mesmo uma ótima escritora. Foi com enorme prazer que a ajudei na revisão, depois imprimimos várias cópias e começamos a mandar para as editoras. Ela parecia muito feliz, e pensei que seria apenas questão de semanas até ela me dizer que parou com os anticoncepcionais. Mas essa notícia acabou não vindo. Em vez disso, ela passou a perguntar sempre: "Você olhou a correspondência? Nada ainda?" Depois ela se fechava no quarto, ou ficava horas absorta, olhando para o nada, e mexendo nos cabelos. Eu sentia sua angústia por tabela, e me perguntava o que estaria faltando. Afinal, a estória era bem pensada, comovente. O que mais as editoras queriam? Essa aflição não demorou a passar. Logo começaram a chegar as respostas.

"Concluída a avaliação do original em referência, informamos que sua publicação não foi indicada, ainda que apresente evidentes qualidades."

ou

"Apesar de apresentar qualidades literárias", etc, etc. "Os originais serão destruídos conforme as normas da editora", etc.

Todas as cartas diziam mais ou menos a mesma coisa. Heloísa as lia, depois as passava para mim, com um olhar resignado: "Não foi dessa vez, amor".

Às vezes tentava ser mais leve: "Não tem jeito, não não dá para enganar profissionais". Mas eu sentia o quanto ela estava desapontada e intimamente revoltada. Notei que ela nunca falava a respeito, e procurei também evitar comentários. Imaginei que lhe seria mais fácil esquecer se não conversássemos sobre o assunto. De vez em quando ela dizia alguma coisa como "Esse pessoal só está publicando estórias sobre prostitutas", e eu dizia: "É verdade, é uma vergonha". Um dia ela brincou: "Se eu me tornasse garota de programa e fizesse um diário, aposto que eles publicariam!" Eu respondi "Por que você não inventa um diário? Os escritores costumam ter uma imaginação bem fértil". Mas ela desconversou, e senti que alguma coisa nesse argumento não lhe agradava. Ao mesmo tempo fiquei pensando: será que ela seria capaz disso? Seria capaz de fazer programa só para escrever um livro? Logo concluí que não. Minha mulher podia ser excêntrica, mas quebrar as regras não era seu forte.

Algum tempo depois ela já não falava sobre livros, e fiquei pensando que de repente a fase de escritora tinha sido como a de atriz: uma dessas aventuras de juventude que vivemos apenas para ter o que contar aos netos. A idéia de um filho voltou a me seduzir, principalmente quando vi que meus amigos já estavam com seus pequenos Tiagos e Daniéis. Passei a convidá-los incessantemente à nossa casa, e adorava quando eles perguntavam à Heloísa: "E vocês, quando vão encomendar um?" Mas eu notei que ela andava meio desanimada, calada, sisuda. Fiquei com medo de ela inventar uma nova moda; talvez agora quisesse aprendar a cavalgar, ou pilotar avião. Felizmente, nada disso se passou. Acho que Heloísa estava apenas envelhecendo.

Uma noite eu voltava de uma sinuca  com amigos, e me surpreendi com uma cena realmente trágica. Heloísa tinha tirado seus vestidos do armário, e os estava picotando, reduzindo-os a tiras e retalhos, formando uma massa caótica de tecido pelo quarto. Fiquei pasmo. Eram vestidos caros, que imitavam cortes dos anos cinqüenta, com golas e botões enormes. Ela pagava metade do seu salário num vestido daqueles, por que agora estava se empenhando em destruí-los? Num primeiro momento suspeitei que estivesse pensando numa carreira de estilista. Mas notei que ela ria nervosamente, jovaga as tiras para o alto, chegou a atirar algumas pela janela, "Está gostando, amor? Está vendo como eu mudei?" Depois teve um brusco ataque de choro. Soluçava, sacudindo os ombros e a cabeça, chorando com o corpo inteiro. Percebi imediatamente que se tratava de um ataque nervoso. Abracei-a com carinho, procurei tranqüilizá-la. Encarnei rapidamente o papel de marido compreensivo que tanto me agradava.

— Não fique assim, linda. Eu te amo. Apenas me diga o que está acontecendo. Me deixe cuidar de você.
— São esses vestidos! — Ela gritou. — Nunca mais vou usar esses malditos vestidos!

Obviamente não entendi, e deduzi que era caso para um psiquiatra, ou pelo menos um analista. Fiquei ali, abraçado nela, pensando em como eu era bom, amável, paciente. Talvez ela estivesse descobrindo que também não queria ser escritora. Queria apenas alguma profissão que justificasse o uso daqueles vestidos exóticos. Ou talvez começasse a perceber que era uma pessoa medíocre, sem nenhum talento fora do normal. Mesmo que fosse escritora ou atriz, teria uma carreira discreta, sem nada que destacasse seu nome. Seu nariz excêntrico não bastava para lhe dar uma personalidade autêntica.

Em contrapartida, eu descobria em mim algo realmente descomunal. Era essa capacidade para adorar Heloísa, para amá-la mesmo no fracasso, para servi-la sem compreendê-la. O que antes me parecia uma fraqueza agora eu via claramente como um talento raro e especial. Qualquer homem no meu lugar teria pensado imediatamente em divórcio. Mas eu estava disposto a cuidar de Heloísa, a pagar um tratamento, a perder os amigos, e encarar a reprovação da minha família se fosse preciso. Eu aceitava — e acho que até desejava — que ela fosse uma espécie de destino elevado e inevitável ao qual eu me entregaria com a bravura dos guerreiros e a convicção dos mártires.

Depois de algumas semanas ela começou com a análise. Os remédios eram apenas ansiolíticos fracos, e isso me surpreendeu menos que o fato de ela passar a usar terninhos de poliéster. Ainda mais estranha foi a notícia de que ia fazer uma plástica no nariz. Eu nunca gostei realmente daquele nariz, mas gostava de ser um homem capaz de aceitar uma mulher com nariz feio. Conversei com ela, falei que não precisava renunciar à sua originalidade para se encaixar em nenhum padrão de beleza. Eu a aceitava do jeito que era, eu a amava. Não previ que eu me decepcionaria tanto com sua resposta.
— Renunciar à minha originalidade? Que originalidade?

De fato ela parou com suas pequenas extravagâncias. Não falou mais em livros, não comprou vestidos estranhos. Quando chegava do trabalho, ligava a televisão, conversava sobre previdência privada, planos de saúde, drenagem linfática, férias em Cabo Frio. Alguma coisa me incomodava naquilo tudo, mas eu não sabia o que era. Às vezes ficava contente, planejava com ela um cruzeiro até Buenos Aires, uma viagem à Itália, ou alguma outra coisa que nossos amigos já tinham feito. Mas depois ia para o quarto, ficava olhando para o teto, me perguntando o que estava errado afinal. Por que eu me sentia tão vazio?

Um dia arrisquei abordar o assunto. Estávamos num barzinho, a bebida me deu coragem para falar sobre algo real.

— O que está acontecendo, amor? Você não sente que está faltando alguma coisa?
— Eu sei o que você quer dizer — ela falou num tom resignado, sem nenhuma emoção. — Se você quiser, eu paro com os anticoncepcionais.

Fiquei muito assutado, não com essa resposta, mas com a súbita percepção de aquilo parecia não me importar.
— Claro, amor. Por que não? Minha mãe sempre me cobra um neto.
— A minha também...

E em poucos meses tínhamos a notícia para nossas mães. Elas pareceram realmente contentes, ao contrário de Heloísa, que continuava meio amuada, e agora estava até mais pálida — mas eu não arriscava comentar, porque talvez fosse algum efeito da plástica. Quando comecei a falar sobre nomes, ela disse que ainda era muito cedo. Eu sabia que era cedo, mas queria preencher aquele silêncio incômodo que tinha se instalado entre nós. Decidi não contar de imediato para meus amigos. A coisa estava ainda muito recente, e eu queria esperar pelo menos um ultrassom. Hoje me pergunto se essa decisão não foi fruto de algum pressentimento. Quando a levei ao hospital, naquela noite confusa, de alguma forma eu já sabia o que estava acontecendo. Quanto mais eu lhe dizia que era só um sangramento, uma coisa normal em qualquer gravidez, mais eu me preparava para a notícia fatídica. Estranhei que ela não parecesse triste, e isso até me incomodou. "Meu Deus, será que é isso que ela quer?", me perguntei, assutado. Mas evitei pensar no assunto. Sempre preferi enxergá-la com outros olhos.

Estávamos no quarto quando o médico chegou com a notícia. Vi que ela ficou com os olhos marejados, e ansiei que ficássemos a sós. O médico disse ainda algumas palavras de praxe, "Você é jovem, saudável, poderá tentar muitas outras vezes". Ela levou as mãos ao rosto, e eu assumi um ar grave, logrando esconder que não sabia como agir. Mas quando o homem saiu do quarto, tudo foi ficando mais claro e confortável. Abracei Heloísa, falei de como ela era importante para mim, mais importante que um filho, mais importante que qualquer outra coisa que eu pudesse encontrar na vida. E logo fui me sentindo mais à vontade, sabendo como agir e o que dizer. As palavras vinham quase espontaneamente à minha cabeça, e depois que as pronunciava, eu ficava satisfeito com a sonoridade, a elegância. Eu aprovava minha índole generosa, minha paixão constante e elevada. Acho que foi nesse dia que percebi com mais clareza que não era propriamente Heloísa que eu amava, era esse homem generoso e compreensivo que eu havia me tornado. Um marido compassivo, protetor, fiel. Quando chegamos em casa, levei-a para a cama no colo, e fiquei pensando: meu Deus, que homem eu construí! Que homem eu sou! Nessa noite percebi que a situação que sempre havia durado entre nós agora tinha se invertido. Eu não a amava mais em primeiro lugar. Amava primeiro a mim mesmo, depois a Heloísa, pelo homem que ela me permitia ser. A partir desse dia me senti preenchido por uma paz quase sobrenatural. Nunca mais temi que ela me traísse, nem que me deixasse. Essas coisas pareciam simplemente não me atingir. Também não a atormentei com a idéia de filhos. O posto de marido passou a me satisfazer completamente.

Poucas semanas depois, ela voltou à idéia dos livros. Mas agora queria escrever uma estória infantil. Obviamente não contrariei, dei todo o apoio necessário. Cheguei a dizer que bancarei a edição do livro, se as editoras não se interessarem. Quem sabe ela não faça sucesso com um público menos exigente? Quanto a mim, estou feliz com minha descoberta. Agora vejo que meu amor é algo muito maior que eu tinha pensado — é como uma matriz que justifica e define minha vida. A decisão de ficar com ela de certa forma me deixa imune às adversidades, imune até à própria Heloísa. Não temo mais o que ela possa fazer. Tenho a satisfação de ser algo que ela ainda não conseguiu alcançar, algo que eu mesmo construí. Um dia talvez ela se dê conta disso, e quem sabe resolva escrever um livro sobre mim. Por hora me contento em ser meu próprio personagem.

quarta-feira, 13 de janeiro de 2010

Estranha São Paulo

Sinceramente, eu gosto de São Paulo. Muitos reclamam da chuva, mas há ótimos restaurantes, as pessoas são educadas, as garotas de programa são carinhosas e bem humoradas, apesar do sotaque caipira. Porém confesso que não lembro o que vim fazer aqui. Eu queria estar na Cidade do México, para fugir do calor torturante do Rio. E de repente acordo neste apartamento em São Paulo, descalço, todo amarrotado, embrulhado numa roupa de ontem. Da janela vejo prédios pequenos e carros velhos, certamente não estou nos Jardins, nem no Sumaré. Noto que os outros que dormiram na sala também começam a acordar. Aguardo alguns segundos, e pergunto:
— Quem me trouxe para cá?

Eles se olham intrigados, as duas garotas riem. São morenas de olhos pequenos, mas estranhamente corpulentas para descendentes de japoneses. Faço outras perguntas que só causam mais risadas. Então surge do corredor uma figura conhecida. É o Maurício, já está calçado, certamente acordou há mais tempo.
— Não fale em português, eles não entendem com facilidade.
O que será que ele quer dizer?, me pergunto um segundo antes de começar a entender. Volto para a janela e vejo uma placa no prédio em frente: "Ferreteria Reina - Accessorios para muebles". Começo a recordar algumas cenas, o pequeno restaurante em Santa Fe, depois a cervejaria na Plaza de Toros. Uma canção em espanhol me vêm à cabeça, mas provavelmente não a ouvi no bar, onde só se tocava música americana. Deve ter sido no avião. Maurício me dá um café, e o sabor me confirma a localização geográfica. Mas eu preferia estar no hotel, assim poderia tomar um banho e me recompor mais à vontade. Fico olhando para as duas morenas, estão abotoando as calças e as sandálias. São bonitas, apesar das sobrancelhas grossas. Conversam sobre alguma coisa engraçada, que não chego a compreender. Eu falo espanhol, mas não o entendo bem, principalmente quando pronunciado assim, entre risos e onomatopéias. Noto que uma delas é mais agitada e falante. A outra é introspectiva e serena. Penso que seria bom se essa fosse a minha.
— Qué harás esta noche? — Pergunto depois de alguns rodeios.
— Encontraré a mi marido, ya lo sabes. — Ela responde quase sem me olhar, e percebo que é uma cretina. Me dá vontade de sair daquele lugar. O cara que acordou com elas está num canto lendo jornal. Talvez seja o marido da metida, e tenha dormido na sala só para garantir que não rolasse nada. No táxi penso em perguntar ao Maurício quem eram aquelas pessoas, mas ele zombaria de mim, e espalharia a história para metade do Rio de Janeiro. Procuro falar de outra coisa:
— Eu queria comprar aquele rum venezuelano que tomei na sua casa.
— Vai ser difícil encontrar. A Venezuela está meio brigada com a Colômbia.
— Ah, odeio política.
— Por falar nisso, comprei ingressos para uma luta de boxe.
— Boxe? Mas eu queria ver uma tourada.
— Não tem tourada de noite.
— Mas não está amanhecendo?
— Você está ruim mesmo, hem. Está anoitecendo. Você deve estar confundindo por causa do fuso-horário.

Vejo que isso torna ainda mais difícil entender como fui parar naquele apartamento. Aceito humildemente o boxe, e deixo de pensar no assunto. Aposto no americano só para ser do contra. Na platéia, deduzo que o negro seja o americano, e começo a torcer por ele. Chega uma hora em que ele dá uma porrada tão bem dada no queixo do branco, que este fica com os braços caídos e os olhos arregalados, como se estivesse tentando lembrar o que foi fazer ali. Quando ele finalmente cai, vibro e digo que sabia que a noite era do negão. Maurício me olha intrigado:
— Então por que você apostou no branco?

Depois me bate aquela fome e lembro que a última vez que almocei foi em outro meridiano. Maurício está cansado e diz que vai para o hotel. Mas, quando entro no táxi, fico me perguntando quando foi minha última trepada. Se foi há mais de dois dias, já posso procurar uma bela garota de programa. Explico a situação ao taxista, que parece compreender, e me leva a um bar cheio de morenas com cabelo amarelo. Mas escolho uma beleza local, com cabelos negros e pequenos olhos de índia. Ela me lembra Catalina, minha agente em Bogotá. Se meus livros venderem bem na Colômbia, pretendo comprar uma jóia cara e levar Catalina para jantar. Meus amigos dizem que sou muito antiquado com as mulheres. Eles são pobres, não fazem idéia de como essa tática funciona.

A garota compete comigo pelas arepas. Depois me explica por que devemos ir a um hotel mais afastado, distante da agitação do centro. Não estou seguro de ter entendido, mas posso ir a qualquer lugar que aceite cartão de crédito. No quarto noto que ela tem seios meio ovalados, tipo os da ex-mulher do Gustavo. Então recordo que transei há pouco tempo com essa mulher, pode ter sido há menos de dois dias. Mas percebo, aliviado, que isso não prejudicará minha performance. O corpo jovem da garota já acionou minha virilidade. Enquanto abro a camisinha, ela mantém minha ereção com os lábios e as mãos. É uma mulher compreensiva, deve ter mais que os vinte anos que aparenta. Quando começa a me cavalgar, fico pensando em Catalina, se ainda está casada, se é católica, se isso fará muita diferença. Depois trocamos de posição e reparo mais na garota. Ela geme delicadamente, tem uma doçura jovial que a profissão ainda não estragou. Fecho os olhos e me entrego ao prazer seguro das batidas. Depois saio de cima dela e me enrosco nos cobertores. Volto a pensar em Catalina, e recordo uma coisa que ela me disse quando nos conhecemos. "Detesto llegar al fin de tus libros. Me gustaria leerlos para siempre." Sei que é mentira, as mulheres odeiam meus livros. Mas eu saco um pequeno estojo aveludado e digo que é só uma lembrança, que quero que ela pense mais em mim que em meus personagens. Ela o abre avidamente, e seus olhos brilham como os pequenos diamantes incrustrados na platina. Seguro firme uma de suas mãos. "He esperado tanto para decírtelo, e ahora no me salem las palabras." Assim vou passando da imaginação ao sonho. Catalina me acaricia, suas mãos são leves e frescas como uma brisa marinha. Mas logo se tornam quentes e ásperas, e um buzinaço vindo da rua me faz abrir os olhos e dar de cara com o sol. A garota não está no quarto, pego minhas roupas e as apalpo em busca do passaporte. Felizmente, tudo em ordem. Pela janela, vejo que o hotel fica ao lado de um cemitério. Me divirto pensando que, se eu escrevesse isso, todos tentariam — e conseguiriam — enxergar alguma bobagem simbólica neste trecho.

A água do chuveiro demora um pouco a se aquecer, mas saio do banho renovado, lamentando apenas ter de vestir uma camisa que já começa a feder. Penso em ligar para o Maurício, deve haver ao menos uma tourada marcada para hoje. Encontro, amassado no bolso de trás da calça, o cartão de um hotel em Rosales. Quando lhe passam a ligação, ele me parece ligeiramente desesperado:
— Onde você está?
— Estou num hotelzinho em Las Mártires, em frente ao cemitério.
— Que diabo você está fazendo aí? Por que não veio para o hotel que reservamos?
Agora lembro vagamente de uma conversa sobre um hotel com vista para um braço dos Andes.
— Bem... encontrei uma garota...
— Tudo bem! Me dá o endereço, passo aí para te pegar.
— Você sabe de alguma tourada?
— Depois a gente fala sobre tourada. Sua palestra começa em quinze minutos.

Que diabo será isso de Palestra? Só pode ser idéia da Catalina. Essa gente formada em Letras realmente acredita em palestras. Mas talvez haja tempo para o café. Fico um pouco decepcionado quando me servem os mesmos bolinhos que comi no jantar de ontem. Peço ovos mexidos, e ouço, do saguão, um espanhol arrastado, cheio de vogais abertas. É o Maurício que já me descobriu. Está com uma cara afetada, como se realmente se importasse com um atraso de cinco minutos. No táxi, tento pensar em algo para dizer. Não quero contar pela milésima vez que meus pais queriam que eu fosse advogado, e que depois, quando ganhei o Jaburu, mudaram de idéia e me deram um apartamento na zona sul. De repente chegamos a uma sala escura e sem mobília, com um pé direito monumental. Deduzo ser a coxia de um anfiteatro. Entre ecos, reconheço a voz de Catalina. Parece estar dizendo que meu último livro vendeu cem mil exemplares na Colômbia. Será que ouvi direito?! Quando verei esse dinheiro? Um sujeito de terno claro me indica um corredor. Chego ao palco e sento à mesa que deve ser para mim, pois é a única vazia. As palmas me ensurdecem por alguns segundos, mas logo cessam, ao contrário de uma luz ofuscante que jogam na minha cara. Sinto que é hora de dizer alguma coisa, quero fazer um gracejo qualquer, mas nada me vem à cabeça. A luz decai lentamente e começo a ver os olhinhos pequenos que me fitam ansiosos; parecem realmente esperar que eu diga alguma coisa.
— Minha mãe queria que eu fosse advogado — começo, sem muita convicção.
— Quando encaro uma platéia desse tamanho, fico me perguntando por que a contrariei.

Todos riem, e rio com eles. Ainda não sei o que dizer, mas estou relaxado, talvez até feliz. De repente, como um relâmpago, lembro perfeitamente o que aconteceu quando cheguei a Bogotá. Tudo começou numa livraria, onde uma jovem me perguntou se eu era aquele escritor brasileiro que tinha dado uma entrevista ao Espectador. Sim, eu sou aquele escritor brasileiro. Nunca conseguir ser outra coisa, e agora tenho cem mil testemunhas. Olho para Catalina, ela está aflita, certamente já percebeu que não preparei nada para dizer. Começo a ter uma idéia mais definida da jóia que vou lhe dar. Cem mil exemplares! Será que dá para uma casa em Cartagena? Não, melhor levar Catalina para o Rio. Lá ela não conhece ninguém, dependerá totalmente de mim. Será apenas preciso fazê-la desistir do marido, mas agora isso me parece mais fácil que nunca.

domingo, 20 de dezembro de 2009

Onde estão minhas fadas?




A vida é amarga, mas não é amarga como um bom café. Ela é chata, pequena, mesquinha. Depois dos dezesseis anos todo sonho já vem com o carimbo de Sonho Impossível. Mas eu sou teimosa: eu sonhei assim mesmo. Eu quis enxergar um charme especial naquele cabelo grisalho,  não apenas o sinal de que ele mentia a idade. Acreditei que a ex-mulher de Petrópolis era uma megera que só se preocupava com academia e botox. Depois ainda vislumbrei um amor paternal na forma como ele falava da cocker spaniel. Sonhei que aquele carinho e aquela dedicação um dia seriam para mim. No hotel em Cabo Frio, eu chupei como uma profissional, eu abri as pernas em cima da mesa, depois ainda fiquei me perguntando se eu tinha sido perfeita. Ah, como eu queria acreditar que eu tinha sido perfeita! Quando as flores começaram a chegar, eu pensei: “Até que não foi tão difícil. A proposta e o anel vêm depois”. Ainda havia nos meus olhos cansados, um resquício de comédia romântica que me fazia pensar em anel, em dança de salão, em palavras de filmes antigos. Naquela manhã constrangedora, ele disse que seu único vício era o café, e eu quis acreditar também nessa bobagem. Os filmes não me ensinaram dos outros vícios, da capacidade para mentir, do desprezo inabalável que um homem pode sentir, mesmo depois de dois anos na mesma cama. Isso eu tive de aprender aos tropeços, entre um riso fingido e uma manhã de ressaca, um orgasmo fingido e um telefone mudo. Mas eu sou teimosa: eu vou sonhar assim mesmo! Vou acreditar que ele temia me perder para alguém mais jovem, que ele gaguejava quando falava minha idade para os amigos — talvez escondesse os famosos comprimidos azuis no bolso interno do paletó. Semana que vem já vou olhar aquelas fotos com outros olhos. Vou me deixar convencer pelo meu próprio riso falso, e jurar para qualquer amiga que eu fui feliz. E esse choro irritante de hoje, esse silêncio, que não me deixa perguntar onde errei, vai ser só mais uma lembrança indigesta, como o sêmen que engoli em Cabo Frio. Quando outro homem falar em cocker spaniel, quando eu vir outra gravata de seda e outro anular sem aliança, os meus olhos vão estar prontos para mais poesia, e a minha boca, para mais de sêmen. Porque eu sou teimosa, eu vou sonhar com tanta força que a realidade vai acabar se parecendo com minha fantasia, nem que seja por piedade.

sábado, 31 de outubro de 2009

A notícia do século

Meu último artigo havia suscitado uma péssima repercussão. Acho que os leitores não estavam preparados para o impacto do avanço biotecnológico sobre a vida moral. Muitos enviaram críticas ferozes à revista, dizendo que eu tinha deturbado o conceito de "direito natural" e, principalmente, o caráter sagrado da maternidade. Mas nada daquilo me surpreendia. As pessoas são assim mesmo: aponte a mínima possibilidade de mudança nos seus hábitos, e elas o acusam de ser uma espécie de demônio. Não toleram mudanças, não suportam o fato de que a vida como é agora é só uma das muitas vidas possíveis. Se tomarmos outros caminhos, o mundo que surge diante de nós pode ser tão belo e desejável quanto o anterior, o sofrimento está apenas na nossa resistência.


Mas eu havia estudado o assunto por mais de 10 anos, e minha opinião não era mero palpite. O custo das técnicas Cold Milltered já havia baixado bastante, facilitando a abertura de clínicas no terceiro mundo. Além disso, nos países pobres, era mais fácil encontrar mulheres dispostas a alugarem seus ventres para a geração de filhos alheios. Quando a prática se tornasse mais comum, haveria um efeito reverso, e ela se popularizaria também nos países ricos. O ato que atende as expectativas dos interessados sempre se alastra com rapidez e facilidade. Logo a prática da barriga de aluguel seria comum no mundo todo. As jovens alugariam seus ventres para pagarem a faculdade. As mulheres mais ricas gerariam seus filhos pelos ventres das mais pobres, e não apenas por motivos de saúde, mas também por razões estéticas. Quando o processo se tornasse mais fácil e mais comum, muitas mães optariam pela barriga de aluguel apenas para poupar as transformações do corpo e a dor do parto. Quem realmente estudasse o assunto veria que era apenas uma questão de tempo. Só retrógrados e ignorantes se opunham às minhas opiniões. Eu não estava dando a mínima para a enxurrada de críticas, pois sabia que ela não vinha de gente balizada.

Quando o doutor Chertrol me telefonou, encarei a situação com naturalidade. Eu era o jornalista que mais entendia desse assunto. Era normal que ele me chamasse para registrar e divulgar as mais novas técnicas da área. Não fiquei envaidecido, não me senti privilegiado. Eu havia dedicado grande parte da vida a compreender e divulgar as técnicas de fertilização artificial. Ele provavelmente queria anunciar uma técnica nova, algo que possibilitasse uma geração de aluguel mais barata e eficiente, e me escolhia para portador da notícia. Era um corolário dos meus anos de esforço. Compareci a sua clínica tranqüilo e preparado para o trabalho. Não tinha idéia de que sairia de lá tão chocado, tão estupefato, e ao mesmo tempo feliz.

Doutor Chertrol vinha se destacando na área de reprodução humana. Mulheres do mundo todo vinham contratá-lo para administrar suas complexas gestações transuterinas. É claro que elas vinham também pela facilidade de se encontrar uma barriga de aluguel no Brasil, mas tenho certeza que a competência e o renome do médico também pesavam na sua decisão. Ele tinha fama de ser um homem frio, um pouco rude, com um jeitão meio caipira. Diziam que havia estudado primeiro veterinária, porque não gostava muito de tratar gente — ouvir lamentações, lidar com neuroses — mas, quando vira o que poderia fazer na área de reprodução humana, regressara à faculdade e conseguira um diploma de medicina. E, de fato, o setor só melhorou com sua decisão. Desde que ele assumira a clínica Nova Gênesis, as notícias de aperfeiçoamento e barateamento operacional eram constantes. Eu estava ansioso por conversar um pouco com ele, conhecer sua personalidade, tentar entender suas motivações. Enquanto estava no táxi, cheguei a pensar numa possível biografia. Cairia muito bem na minha carreira de jornalista científico. Mas era uma idéia ainda muito fresca, e tocar nesse assunto talvez seria precipitar-me. De qualquer forma, eu ficaria atento às oportunidades. Estava tão entretido com esses pensamentos que não me aborreci por esperar quase duas horas antes que ele me recebesse com seu entusiasmo e bom humor.

— Não há desculpa para meu atraso. Não vou nem pedir, sei que não há...
— Ora, não se preocupe, doutor. Sei como é seu trabalho. Não há como prever quanto tempo certas coisas vão durar...
— Sem dúvida! Você não faz idéia de como tem razão. Podemos prever muitas coisas, mas não quanto tempo vão durar, às vezes não sabemos nem quando poderão começar.

Senti que ele não estava falando apenas sobre horários e atrasos.
— Prever nem sempre é fácil...
— Sim, sim! Prever não é fácil. E por falar em previsão, li seu artigo. Quer dizer, nós lemos! Todos aqui na clínica o leram, e comentamos muito.

Eu estava lisonjeado. A essência do meu trabalho é popularizar a ciência, mas confesso que nada me agrada mais que merecer o reconhecimento dos especialistas.

— Fico muito contente com isso, doutor. O que o senhor achou das previsões? Será que tenho chance de acertar? — Eu não esperava entrar nesse assunto tão cedo, mas o bom humor e o elogio do doutor Chertrol me deixaram confiante.

— Falaremos sobre isso, meu caro. Falaremos ainda sobre essas coisas. Por hora digo apenas que você é brilhante. Vejo como você acompanha com atenção o assunto da reprodução humana. Sua intuição lhe faz um enorme bem, pois de fato acho que esse tema vai render as mais importantes inovações científicas do século XXI.

Óbvio que fiquei bastante lisonjeado. Queria muito ter gravado o que ele havia dito, e me arrependi de não ter ligado um gravador escondido. Meus escrúpulos muitas vezes me fazem perder um pouco da glória que mereço.

— De fato, sempre achei que esse assunto tem potencial para uma verdadeira revolução na forma como concebemos a sociedade e a família. — Preferi não dizer que eu me interessara pelo assunto simplesmente porque tenho uma irmã de proveta.

— Sim, você está certo. Não gosto dessa palavra, “revolução”, mas você tem razão. As novas técnicas de reprodução poderão mudar a forma como pensamos o homem e a família. Falaremos mais sobre isso, oh, sim, falaremos...

Ele estava um tanto enigmático. Confesso que eu já estava me cansando daquela história de "falaremos mais..." mas minha ansiedade estava prestes a terminar. Ele me encaminhou para um enorme salão cheio de aparelhos e pessoas trabalhando. Trajavam aqueles jalequinhos brancos, provavelmente eram veterinários ou enfermeiros. No centro havia uma espécie de jardim interno, cercado por barras de ferro, iluminado por uma grande cúpula de vidro. Quando me aproximei, tive a primeira surpresa de nossa entrevista. Vi uma cabra, deitada num gramado artificial, ligada a uma série de aparelhos por fiozinhos de capa transparente. Tive um momento de grande decepção, pois percebi que o motivo da visita não era a reprodução humana, como eu havia imaginado. Doutor Chertrol provavelmente voltara à veterinária e queria divulgar alguma nova descoberta, talvez ligada a clones. O assunto não me interessava muito, mas resolvi não reclamar. Se a coisa fosse realmente nova, pelo menos eu teria um furo, e isso faria bem à minha imagem recém abalada na revista.

Alguns enfermeiros ou veterinários, passavam um emplastro transparente na barriga da cabra. Ela estava estranhamente desanimada, provavelmente dopada. Pelo tamanho de suas tetas e barriga, supus que estava prenha.

O doutor Chertrol não se deu ao trabalho de me explicar inteiramente a situação.

— Vamos fazer uma ultrassonografia. Logo teremos uma imagem.

— Alguma técnica de clonagem? — Perguntei, um pouco ansioso.

— Logo teremos a imagem! — Ele respondeu, sem tirar os olhos do vídeo.

Senti que a imagem era algo definitivo, mais importante que uma explicação. Pus meus olhos no pequeno monitor preto e fiquei atento aos vultos que se formavam. Não consegui enxergar nada demais. Minha mente esperava encontrar alguns cabritinhos nebulosos, algo como as formas que vemos nas nuvens quando somos crianças. Mas eu não via nada parecido com isso, as manchas brilhantes do ultrassom não estavam fazendo muito sentido para mim.

— Você vê o coração? Está vendo o coraçãozinho do bebê? — Doutor Chertrol me apontou entusiasmado uma pequena bolinha pulsante. De fato reconheci algo parecido com um coração, pelo menos dava para ver que batia.

— Aqui está a cabeça... Sim, a pequena cabecinha do bebê, não é lindo?!?

— Não consegui ver a cabeça, talvez por que não fazia idéia de como devia ser a cabeça de um feto de cabra; se tinha chifres, se já era alongada, com um princípio de focinho, etc. Mas fiquei impressionado com a forma carinhosa com que ele se referia ao pequeno animal. Não dizia cabrito ou feto, mas bebê. Pensei em anotar isso para a reportagem, o Doutor Chertrol era de fato um homem emocionalmente envolvido com seu trabalho.

— Desculpe a pergunta, doutor, mas os fetos de cabra já têm chifres? Não estou reconhecendo a cabeça.

Uma risada alta e contagiante encheu o salão. Todos começaram a rir com ele.

— Chifres?! Você está procurando chifres, ha, ha, ha!

Fiquei imaginando o quanto minha pergunta era ridícula. Assim como nascemos sem dentes, as cabras deviam nascer sem chifres. Era óbvio, como pude ser tão idiota!

— Perdoe minha ignorância, doutor Chertrol. Minha especialidade é reprodução humana, não tenho acompanhado nada sobre veterinária.

— O que é isso, amigo! Não se desculpe. Eu é que devo me desculpar. Acho que confiei demais naquela história de que uma imagem vale mais que mil palavras.

— De fato, doutor, olhar para esse ultrassom é como olhar para uma nuvem. Você não enxerga nada, se não souber o que está procurando.

— Oh, meu rapaz, quanta sabedoria! Você não sabe o que está dizendo, suas palavras são mais precisas que imagina... Além disso, tem toda razão, não adianta ficar aqui olhando para esse ultrassom. Vamos voltar para a minha sala. Pessoal, mantenham a diploptamina. Vou voltar logo.

Fiquei envergonhado. Certamente ele esperava que eu tivesse entendido algo só de olhar para o ultrassom. Talvez algo filosófico, sublime, que não tivesse nada a ver com uma simples cabra prenha. Fiquei me questionando enquanto o acompanhava cabisbaixo, evitando os olhares de decepção dos veterinários, que certamente também esperavam algo de mim.

Assim que entramos ele me serviu uma pequena dose de cachaça. Fiquei encantado com sua autenticidade. Um médico medíocre certamente teria uísque importado em sua sala. Agradeci e bebi com prazer o primeiro gole.

— Sabe, Lucas, eu sempre achei um pouco difícil lidar com gente. As pessoas são emotivas demais, não conseguem agir racionalmente...

Eu não tinha idéia de onde ele queria chegar.

— Veja esse caso das mães de aluguel, por exemplo. As mulheres aceitam as condições, assinam um contrato, depois voltam atrás começam a nos encher de processos.

— Muitas não fazem isso por uma emoção verdadeira. São mal intencionadas, querem explorar o casal que as contrata.

— Exato, meu rapaz! Você é a pessoa certa para conversar, você entende minhas dificuldades. Não é fácil trabalhar neste ramo, ainda mais com o atraso da legislação, que insiste em não legalizar a coisa. Os contratos ficam à mercê da confiança mútua, e, você sabe, confiança é algo raro hoje em dia...

— Sei, sei, claro que sei. — Eu conhecia bem o assunto, sabia que algumas mães de aluguel tentavam extorquir o casal contratante ou a clínica, ameaçando processos e ações judiciais diversas para ficar com o bebê.

— Pois é isto, meu caro. Não é fácil lidar com gente. — Enquanto falava, ele ia bebericando sua cachaça. — Então fiquei pensando se não seria possível criar uma espécie de gestação artificial. Um feto crescendo e se desenvolvendo fora da mãe, mas que não fosse numa outra mulher, que não dependesse de outro ser humano, entende? Uma gestação que dependesse exclusivamente de nós, profissionais. Pessoas que não iriam interferir no processo, pessoas que não iam mudar de idéia no meio do caminho...

— Um dia aconteceu uma coincidência, um evento que me ajudou a ter essa idéia. Fui passar as férias na fazenda de um amigo, em Mato Grosso do Sul. Ele tinha uma criação de caprinos, e uma cabra resolveu entrar em trabalho de parto no meio da noite. O veterinário mais próximo estava a uns duzentos quilômetros de distância, e meu amigo me pediu para supervisionar o parto. Ah, foi uma experiência ótima! Não só relembrei minha juventude, minha perambulação de fazenda em fazenda, o cheiro de mato, de esterco, os rugidos dos bichos... mas revivi mais uma vez a magia da vida. Não precisamos fazer muito para que a vida se reproduza, basta lhe dar boas condições e ela faz o resto. Isso não é maravilhoso, rapaz? A vida faz mais vida, precisamos apenas dar uma mãozinha!... — Eu ainda não sabia onde ele queria chegar, mas seu entusiasmo era algo bonito de se ver.

— Ah, meu amigo, essa é a beleza da minha profissão: ver a vida se reproduzir... — o álcool fazia seu efeito. Ele estava sorridente: — Mas, voltando às cabras, voltando àquela noite imprevista, na fazenda do meu amigo, eu fiquei encantado ao ver aqueles bichinhos escapando do ventre da mãe, escapando para o mundo, para a vida! Depois, enquanto ajudava a limpar a pobre fêmea, que estava exausta, reparei numa coisa interessante. O feto humano é relativamente pequeno. Ele caberia com facilidade em outro animal. Numa vaca, Numa porca, talvez até numa cabra... Então, meu amigo... então... acho que você está me acompanhando... Uma cabra não pode processar uma clínica, pode? Você percebe, percebe a grandeza da idéia que estava me ocorrendo naquele momento? O resto, meu amigo, são detalhes técnicos... Proteínas, hormônios, anti-soros... enfim, essas coisinhas sobre as quais debrucei minha juventude.

Eu estava atônito. Sabia exatamente o que ele queria dizer, mas não acreditava. É difícil explicar tudo que passou pela minha cabeça naquele momento. Fiquei zonzo, cheguei a pensar que eu estava passando mal. Doutor Chertrol não pôde deixar de notar:

— Você está bem, meu rapaz?

Mas logo me recuperei: — Estou bem, doutor. Vamos voltar ao salão. Acho que estou preparado para a imagem que vale mais que mil palavras.

Enquanto eu caminhava, ainda estava dominado pela dúvida. De alguma forma eu sabia que aquilo estava acontecendo, um profissional como o doutor Chertrol não iria me falar tudo aquilo em vão. Mas ao mesmo tempo eu parecia estar vivendo um sonho. Algo naquela história era fantástico demais para eu aceitar como realidade. Mesmo assim parei diante do vídeo e esperei. Agora eu sabia o que deveria enxergar, e a imagem logo faria sentido em minha cabeça. De fato, os pontinhos brilhantes foram formando um contorno nítido. Vi os bracinhos retorcidos para dentro, o dorso, a cabeça. Julguei ver até uma pequena orelha. A cabra estava deitada no gramado artificial, indiferente a toda emoção que me perpassava. Ainda em certo estado de choque, olhei para o doutor Chertrol. Ele sorria, parecia ter previsto todo o espanto que me ocorreria com aquela visão. Eu também sorri, na verdade comecei a gargalhar, quase sem controle. De repente percebi que tudo que eu havia previsto estava errado. A barriga de aluguel não se popularizaria, não se tornaria uma prática comum, não geraria renda para estudantes e mulheres mais pobres. Eu era um péssimo profeta. E no entanto estava completamente feliz, pois eu era o portador da notícia científica mais importante do século. Não sabia como agradecer ao doutor Chertrol, e de fato não havia como agradecê-lo. Há homens que simplesmente nasceram para alargar o horizonte do possível. É graças a eles que chegamos até aqui. É graças a eles que cada geração pode fazer muito mais que a anterior. Eu era apenas um jornalista. Tudo que eu podia fazer era contar. Minha tarefa era simplesmente colocar em palavras aquela imagem valiosa que eu havia testemunhado, e que valia infinitamente mais do que elas. Ali mesmo, ainda atordoado pela surpresa, pensei num título para a reportagem: “Barriga de aluguel está com os dias contados”. O resto são apenas detalhes da profissão.