segunda-feira, 5 de janeiro de 2009

A verdade constrangedora sobre Paulo e Sabina

A verdadeira história de Paulo e Sabina é bastante constrangedora. Paulo buscava mulheres mais bonitas e inteligentes que Sabina. Mas elas buscavam homens mais bonitos e ricos que Paulo. Sem muita alternativa, ele acabou ficando com Sabina, que não era assim tão bonita, mas pelo menos beijava bem. Também não era muito inteligente, não gostava de ler, preferia ficar no MSN conversando com as amigas. Esse gosto pela futilidade incomodava Paulo, que teria preferido uma mulher culta, que pudesse conversar sobre Dostoievski, Aldous Huxley, sobre as teorias filosóficas que ele tanto apreciava. Sabina não gostava nem de filme de arte. Achava chato, muito parado, e ninguém pedia ninguém em casamento. Filme, para ser bom, tinha que ter pelo menos um pedido de casamento. Paulo tentou, pela internet, conhecer outra garota. Tinha que haver pelo menos uma que gostasse de ler. E, de fato, havia muitas. Elas liam Clarice Lispector, eram introspectivas, tinham sensibilidade para descrever em detalhes o temperamento de uma pessoa. O rapaz ficava encantado, mas quando via as fotos, percebia que não poderia namorar uma garota daquelas — porque eram feias. Acabou se acostumando aos papos chatos de Sabina. Como não tinha nenhuma cultura, ela só sabia conversar sobre o que os amigos e parentes tinham feito durante a semana. Não falava sobre livros interessantes. Quando descrevia um filme, dizia apenas que era “muito legal” ou “muito ruim”, era incapaz de se lembrar de detalhes da trama. Se Paulo reclamava, ela respondia “Ai, eu sou burrinha, né? Ha, ha, ha...”

Um dia Paulo explodiu, e acabou contando a verdade. Nunca sonhara com Sabina. Ficara com ela apenas porque as mulheres mais bonitas e mais inteligentes que ela o haviam rejeitado. Sabina levou um susto. “Então aconteceu com você também?”, perguntou. “Como assim?”, disse Paulo, confuso. “É que eu também buscava homens mais bonitos e ricos que você, mas eles não quiseram nada comigo.” Os dois caíram na risada. O namoro era fruto das circunstâncias, nenhum deles tinha sonhado com o outro. Mas Sabina lembrou que Paulo beijava bem, e demorava um pouco para gozar — até dava para gozar com ele. E Paulo lembrou que Sabina tinha um corpinho muito gostoso, era safadinha na cama, não tinha vergonha, não ficava com grilos. Ficar com ela era bem melhor que ficar sozinho. Os dois se abraçaram, foi Paulo quem começou a falar. “Desculpa, tá. Na verdade eu tenho que agradecer por ter você. Quando eu estava sozinho, eu era muito triste...” Parou por aí porque sentiu que estava se emocionando demais. Sabina ficou comovida, seus olhos marejaram, mas não sabia direito o que dizer. Acabou dizendo “eu te amo”, o que deixou Paulo um pouco assustado. Ele se sentiu pressionado, achou que a garota queria que ele também dissesse que a amava, mas não era exatamente isso que ele queria dizer. “Eu também te amo”, acabou dizendo, sem saber como se livrar daquela pressão.

Até hoje Paulo não sabe se ama Sabina, mas os dois continuam juntos. E essa é toda a verdade sobre eles. As coisas que eles escrevem nos cartões, as coisas que eles dizem aos amigos, as coisas que eles falam um para o outro quando estão ao telefone, essas são apenas as mentiras que vocês já conhecem.

domingo, 4 de janeiro de 2009

Com as mãos do diabo

Aquela noite foi a primeira em que ela se sentiu realmente esposa, porque teve de esperar. Ele não veio às dez, não veio às onze, e à meia-noite também não conheceu o calor infernal que já lhe queimava o ventre. As roupas foram para o chão. O lençol, esfregando-se em seu corpo, chegou mesmo a parecer um outro corpo, leve como de criança, porém ligeiramente áspero, como os pêlos de um adolescente. E foi mesmo a juventude, com seu ímpeto de descoberta, que tomou aquelas mãos delicadas e as fez descer sobre um ventre que já ardia como a pele do diabo.

Quando abriu a porta de casa, o marido ouviu os gemidos da secreta agonia. Quis matar o amante, depois de invejá-lo pelos gritos sinceros que ele arrancava da sua mulher. Na cozinha, escolheu a faca mais afiada. Chegou ao quarto pronto para esquartejar o próprio diabo, se ele tivesse corpo. Mas o diabo era apenas um calor úmido que agora se esvaía do corpo dela. Não havia mesmo ninguém no armário. Na cama, uma mulher exausta e um lençol molhado. O marido sabia o que tinha acontecido, ou antes, pensava que sabia. Na verdade só a mulher conhecia o segredo daquela descoberta: um segredo que ela não revelaria a um homem que se atrasara mais de duas horas. Dormiram calados. Ele aturdido pelo medo, ela com um riso nos lábios.

quinta-feira, 1 de janeiro de 2009

O Roqueiro Burocrata


Baseado em argumento de Maurício Gouveia


O Roqueiro Burocrata não começou como burocrata. Era muito jovem - treze anos - quando ganhou sua primeira guitarra. Tinha apenas sua audácia. Não comprava revistas com as cifras das canções. Achava que era questão de honra tirá-las de ouvido. Depois já não comprava discos, ouvia apenas o rádio. Queria memorizar os acordes na primeira audição. Nem sempre conseguia, mas fazia progressos vertiginosos, isso era fato.

Quando começou a tocar nas festas de amigos, não aceitava dinheiro. Queria apenas o beijo da garota mais bonita, aquela que sabia interpretar seus olhares e esperar até o fim da festa para ficar com o geniozinho da guitarra. Ele ganhava os beijos, ela ganhava a inveja das amigas, os dois saíam satisfeitos... Mas nessa época ele ainda não cantava. Achava que o amor era grande demais para caber na sua voz. 

Foi só depois do primeiro fora, só depois que a mulher mais linda do mundo preferiu um advogado de gravata e carteira assinada, que ele entendeu que o amor não era assim tão grandioso. O amor, afinal, não estava tão longe da sua humilde voz.

E foi assim que o Roqueiro Burocrata - naquela época ele ainda não era burocrata - se tornou subitamente o melhor roqueiro do mundo. Quando ele cantava, era o mundo que cantava a si mesmo pela sua voz. Quando ele tocava, era o que sobrava do mundo que encontrava lugar na sua guitarra. E nada passava indiferente à voz e às mãos do roqueiro burocrata, e ele era o melhor roqueiro do mundo, embora só quatro pessoas soubessem disso: Seu amigo Lucas, o Carlos, o Marcos Flávio, que era dono do estúdio onde eles gravavam, e a filhinha do Marcos Flavio, que ficava com o papai enquanto ele mixava as gravações. E mais umas cinco ou seis pessoas partilhavam do fato quase secreto: aqueles que compraram seu primeiro disco e jamais viram sua cara nem tinham a menor vontade de conhecê-lo, mas simplesmente sabiam, como sabemos o que é um sorriso e o que é a chuva, que ele era o melhor do mundo no que fazia.

Mas algo obscuro se passou na alma do Roqueiro Burocrata - talvez a falta de dinheiro, talvez outro tipo de desesperança. Ele começou a pensar que o sucesso não era uma questão de ser o melhor. O sucesso tinha algo a ver com contratos, horários, camarins com banheiras e ar condicionado, gravadoras que investiam 30 por cento em publicidade, direitos autorais e turnês. E a música não era mais o único lugar onde ele reencontrava sua fé. A música passou a ser um dever de casa que ele fazia em troca do seu quinhão de mundo.


E todos passaram a ouvir o Roqueiro Burocrata. Todos, menos aqueles cinco que haviam comprado seu primeiro disco e sabiam que ele era o melhor do mundo. Agora ele era conhecido das multidões, mas era apenas mais um. O estranho é que ele mesmo não notava a diferença. Porque quando subia no palco, e queria apenas cumprir seu dever, as pessoas que estavam no chou também queriam apenas cumprir algum tipo de protocolo. Estavam ali para agradar ao namorado, para esquecer os pais, para encontrar os amigos, para aproveitar a promoção de assinante de jornal, para usar os ingressos que haviam ganhando na campanha da empresa, ou por qualquer outro motivo, menos pela música. E o Roqueiro Burocrata também não tinha ido lá para fazer música. E de fato sua música não encontrava os ouvidos de ninguém, assim como as pessoas já não se encontravam nela. Quando tudo acabava, ele ligava para a mulher e dizia: "terminamos mais um amor; em breve poderei voltar para casa."

E foi assim que o Roqueiro Burocrata deixou de ser músico e se tornou apenas um roqueiro burocrata. E até hoje ele não encontrou ninguém que tenha notado a diferença.

Iceman

Na internet ninguém tem filhos, nem estrias, nem cicatriz de cesariana. Eu também era apenas um nome bonitinho — Iceman — algo que sugeria vagamente meu desprezo pelo mundo, mas não delatava minha barriguinha, minhas pernas magras e os comprimidos contra calvície. Quando nos encontramos é claro que isso veio à tona, e ela pensou em acabar tudo, pegando meu telefone e prometendo ligar qualquer dia. Mas eu era advogado, tinha um Audi e pagaria sem dificuldade uma pousada em Cabo Frio ou Búzios. Ela costumava sair com jovens bonitos, que esbanjavam cabelo e bíceps, mas viviam de pequenas pontas em novelas e eventos, tinham no máximo um Pálio, e não persistiam quando descobriam o garoto. Por isso ela teve uma pequena vertigem quando insisti em pagar a conta. Estava ao mesmo tempo revendo seus conceitos de homem ideal e se perguntando qual seria a melhor hora para falar em Daniel — se antes ou depois da primeira foda. Decidiu que depois era melhor, assim já teria me mostrado aquelas habilidades especiais que ela não aprendera na escola — nem com os pais — e justamente por isso considerava seu poder mais autêntico e confiável. Foi aliás lembrando desse poder que ela encontrou segurança para já falar em como gostava de Cabo Frio e seu mar calmo e esverdeado. Eu, que nunca dei a mínima para praia, afirmei terminantemente que amava Cabo Frio e o tal mar esverdeado. Eu amaria o mar, a areia e até as palmeiras de qualquer lugar, se a mulher que me acompanhasse tivesse a delicadeza de me dar, em troca da viagem, o merecido deleite sexual. Ela era jovem e muito bonita — a cicatriz de cesariana era insuspeitável naquele momento — e me parecia que a troca valeria a pena.

De fato valeu. Uma pequena cicatriz não faz diferença nesses momentos, a não ser pela interrogação que suscita. Ela me falou de Daniel, da pertinácia da sua bronquite e do seu desprezo inabalável por tudo que não estivesse diretamente ligado a jogos de computador. Falou das intermináveis horas-extras que ela fez para pagar o cursinho de inglês, enquanto ele matava aula para freqüentar uma lanhouse. Para arrematar, acrescentou que o estado precisava buscar mecanismos mais eficientes de controlar os jovens, antes que eles se tornassem marginais, drogados e pais solteiros. Como toda brasileira, ela achava que qualquer problema devia ser de alguma forma resolvido pelo estado, cabendo aos cidadãos apenas o dever imprescindível de ir à praia e ver televisão.


Não foi difícil perceber que aquele menino era a chave para dominá-la. Se eu me aproximasse do garoto, se o fizesse repetir algumas frases em inglês, se conseguisse convencê-lo da utilidade de um maldito diploma, ela se apegaria tanto a mim, desejaria tanto a minha permanência na sua vida, que talvez chegasse até mesmo a sentir algum prazer quando estivesse me chupando. Foi por isso que decidi comprar o playstation no natal; foi por isso que mencionei o fato de os fabricantes de games serem formados numa faculdade chamada “ciência da computação”; e foi ainda por isso que paguei a conta do oculista e os óculos ridículos que davam contorno definitivo àquela cara de néscio.

E foi assim que eu vivi o delicioso prazer de ter razão. Valéria me amou intensamente, suportou bravamente meus gritos e momentos de cólera, me chupou algumas vezes na sala, enquanto o rapaz estava trancado no quarto, cantando alguma gordinha pelo msn. Pensei várias vezes em abandoná-la, mas descobri que de vez em quando eu também gostava da sua companhia. Ela era a única namorada de quem eu não precisava esconder as garrafas de Red Label. Ela foi a única que ficou comigo depois que os médicos me explicaram o que era pancreatite aguda.

O menino é que nunca me engoliu. Depois que se formou, arrumou um emprego numa multinacional, e disse que não queria mais nos ver. Explicou que gostava muito da mãe, só que não suportava sua condescendência com meu autoritarismo. Mas de vez em quando ele escreve pedindo algum dinheiro, e Valéria se lembra de como ser carinhosa e usar uma lingerie. Acho que somos uma família.