domingo, 21 de agosto de 2011

Cinderela às avessas



Quando os críticos atacavam as peças dela, mamãe confiscava o Segundo Caderno antes de passar o jornal a papai. Com reles catorze anos, eu sabia que aquela censura era desnecessária. O velho jamais leria o caderno de cultura, se ela não o ordenasse explicitamente. O teatro e os romances simplesmente não existiam para ele, assim como as coisas designadas por “commodities”, “derivativos” e “auditoria” eram completamente estranhas para mim e mamãe. As pessoas vivem em mundos pessoais, separados por oceanos ou abismos. Pode acontecer que esses mundos se encontrem e interpenetrem, mas apenas pela ação do acaso, nunca pela vontade de seus habitantes.

Eu começava a me dar conta disso quando o acaso quis que o mundo de papai esbarrasse no nosso. Tivemos de nos mudar da casa da Gávea para um apartamento modesto no Leblon. Não fiquei chateado, achei que a proximidade da praia me faria bem. Mamãe é que parece ter se perturbado, pois, junto com Neosaldina passou a comprar caixas de Clonazepan. Mas os críticos lhe davam outras preocupações, e talvez por isso ela não se empenhasse quando papai tentava nos explicar o que era a “armadilha do biodísel”. Também eu tinha meus problemas —  o mar havia me apresentado às mulheres e ao surfe — e mais uma vez achei que as explicações de papai poderiam esperar. Pensei o mesmo quando ele passou a falar em “concordata”, “sinergia” e “concorrencial”, palavras que eu nem sabia se eram da língua portuguesa. Só fui perceber o que significavam quando o velho noticiou que não poderia mais produzir as peças de mamãe.

Um novo mundo começou a surgir diante dela: roupas brancas e folgadas, saladas e sucos de cenoura, palavras impronunciáveis em sânscrito. Ela o chamava de “ioga”. Eu, de “chatice”. A mudança não me agradava. Entre o pessoal do teatro pelo menos eu encontrava algumas garotas ousadas e liberais. Os iogues não aprovavam o álcool nem a camisinha, e isso dificultava minhas aventuras adolescentes. Só então considerei que eu precisava do meu próprio mundo. Um lugar não tão sombrio e exagerado como o palco, mas não tão insonso e repetitivo como os novos mantras da minha mãe. Acho que eu teria me aproximado do meu pai, se ele já não estivesse encontrando uma outra pátria, habitada por mulheres de branco, que lhe traziam seringas e urinóis. Os médicos lhe mostravam fotos negras nas quais uma pequena mancha amarela podia se chamar “morte”. Eu já era quase um adulto e enfrentava com bravura as visitas de domingo, quando ele me ensinava seu novo vocabulário. Pancreatite, insuficiência renal, linfoma — cada semana eu aprendia uma palavra. Cheguei a pensar que eu queria ser médico, tal era minha vontade de possuir um idioma que eu pudesse compreender e manejar. Mas minha mãe me explicou o que significava “plantão”, e concluí que minha ambição lingüística podia esperar. Não suspeitei que o mundo de papai ainda me revelaria surpresas – era bem maior que meu cérebro de moleque podia imaginar.

Quando os médicos lhe deram uma data mais precisa, ele pediu que o levássemos para o Ocean Empire. Recriminei minha mãe, por não ter me contado que tínhamos um navio. Na verdade, não tínhamos, como papai fez questão de explicar. Ele era dono de vinte por cento das cotas de uma operadora de cruzeiros. Isso agora significava o direito a morrer no mar. A idéia me fascinou por seu inesperado romantismo. Me agradava descobrir que no coração do velho também havia espaço para a poesia, não apenas para prazos e cifras. Foi no navio que ele me apresentou a certos papéis que viriam a garantir meu sustento. Imóveis, cotas, participação nos lucros, tudo isso são textos que levam nosso nome. A propriedade é uma filha menor dos símbolos, pelo menos isso eu aprendi, nas tardes úmidas e intermináveis daquele gigantesco navio. Quando aportamos em Punta del Este, sua dor havia me contaminado, e talvez por isso eu não tenha destinado ao cassino as cifras que o direito de família iria me garantir. Mesmo sem saber, papai exercia uma influência positiva sobre minha moral.

Antes de chegarmos a Buenos Aires, sua lucidez oscilou. Tomando-me por um amigo de juventude, pediu perdão por ter flertado com uma tal de Heloísa — mas garantiu não ser pai de Murilo. Confessou que havia financiado a carreira política de Abelardo Lisboa (entendi por que os esquerdistas o odiavam), revelou que certo campo de futebol em Duque de Caxias tinha sido construído para calar os sindicalistas sobre uma questão com o fundo de garantia em 1989. Nada daquilo fazia sentido para mim, mas fiquei contente em ser parte do seu mundo por alguns minutos. Perdoei-lhe os excessos com Heloísa, elogiei a negociação com o sindicato, concordei que Abelardo Lisboa era um traidor desprezível, infame, imperdoável. Consegui evitar que ele visse meus olhos úmidos. Era triste e bonito começar a amá-lo a apenas alguns dias de sua morte.

Na volta para o Rio ele estava mais leve. Recordou certos automóveis do seu tempo, falou de uma mulher de olhos glaciais que o levara ao êxtase apenas com um beijo (não era mamãe), e do seu velho pai, que depois de sofrer a falência do Diário Carioca, fê-lo jurar que jamais compraria um jornal. Nesse momento pareceu perceber que estava diante do filho, e, subitamente, pediu que os enfermeiros se retirassem. Tentou me explicar por que eu tinha que vender a Quadraxur antes mesmo de sua missa de sétimo dia. Me fez anotar o nome de um advogado que tinha contato com um desembargador federal. Explicou (sem sucesso) o que era a estratégia da gestão compartilhada. Depois se exaltou um pouco, e chegou a se erguer ligeiramente da cama para dizer:
— Podem achar que fui um homem negligente, mas não poderão falar que o deixei desamparado. Este caminho, meu filho, eu deixo para você. Pelo menos isto vai ficar depois da minha partida!

Falou “caminho” apontando para o chão, e não entendi se ele se referia ao navio, às informações que acabava de me dar ou ao mar, que jazia perene sob nossos pés. Também não tive tempo para perguntar, pois logo seu pulmão titubeou, e tive de chamar a enfermeira. Ela, por sua vez, chamou o médico que apenas me olhou fixamente, tentando me transmitir que seria mais fácil se eu entendesse tudo através do silêncio.

No velório julguei ver uma senhora de olhos glaciais que talvez tivesse despertado êxtases em jovens românticos. Pensei, por alguns minutos, que deve ter sido bom viver num tempo em que beijos tinham força suficiente para fixar uma lembrança. Depois me dei conta de que aquele pensamento pertencia a meu pai. Foi a última vez que o mundo dele passou pelo meu. Logo eu estaria de volta às danceterias, às canções vulgares e mulheres fáceis. Fui vendendo um a um os bens que tinha herdado. Fui vivendo uma a uma as farsas que o cinema tinha traçado para moleques como eu. Aluguei o subsolo de um prédio comercial em Ipanema e fundei um inferninho que a polícia federal demorou apenas dois meses para interditar. Produzi um ridículo filme sobre uma prostituta no divã, que não fez sucesso nem entre jovens onanistas. Acho que só não perdi nos cavalos, porque os filmes em que se perdia em cavalos não eram do meu tempo. Mas o golpe mais duro veio no dia que fui renovar o seguro do carro. Quando um sujeito não pode pagar o seguro de um BMW é porque está realmente na pior. A circunstância me fez recordar que eu não havia mexido nas cotas da operadora de cruzeiros. Antes mesmo de conseguir pronunciar o nome da empresa, eu conheci um sujeito que conhecia um cara que tinha certa ligação com um advogado que já tinha trabalhado para um estaleiro que poderia estar interessado na compra. Depois de quatro jantares, seis reuniões, e alguns milhares de reais gastos em consultoria, foi marcada a data na qual eu assinaria os papéis.

Por coincidência um dos transatlânticos que a empresa operava estava ancorado no Rio. Um sujeito da operadora me conseguiu um cartão de visitante, e pude lamentar a venda silenciosamente, enquanto bebericava na piscina. Mais tarde, quando fui para o cassino, eu não pretendia jogar, apenas assistir. A desventura dos outros me ajudaria a esquecer a minha. Se acabei apostando um pouco, foi por culpa da bebida; se perdi muito, foi por culpa minha. Eu podia ter parado antes. Quando subi para o deque, me deparei com vazio do céu noturno, e lembrei as palavras inusitadas que meu pai dissera antes de morrer: “Este caminho, meu filho, eu deixo para você. Pelo menos isto vai ficar depois da minha partida.” O tal caminho, naquele momento, era tão obscuro quanto a cor do mar. Me perguntei quanto tempo eu levaria para esquecer aquilo tudo: a morte do meu velho, a venda das cotas, o fim inesperado de uma vida pretensiosa e inútil. É um pequeno truque que aprendi com uma ex-namorada: quando algo me perturba, me pergunto quanto tempo vou demorar para esquecê-lo. Estava perto de uma resposta, quando me surpreendi com a presença de uma mulher. O sobressalto me fez reparar primeiro nos pés descalços, depois no vestido sofisticado, e por fim no rosto altivo, delicado, suavemente impressionante. Ela havia tirado os sapatos — certamente se acabara de dançar — mas o ar de cansaço não comprometia seu porte seguro e distante.

A gentileza, não a pretensão, me levou a puxar assunto.
— Você também gosta de navios?
— Amo as estrelas — respondeu, sem me voltar os olhos.

Percebi que ela podia estar olhando o céu, não o mar. À nossa frente, os dois se tocavam.
— Você vai fazer um cruzeiro só para olhar as estrelas?
— Não é a mesma coisa olhá-las do continente.

Alguns pontinhos nervosos tremelicavam no horizonte. Não me contentei com eles, e arrisquei um olhar para cima. Descobri que, durante toda a vida, tinham me negado uma revelação. Ninguém me contara o quão assombroso e definitivo pode ser um céu estrelado. Olhei para a mulher, e quis fazer uma pergunta que eu mesmo não sabia qual era, mas sabia que ela teria a resposta. Sem perceber que me atendia, ela disse:
— Antigamente não havia GPS. Os marinheiros se guiavam pelas estrelas.
— Como você sabe dessas coisas? Você trabalha neste navio?
— Meu pai era da marinha.

A resposta não atenuava meu absurdo sentimento de opressão. Eu não podia deixar de invejar as pessoas que tinham conquistado um alfabeto e uma pátria. Como defesa desesperada, pensei em dizer que eu tinha vinte por cento daquele navio. Talvez isso me desse um pequeno lugar no país que ela acabava de me revelar. Talvez me permitisse mais alguns minutos daquela noite sagrada. Mas essa lembrança só fez aumentar meu sentimento de culpa. No dia seguinte eu mesmo assinaria os papéis que me condenariam definitivamente ao desterro. Sem uma justificativa para dar, sem nada que pudesse alegar em minha defesa, murmurei apenas:
— Meu pai morreu no mar.

Fiquei algum tempo aguardando uma palavra de conforto. Eu precisava entrar no mundo dela, nem que fosse pela piedade. Para não itimidá-la, desviei os olhos, e os fixei nos pontinhos brilhantes que eu havia descoberto. Sua imobilidade contrastava com o barulho das ondas, que me confortava, como uma carícia gigantesca e invisível. Me assustei com o pensamento de que o mar podia ser mesmo um ótimo lugar para morrer. Foi talvez buscando esquecê-lo que voltei os olhos para a proa, à procura da mulher. Junto à faixa cor de rosa, que ascendia do mar, notei sua ausência. Como uma cinderela às avessas, ela entrava no meu mundo descalça e partia ao amanhecer.

Mas sua fuga me deixava presságios. O teatro e o mar, no passado, eram pontes que me levavam às mulheres. Agora uma mulher ausente me apontava o mar e as estrelas. O sol, que machucou minhas retinas, me surpreendeu pensando no futuro. Eu ainda era dono de vinte por cento da operadora; acreditei que a companhia não me negaria um emprego. Em vez de vendê-las, decidi que usaria as cotas para obter um cargo naquele navio.

Um dia eu reencontraria a cinderela, e teria um distintivo para anunciar antes do meu nome: gerente, coordenador, supervisor. Certamente haveria alguma patente que me daria coragem para falar de mim mesmo, e não mais no cansativo adeus de meu pai. Apoiado nessa idéia, liguei para o advogado e comuniquei o cancelamento da transação. Ele falou sobre tribunais e indenizações. Achei que isso me vetaria o emprego na operadora. Na entrevista com um dos gerentes, descobri que o obstáculo era outro. O homem não pôde conter a decepção quando percebeu que eu não sabia sequer o que era um espelho de popa. Também gaguejei ao tentar explicar o que seria um calado. Foi o bastante para que ele se despedisse me indicando um curso básico de náutica.

Mas isso seria muito pouco para a ambição juvenil que eu acabava de descobrir. Eu queria algo que chegasse mais perto de uma lenda. Um empréstimo de mamãe — ela largara o teatro e fazia inveja nas amigas, administrando uma franquia de produtos naturais — me permitiu partir para a insuspeitada Finlândia. O destino não era uma fuga aleatória como pode parecer. O país é um dos únicos do mundo onde se fabricam transatlânticos.

Foi lá que descobri um curso superior de mecânica náutica. Cinco anos bastariam para concluí-lo, mas não me recriminei por precisar de sete. A aspereza do finlandês exigia paciência. Além disso, fui o único aluno a levar a sério a geometria de Gauss. Só depois de realmente aprendê-la pude entender por que era desnecessária. Mas o curso me fazia bem. Eu começava a dominar o alfabeto pelo qual o mar me anunciaria suas fortunas e tormentas.

Às vezes prestava atenção a uma ou outra mulher finlandesa. A gesticulação vulgar, o hábito da bebida, a dança falsamente erótica me lembravam as brasileiras. Mas nunca deixei que o prazer que elas me davam na cama ofuscasse a lembrança da sublime cinderela. O abstrato conto de fadas pairava seguro acima da turbulência inevitável da minha juventude. Na formatura, meus colegas não entendiam por que eu não partilhava do seu entusiasmo. O que para eles era uma conquista, para mim era apenas um primeiro passo.

De volta ao Brasil, não esperei uma semana para comparecer à operadora. Bastaram-me alguns meses para me tornar supervisor de embarcações. Era, sem dúvida, o passaporte para a nação que eu sonhara, mas eu ainda não me julgava pronto para reencontrar minha heroína. Ficaria acanhado se tivesse de revelar que, por trás daquela patente pomposa, estava a atividade banal de verificar se salmões e alcachofras tinham chegado à cozinha.

Quando meu cruzeiro voltou para o mediterrâneo, eu podia ter escolhido outro. A companhia tinha vários no Brasil. Mas nenhum pedaço de terra me inspirava saudade. Meus pés haviam se acostumado a um piso oscilante; meus olhos, a um horizonte vazio, sem formas. Comecei a conhecer meu navio como um cego conhece a própria casa, como um cão conhece o dono. Se cambaleássemos ao sair da costa, eu podia dizer, pelo barulho do motor, qual dos cilindros precisava de manutenção. Logo ganhei autorização para supervisionar os pistões, e acesso à sala de controle. Durante as férias adquiri, num antiquário de Santos, um astrolábio ainda em condições de uso. Não contei a ninguém, mas, se a mesa de GPS falhasse, eu poderia fazer os cálculos e ditar nossa direção. A tripulação logo começou a me consultar a respeito de tudo. Certa autoridade informal passou a envolver minha pessoa. Alguns anos mais tarde, quando me tornei capitão, não foi nada mais que uma vivência interna que ganhou um nome e um número no meu contracheque.

Foi quando comecei uma campanha tácita para trazer meu navio de volta ao Brasil. Houve uma pequena dificuldade chamada Procuradoria Especial da Marinha, logo compensada por facilidade chamada Transferência Bancária Internacional. A natureza da operação não me permite falar em detalhes, mas garanto que foi bem sucedida.

Eu mesmo não sabia por que ansiava tanto por voltar à costa brasileira. Mas nas noites em que eu caminhava a esmo pelo deque foi ficando claro como me sentia em casa. Nenhum céu cintila como o dos trópicos, nenhum mar é tão aconchegante e sereno. Próximo a Punta Del Este, eu recordava incessantemente a figura de meu velho pai. Se seu fantasma visitasse uma das minhas vigílias, eu poderia dizer que havia finalmente descoberto o caminho que ele havia me deixado. Acima de mim, a ciranda brilhante que ditava meu destino; abaixo, o mar perene que me sustentava a rota. Entre eles, os cilindros incessantes de um transatlântico. Senti que eu tinha encontrado algo que ia permanecer também depois da minha morte. Algo maior e mais durável que uma vida. 

Depois dessas conclusões, acreditei que encontrar a Cinderela seria mera questão de tempo. Ela adorava navios. Mais cedo ou mais tarde, eu vislumbraria seu porte altivo se destacando na agitação do cassino, ou talvez silenciosamente conformado à solenidade do baile de gala.

Uma noite eu bebericava lentamente no salão de gastronomia, quando vi uma mulher se sentar a uma das mesas e tirar os sapatos. Tinha as faces coradas, não sei se pela bebida ou pela agitação da dança; sei que reconheci imediatamente o rosto polido da minha noite mítica. Os traços do tempo o haviam completado, sem lhe tirar o mínimo de encanto.

Consegui disfarçar a agonia quando puxei assunto. As respostas confirmaram laconicamente meu pressentimento. Não era seu primeiro cruzeiro, seu pai fora da marinha, ela adorava as estrelas. Em pouco tempo, encontrei oportunidade para usar a primeira pessoa.
— Não é engraçado... — comecei, sem convicção. — Meu pai não entendia nada de náutica, mas me deixou parte de uma operadora de cruzeiros. Um dia antes de me desfazer completamente da herança, eu conheci uma mulher que realmente gostava do mar. — Eu temia chegar rápido demais ao ponto crucial. Meus olhos pediam um mínimo de incentivo.
— Continue — ela disse, confirmando nossa sintonia.

E como eu queria continuar. Queria falar da minha juventude oscilante, do teatro ao inferninho de Ipanema; descrever as noites brancas da Finlândia; confessar os dias em que o aquecedor estragado me mostrava o quanto fora insensato abandonar os trópicos. Depois eu narraria o entardecer deslumbrante do mediterrâneo, meu namoro comprometido e silencioso com meu navio, nosso balanço ritmado da Itália à Turquia, onde fui aprendendo a interpretar seus sussurros e a manejar meu caprichoso astrolábio. Eu ansiava, em suma, demonstrar que me tornara digno de habitar o mundo que ela mesma havia me apontado da proa de um transatlântico. Por isso a intromissão de uma figura masculina, alta, sorridente, chegou quase a me ferir. O brilho nos meus olhos deve ter se extinguido quando a ouvi tratá-lo por “amor”. Ou talvez quando reparei na aliança na mão esquerda. Foi com indiferença que me apresentei como comandante. Foi com desdém que a ouvi manifestar surpresa.
— Só uso a farda nas noites de gala — justifiquei.

Antes de se despedir, ela calçou tão vagarosamente os sapatos que senti que no fundo tinha entendido minimamente o que se passava. Seu adeus tinha a delicadeza e o encanto do nosso primeiro encontro. Como as constelações, minha vida voltava ao mesmo lugar, mas algo invisível tinha mudado. Algo que não me deixava sentir a despedida com a emoção estéril do luto. Quando olhei pela janela, a vasta mancha negra que me envolvia pareceu fazer sentido. O mar tinha se tornado o idioma no qual eu lia e escrevia meu destino; a pátria espiritual que eu tinha buscado no teatro agitadiço dos homens. Recordei uma noite de tempestade, perto de Palermo, quando uma onda modestamente rude já bastaria para me estilhaçar na cordilheira. Mas ele me resguardara delicadamente na costa, me ensinara a pressentir e confiar no seu amor.

Não posso dizer que o tenha compreendido inteiramente, e que seu temperamento obscuro tenha deixado de me surpreender. Mas me conforto na estranha intuição de que ele compreende a mim. Ele, que os poetas chamaram de espelho das estrelas, sustenta a rota que eu acredito determinar. A morte do meu pai e a despedida da cinderela talvez tenham sido apenas os primeiros passos no encontro com essa imensidão soberba e indefinida, na qual todos vêem o mar, e eu enxergo agora, sem sombra de dúvida, meu princípio de eternidade. 

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