domingo, 19 de julho de 2009

Sonho falado

Podia ter acontecido a qualquer um, mas o fato se deu com André Soares Mendonça, quando desceu do ônibus no centro do Rio de Janeiro. Ao ver a jovem morena que debatia com um camelô o preço da pulseira de Swarovski, acreditou que enxergava a mulher da sua vida. Como mais tarde confessou aos amigos, a visão lhe prejudicou bastante o trabalho. Não conseguia aceitar que estivesse pensando em girassóis, pois sempre achara que quando se apaixonasse pensaria exclusivamente em rosas. Mais tarde, já em casa, chegou a se irritar por não saber fazer canções nem poesia. Não queria que o dia terminasse sem que se registrassem de algum modo os belos sentimentos que tivera pela manhã. Decidiu que voltaria ao centro no mesmo horário, diariamente, e foi nesse momento que se inquietou com o medo de esquecer o rosto altivo da morena, antes de voltar a vê-la. Não conseguiu dormir sem que a solução surgisse do seu pensamento confuso e obcecado.

No dia seguinte procurou uma delegacia de polícia para dar queixa de um assalto. Exigiu um retrato falado, alegando poder recordar em detalhes o rosto da meliante. O desenhista foi chamado, e André, aliviado, descreveu os pequenos olhos de índia, os cabelos lisos, a boca carnuda e discretíssima, que nem por um segundo ele vira aberta. Obteve uma cópia do desenho e agora passa diariamente na barraca de bijuterias para proceder sua inspeção silenciosa. Quer acreditar que reencontrar a morena é mera questão de tempo. Pede ao destino que não se apresse, porque ele ainda não sabe bem o que dizer; mas que tampouco se demore, a ponto de que o papel desenhado se torne apenas a lembrança risível de uma bobagem de juventude.

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