domingo, 4 de janeiro de 2009

Ateus e Muçulmanos

Marcelo era ateu, mas de um ateísmo singular, que não vinha do seu professor de história, nem do seu psicanalista. Vinha de sua avó. A velha era católica demais, ia sempre à missa, falava dos santos e do Juízo Final. Por isso todos ficaram revoltados quando apareceu o tumor.
— Logo ela, que tem tanta fé! Por que Deus faz uma coisa dessas?!?

O rapaz estava entrando na adolescência, e queria compreender a contradição. Se Deus existia, por que deixava sofrer os que acreditavam nele? Seu pai não soube responder:
— Essas coisas transcendem o entendimento, meu filho.

Mas o jovem estava angustiado. Queria se livrar logo da contradição. Resolveu dar a Deus um ultimato:
— Cure minha avó, e acreditarei em Você!

A velha morreu no dia seguinte, logo depois de deixar um bilhete aos netos:

Meus queridos, não esqueçam suas orações.

Todos se comoveram, menos Marcelo, que a essa altura já tinha cedido à descrença total.
— Pobre velha. Morreu com sua ilusão.
— Não diga isso, meu filho!
Por dentro, todos pensavam como ele, mas em público preferiam passar como crentes.




Veio o vestibular, vieram o primeiro carro e a primeira namorada. Marcelo agora acreditava na ciência e nas leis impessoais que regiam o universo. Deus era a ilusão de que os desafortunados precisavam para levar a vida. Ele vivia por outros motivos: as mulheres, por exemplo. Eram gostosas de beijar, de tocar, e cediam facilmente quando estavam bêbadas. Era uma lei da ciência: mulher + álcool + carro = sexo = prazer. Ele só não entendia era por que elas eram tão pegajosas, por que faziam tanta questão da fidelidade. Era mais uma coisa que transcendia seu entendimento. Assim como a rápida ascensão do islamismo no seu país. Mas Marcelo continuava achando que religião não passava de ignorância.
— Essa gente precisa de ilusões cada vez piores... Que tristeza!

Mas, quando soube que os muçulmanos eram polígamos, a idéia imediatamente lhe agradou.
— Até que enfim, uma religião mais realista.

Os primeiros candidatos muçulmanos começaram a aparecer. O plano deles era simples: chegar ao poder por vias democráticas, depois acabar com a democracia. Mas é claro que em público declaravam outra coisa. Queriam apenas dar uma opção política a quem já era convertido. Marcelo, que nada entendia de islamismo, via a coisa apenas pelo lado que lhe agradava. Seu pai é que não aprovava a idéia.
— Essa gente é muito autoritária, isso não me cheira bem.

Mas o rapaz estava entusiasmado.
— Que é isso, pai? Religião é tudo ilusão. Se é para escolher, que seja uma que pelo menos nos deixa ter quatro mulheres!

O velho deu uma risada gostosa.
— Esses jovens... Só pensam nisso!
Mas a idéia passou a persegui-lo. Sua mulher, mesmo com a plástica, não tinha mais aquele encanto. Quando ele via uma bela jovem no trabalho, era inevitável desejá-la.

“Meu Deus, ainda me sinto tão cheio de vida. Por que não?”

Os homens de sua idade tinham pensamentos semelhantes. Em público ridicularizavam o islamismo, mas, quando estavam sozinhos, pensavam: “Ora, uma segunda mulher, mais jovem, não seria nada mal...”

Outros guardavam algum rancor antigo, e viam no islamismo a possibilidade de se vingar: “As mulheres estão muito abusadas. Estão nos fazendo de palhaços! Essa religião vai colocá-las no seu lugar.”

Com as mulheres se passava coisa semelhante. Em público criticavam arduamente o islamismo, aquilo era um atraso, uma falta de vergonha! Mas em privado pensavam: “Os homens teriam de nos sustentar, seria ótimo! Estou cansada de trabalhar o dia inteiro, e ainda ter de arrumar tudo aqui em casa.”

Assim, contrariando todas as expectativas, os muçulmanos chegaram ao poder, provocando um misto de contentamento e medo.

As mulheres foram as primeiras a se arrepender. Os homens que tinham amantes mais jovens oficializaram sua poligamia. As garotas fúteis, que buscavam apenas uma vida luxuosa, consentiam facilmente em ser a segunda esposa de um homem rico. Quando se arrependiam já era tarde.

Mas Marcelo estava feliz. Era bonito, e tinha boa posição social. Conseguiu uma loira de sua classe, e uma morena pobre e bonita que aceitou ser sua segunda esposa, pensando no bom apartamento em que ia morar. Tudo ia muito bem. As duas faziam compras juntas, e a loira fingia suportar as gírias de pobre da morena.

As coisas só pioraram quando seu pai morreu. O velho tinha se casado novamente, e deixou três filhas pequenas. Marcelo agora era o mais velho, tinha a obrigação de sustentá-las. Mas já tinha seus próprios filhos para sustentar, o que não era nada fácil. Suas esposas exigiam curso de inglês, natação, TV a cabo.
— A televisão aberta está uma baixaria, não podemos deixar nossos filhos verem essas coisas!

Marcelo descobriu o que era hora-extra. Com muito custo conseguiu equilibrar as finanças. Mas chegava em casa muito cansado, e não conseguia desfrutar das suas beldades. Com isso elas foram ficando cada vez mais rancorosas. A enorme diferença cultural entre as duas passou a ser fonte de desentendimentos.

Um dia Marcelo se olhou no espelho e perguntou onde estavam seus cabelos. Tinham ido pelo ralo, assim como sua alegria de viver. Sua vida era trabalhar para sustentar mulheres, de cujos corpos ele já nem conseguia desfrutar. A súbita consciência do seu estado lhe causou uma imensa fúria. Justamente nesse momento as mulheres começaram a discutir. O marido pediu que as duas entrassem no quarto. Houve certa expectativa:
— Será que ele vai fazer com as duas? Mas isso Alah não permite...

Sim, ele fez com as duas. Fez o que Alah permitia. Na semana seguinte ainda havia hematomas.

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