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Os primeiros homens que chegaram em Marte tinham extrema facilidade para cortar e levantar rocha. Afinal estavam numa gravidade três vezes menor que a da Terra. Tudo para eles era muito mais leve, e suas ferramentas eram bastante eficientes.
Eles fizeram casas enormes, com tetos robustos que os protegiam da radiação solar. Usaram canhões de microondas para descongelar a água e fizeram enormes lagos de água salgada. Desses lagos, destilavam água com bastante facilidade. Não é difícil destilar água onde as temperaturas já são naturalmente elevadas. Nas horas vagas, fizeram imensos auditórios de rocha, porque achavam que os próximos humanos, quando chegassem, contariam histórias de como a humanidade foi para Marte, qual a tecnologia usada, o que aconteceu com a Terra, etc.
Os filhos deles, acostumados desde crianças com a gravidade de Marte, já não conseguiam levantar e cortar grandes massas de rocha. Fizeram casas com a chamada argila marciana, um tipo de solo mais mole e menos denso, que necessitava de aglutinante para ficar de pé. Essas casas eram menores, menos imponentes e menos seguras. Eles não sabiam direito por que tinham nascido em Marte. Lá pelos trinta anos perceberam que nunca seriam grandes e fortes como seus pais. Começaram a ficar revoltados.
Descobriram formas de acessar satélites da Terra, e durante algum tempo a grande novidade foi ver vídeos de pessoas fazendo coisas simples, como cozinhar, brincar com gatos, ir à praia, nadar. Isso gerou mais revolta nos jovens, que começaram a se organizar e a exigir que fossem levados à Terra, para conhecer seu planeta de origem, brincar com gatos, ir à praia, andar de bicicleta, enfim, fazer tudo que os terráqueos faziam.
Os mais velhos primeiro tentaram explicar que eles não poderiam viver na Terra. Seus corações não suportariam tanto exercício, tanto movimento, tanto peso. E seus pulmões não suportariam a pressão atmosférica da Terra, dez vezes maior que a de Marte. (Eles estavam acostumados a respirar por meio de aparelhos, que não exigiam nenhum esforço da musculatura do tórax.)
As explicações serviram para gerar mais revolta. Houve um assassinato, seguido de prisão, seguido de mais assassinatos. Os velhos então mudaram de estratégia. Usaram filmes de ficção científica para demonstrar que a Terra tinha sido destruída por guerras e explosões nucleares. A única solução agora seria começar do zero, em Marte. Começar uma nova civilização, uma nova cultura, uma nova ordem social. Alguns acreditaram nos velhos e foram fazendo o que eles mandavam. Outros queriam construir naves, para ir à Terra e ver tudo com seus próprios olhos; tocar com suas próprias mãos, arriscar a vida para descobrir o que realmente tinha acontecido.
Um dos comandantes da missão marciana, um homem já com seus oitenta e nove anos, teve um plano para eliminar os revoltados. Ia construir uma nave imensa, embarcar os dissidentes e dizer que os estava mandando para a Terra, quando na verdade a nave estaria programada para levá-los para o Cinturão de Asteróides. Sem saber da verdade, os próprios revoltados trabalharam na construção da nave. Mas uma mulher do grupo dos velhos, uma senhora de 95 anos, se apiedou dos jovens e vazou informação sobre o destino verdadeiro da nave. Houve novos episódios de revolta, novos assassinatos e novas prisões.
Por fim decidiu-se que a melhor solução seria mandar os revoltados realmente para a Terra. Eles não se adaptariam, viveriam em hospitais e logo morreriam, mas o que se podia fazer, se eles não aceitavam mais viver em Marte? Morreriam na Terra, mas pelo menos deixariam os outros marcianos em paz.
Voltaram à construção da nave, agora com propósitos consoantes. Mas nesse meio tempo os velhos começaram a morrer e não repassaram as informações sobre como terminar a nave, e menos ainda sobre como navegá-la. Os jovens solicitaram essas informações da Terra, mas a Terra não os queria de volta. O que fazer com um bando de fracotes que mal conseguiria levantar uma furadeira? Um bando de baixinhos raquíticos, com data marcada para morrer. Além disso, eles seriam uma verdadeira peste intelectual, porque espalhariam a ideia de que a vida em Marte não valia a pena, contariam que Marte era apenas um deserto sufocante e inútil, e isso seria uma grande perturbação nos planos para construir mineradoras em Marte.
Os jovens marcianos não tiveram outra alternativa senão continuar em Marte, recebendo da Terra apenas alimento e oxigênio, nenhuma informação relevante e sobretudo nenhuma gota de combustível para naves. Tiveram filhos e, cuidando de seus filhos, sossegaram um pouco. Foram cumprindo mais ou menos as instruções que vinham da Terra. Trabalharam em grandes plantas para mineração. Ensinaram seus filhos a ler, a escrever, a destilar água, a calcular uma cúpula, a procurar minas de ferro, cobre, etc.
Os mais velhos, a essa altura, já tinham quase todos morrido. A segunda geração de nascidos em Marte começou a entrar na adolescência e a perguntar sobre sua origem. Os pais, com vergonha de seus sucessivos fracassos para voltar à Terra, com vergonha de suas revoluções frustradas, diziam apenas que eles descendiam de gigantes que eram muito mais fortes, muito mais poderosos e tinham uma tecnologia muito mais avançada que a deles. Gigantes que tinham vindo de outro planeta. Um planeta mágico, onde havia plantas, animais, frutas; onde a água caía do céu.
Os jovens cresceram acreditando nisso, mas seus filhos já duvidavam dessas histórias e achavam que tudo não passava de mitologia. Alguns, no entanto, eram imaginativos e construíram vastas obras teóricas descrevendo como deveria ser o planeta de seus ancestrais. Essas obras confusas eram feitas com base em filmes que vinham da Terra, mas como não conheciam a Terra, os teóricos misturavam informações de filmes de entretenimento com documentários sobre a Amazônia, sobre o uso de drogas, sobre o feminismo, sobre a indústria alimentícia, e no fim tudo continuava parecendo mitologia, fantasia, estupefação. Ninguém tinha uma ideia precisa sobre nada.
Nessa época muita coisa mudou. Robôs da Terra foram enviados para construir as grandes redomas de cristal de alumínio, que protegeriam o solo da radiação. Assim, os marcianos receberam material para começar sua própria agricultura. Obviamente ficaram fascinados com as plantas, esqueceram as revoltas de seus pais, plantaram batata, café, trigo, frutas. Fizeram bolos, pães, sucos, lasanhas, e fartaram-se. Experimentaram um prazer sobrenatural. Ficaram ainda mais impressionados com os terráqueos. Um povo que desenvolvia esse tipo de biotecnologia era mesmo superior em inteligência, destreza e sensibilidade. Não seria estranho pensar que os terráqueos eram deuses. Em honra a tais deuses começaram a fazer grandes festivais que coincidiam com as colheitas. Compunham frases ritmadas que pareciam música, depois cantavam, banqueteavam e faziam amor.
Desses massivos festivais vieram novos filhos, e os filhos aprendiam basicamente a ler, escrever, praticar agricultura e minerar o solo. Para aprender a ler, liam as tais obras teóricas sobre a Terra, obras que não distinguiam fantasia da realidade. Imaginavam a Terra como um local cheio de elefantes, gorilas, cangurus, tucanos, mas também com grandes cidades, automóveis, aviões, festivais de música, pessoas dançando, pessoas usando drogas e mulheres tendo orgasmos. Eles quase não notaram quando os grandes carregamentos de alimentos e utensílios da Terra começaram a escassear. Notaram, depois, quando todo tipo de transmissão de dados que vinha da Terra subitamente cessou. Mas, a essa altura, já não se importaram. Tinham construído sua própria civilização. Sabiam plantar, construir casas, sabiam criar codornas, destilar água e acrescentar a ela os sais necessários à vida. Sabiam minerar o solo e construir os equipamentos eletrônicos mais elementares. Sabiam fazer baterias para seus grandes carros elétricos, que eram lentos como bicicletas, mas eles não sabiam que carros deviam ser mais rápidos que bicicletas, assim como não sabiam que codornas eram menores que galinhas.
Nos auditórios que um dia foram construídos para se falar sobre o Planeta Terra e os motivos da viagem a Marte, agora havia grandes palestras sobre os deuses do passado. Deuses que geraram os marcianos, lhes ensinaram as primeiras palavras, lhes ensinaram álgebra, trigonometria, engenharia elétrica, depois voltaram para seu lugar de origem, que eles sabiam apenas que era um certo pontinho no céu. Um pontinho que ficava mais brilhante em alguns meses do ano. Um pontinho tão distante que era preciso ser um deus para ir até lá. Um pontinho tão fantástico, tão variado, tão vivo, que poderia até ser mentira, e os grandes livros que se escreveram sobre ele poderiam ser apenas grandes mitologias do passado.
Alguns marcianos acreditavam que era para lá que se ia depois da morte. Outros garantiam que depois da morte não havia nada, e que os livros intermináveis sobre o passado eram apenas fantasias tolas de marcianos primitivos, entediados pelo deserto, esperançosos de um mundo mais interessante, mais agitado e colorido.
Quem está com a verdade simplesmente não há como saber.
Não gosto de festa, mas aceito algum convite quando estou súper cansado de ficar em casa. De vez em quando vale a pena conversar um pouco, ver alguém vomitar, invejar os garotos que já têm namorada ou pelo menos arranjaram alguma menina para beijar. Não levo jeito com as meninas, sou muito tímido, só sei conversar sobre filmes e livros e não tenho carro de papai para levá-las em casa. E claro que não posso falar sobre certas coisas. Não estou a fim de ser internado e passar a vida entupido de comprimidos. Se não me taxassem de louco, diriam que sou um ridículo tentando chamar atenção. Para as garotas, daria na mesma.
Às vezes eu queria usar minha invisibilidade para ficar quieto num canto, só observando a galera e rindo das abobrinhas que eles falam. Mas todo mundo ia dizer que eu saí sem me despedir, desapareci sem mais nem menos, possivelmente porque bebi demais, vomitei ou tive uma diarréia. Surgiriam os boatos mais improváveis. Eu sofreria pelo menos uma semana de comentários negativos. Seria o sumidão, o antissocial, o foge-de-festa ou outro nome idiota.
Uma vez pensei em fazer uma pequena demonstração dos meus poderes, levantando alguns objetos, depois falar que aquilo era um truque que aprendi no YouTube. Mas seria muito arriscado. Nas outras festas todo mundo ia pedir para eu repetir aquele truque, e me chamariam para mais festas, de parentes distantes, de amigos de parentes, de colegas do cursinho de inglês, talvez chegassem a me oferecer dinheiro para animar aniversário de criança. E me cobririam de perguntas e implorariam pela revelação do truque, de modo que cedo ou tarde eu acabaria explodindo e gritando para todo mundo que não havia truque nenhum, eu simplesmente tinha o súper poder da telecinese. Isso me levaria a uma cadeia de eventos inevitáveis. 1. Todos me taxariam de louco. 2. Minha mãe acreditaria em todos. 3. Minha mãe providenciaria minha internação. Por isso preciso me segurar. Sei que não posso usar meus súper poderes em público. E enquanto estive pensando nessas coisas, parece que puxaram assunto comigo e não respondi, e agora todos estão rindo e apontando para mim. Entre cochichos e olhares enviesados, percebo que colaram alguma coisa nas minhas costas, consigo alcançar a folha e me deparo com a frase: "Não sou desse planeta".
A raiva chega a me dar azia. Luto contra a vontade de usar a força do pensamento para explodir as cabeças deles. Ou poderia simplesmente me concentrar no mais forte e jogá-lo na parede. Ele cairia no chão com algumas costelas quebradas, os outros não ousariam me enfrentar. Mas consigo me conter. Encosto num canto e rio falsamente, fingindo me divertir. Me ocorre uma ideia que pode funcionar: explodir a lâmpada da copa, apenas para desviar a atenção de cima de mim. Ninguém sairia machucado, e o incidente me tiraria do centro da zombaria. Mas a mãe ou tia de alguém saiu da cozinha e vem pela copa anunciando umas empadinhas. Não quero machucar uma inocente, e além disso estou com fome. Desisto da pequena explosão e mastigo, resignado, algumas empadinhas, que ficam até gostosas com um pouco de Fanta morna. Uma das tias diz que em breve trará o bolo, e só então me dou conta de que é aniversário de alguém. Mas eu não trouxe presente, nem refrigerante, nem faço ideia de quem devo felicitar. Claro que esse detalhe não me preocupa, pois posso ler as mentes dos convidados e descobrir facilmente quem é o homenageado da noite. E como sou meio canalha, começo pela loirinha que até agora não vi beijando ninguém. Respiro fundo, fecho os olhos, e penso que, além do aniversariante, posso escanear alguma coisa que facilite uma aproximação com ela. Estou a ponto de visualizar a cara do sujeito quando uma mão toca meu ombro e uma voz feminina pergunta se estou passando mal. É uma gordinha de cabelo crespo. Digo que está tudo bem, louco para voltar à minha concentração, mas ela me toca de novo e diz para eu não ligar para aqueles meninos, que são todos uns palhaços tentando descontar sua miséria em alguém.
Começo a simpatizar com a gordinha, mas de repente noto que seus antebraços têm pelos demais para um corpo de menina. Meio sem querer, escaneio a mente dela e descubro que ela passou a tarde num salão, alisando os cabelos. Me pergunto por que a funcionária não explicou que ela precisava depilar os antebraços. Não posso escanear essa funcionária, meus poderes não vão tão longe. Então lembro da loirinha e vejo que ela não está mais na sala. Fecho os olhos para escanear os quartos e logo me arrependo, porque as imagens dela com outro cara chegam imediatamente na minha cabeça, com um misto de decepção e repulsa. E quando volto para a minha visão, o rosto da gordinha está a um palmo do meu, e seus olhos estão fechados. Não estava pensando em beijá-la, mas não sou cruel o bastante para desviar os lábios num momento tão delicado. Aceito, resignado, o beijo da gordinha, já pensando numa desculpa para ir embora mais cedo. Mas a danadinha até que beija bem, e acabo relaxando por alguns minutos e curtindo a fricção suave dos lábios dela. Estou tocando seus cabelos quando começam novos risos e gritos. Não sei do que estão zombando agora, se do fato de eu estar ficando com uma gordinha de braços peludos ou de uma gordinha estar ficando com o esquisitão calado que veio de outro planeta. Escaneio a mente de uma magrinha de olhos arre-galados e ela está pensando: "se até essa baleia pode ficar com alguém, não vai demorar para um maloqueiro chegar em mim." Um moreno de óculos escuros está concluindo que devo estar chapado para beijar uma gorda dessas. Sinto um estranho mal estar e vou para o banheiro, mas não estou com vontade de vomitar ou aliviar os intestinos. Sento na tampa do vaso e fico apenas me perguntando por que vim a mais uma festa, por que saio de casa para encontrar pessoas que só querem me humilhar? Escaneio minha própria mente em busca dessas respostas e não as encontro. E de repente lembro que ainda não felicitei o homenageado da noite.
Chego na sala, e quando dou os parabéns já aproveito para dizer que vou ter que sair mais cedo. “Você passou, mal? É assim mesmo, tem gente que não pode beber.” Sinto que ele está orgulhoso por seu corpo se dar bem com algumas latas de cerveja. Deve pensar que esse é seu súper poder. Começo a me despedir do pessoal, “pois é, já vou, etc”. Eles dizem “vai não, fica mais um pouco”, enquanto escuto eles pensarem: “que mané, por que ele ainda não sumiu?” Vou me despedir da gordinha, mas ela está conversando com umas amigas e não me dá muita atenção. Os beijos que trocou comigo talvez fossem apenas a desculpa para esse papo de agora, uma espécie de ritual para entrar na turminha das meninas, ser aceita por elas e se tornar uma delas. Ganho um minguado selinho de despedida. Já não sou mais necessário, já não mereço um beijo longo e molhado, simulando desejo.
Decido ir pelas escadas, e quando percebo que estou com-pletamente sozinho, flutuo lentamente de um patamar a outro, só para lembrar quem eu sou. Quando piso na rua, começa a chover. Gero um brando campo de força para me proteger da chuva. Olho, divertido, os pingos fazendo uma curva na frente do meu rosto. Não ligo se o pessoal estiver me olhando. A festa era no oitavo andar, lá de cima não dá para ver a trajetória dos pingos. Passo alguns minutos no ponto de ônibus, mas, cansado da demora, resolvo tentar outro ponto, na transversal. A chuva está mais forte e aciono meu campo novamente, uma coisa tão trivial para mim quanto assobiar ou cantarolar uma melodia. Então me deparo com uma pequena surpresa. A gordinha da festa passa correndo ao meu lado, e na pressa nem chega a me ver. Nos trechos sem marquise, leva a bolsa à cabeça, talvez tentando proteger a química que deu uma melhorada nos seus cabelos. Sinto um misto de pena e simpatia. Fico invisível, corro para perto dela, e dessa vez gero dois campos, um para mim, outro para ela. Mas ela parece não notar. Deve ser míope demais para ver que os pingos estão caindo a meio metro da cabeça dela. Deve ser distraída demais para sentir que a água não está tocando sua pele. Eu tinha pensado em escanear a mente dela, para saber se ela estava pensando em mim, mas, diante dessa insensibilidade, perco completamente a vontade. Espero até ela entrar no ônibus, fico visível novamente e sento no ponto, ao lado de uma velhinha que me olha espantada, como se eu fosse um fantasma. Sei que meu ônibus vai demorar. Eu poderia pegar um táxi, e apagar a mente do taxista assim que ele me deixasse em casa. Ele ficaria completamente desorientado, se perguntando por que foi até lá. Mas não sou tão canalha, não quero prejudicar um trabalhador.
Estou feliz com minha honestidade quando um pivete se aproxima e fica olhando para a velha como um cachorro olha para um pedaço de carne. Não preciso ler mentes para saber que ele está apenas esperando eu sair do ponto para voar na bolsa da velha como urubu em carniça. Sinto que ele não é muito pesado. Com uma concentração moderada eu poderia jogá-lo no chão ou atirá-lo no meio da rua. Poderia projetar imagens de policiais na cabeça dele, chegando numa viatura e ameaçando prendê-lo. Mas, quando chega meu ônibus, prefiro embarcar calado e deixar o moleque agir. Por que eu salvaria uma velha que não hesitaria em me chamar de louco se eu contasse a ela sobre meus súper poderes? Por que eu salvaria uma idiota que recebe uma pensão do estado para ficar em casa vendo televisão e falando da vida dos vizinhos? Sento no banco do ônibus, feliz por saber que aquele jovem – agora prefiro chamá-lo assim, um jovem desfavorecido – está punindo uma velha idiota que nunca fez nada para melhorar o mundo. Acho que essa é a diferença entre mim e os heróis. Não amo a humanidade, não tenho a menor vontade de salvá-la do que quer que seja. Se eu revelar meus poderes em público, provavelmente me prenderão e tentarão desesperadamente me transformar numa pessoa normal. Não quero gastar nem uma caloria tentando salvar os seres que, se tivessem a chance, não hesitariam em me destruir.
Chego em casa e minha mãe me pergunta se foi tudo bem na festa. Digo que foi tudo ótimo, digo que demorei um poco porque levei uma amiga no ponto de ônibus. Ela fica feliz, nem me pergunta como minhas roupas estão secas. Vou para o quarto, apago a luz e me divirto gerando pequenas bolhas de plasma no escuro. Tenho súper poderes, mas sou lúcido o bastante para não querer ser herói.